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A obra sonora de Cildo Meireles

Camila Molina - O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2011 | 00h 00

Artista resgata projeto dos anos 1970 para criar o disco Rio Oir, em mostra na cidade

"Eu me guio pela dispersão", diz Cildo Meireles. A frase se refere a dois aspectos da obra do artista, desde a variedade de ações e escalas de suas poderosas instalações e trabalhos de raiz conceitual/poética, até a prática de retomar projetos anotados anos, décadas atrás. Rio Oir, uma de suas mais recentes criações, em exibição a partir de hoje no Itaú Cultural, é, por exemplo, um disco, com gravações de sons de águas e de risadas - executado nos últimos dois anos, o LP foi concebido em 1976.

Rio Oir é um palíndromo - verbo ou frase que tem o mesmo sentido da esquerda para a direita ou o contrário -, que nasceu de uma ideia "pretensamente poética", afirma o artista. Desde o início, o trabalho não estava relacionado a "ambientalismo", frisa Cildo Meireles, mas ser uma obra de sutileza, criada a partir de jogo e articulação entre palavras e conceitos.

"Ia ser muito simples, um vinil que teria de um lado as águas e de outro, risadas. Queria fazer um rio virtual, com sons já existentes", conta o artista. "O palíndromo é um desvio intruso que reverbera", continua explicando. O lado Rio, é o das risadas, o Oir, o de sons das águas.

"O Brasil tem três bacias hidrográficas - Tocantins/Amazonas; São Francisco; Paraná/Prata - e essas águas se encontram no Oceano Atlântico, mas existe outro ponto em que elas também se encontram, que fica perto de Planaltina, a cerca de 40 ou 50 quilômetros da rodoviária de Brasília. Quando morei lá, na década de 1970, eu ia bastante a este lugar, uma nascente para as três bacias - tem um filete que corre para um pequeno córrego, etc. O nome é Águas Emendadas e sempre achei bonita essa ideia", conta o artista.

Quando convidado a realizar uma obra sobre rios para o Itaú Cultural (dentro do projeto Margem, concebido pelo arquiteto e curador Guilherme Wisnik), o artista resgatou seu caderno de 1976. Estipulou, assim, quatro locais para a captação dos áudios - a estação das Águas Emendadas, a foz dos rios Iguaçu e São Francisco e a pororoca do rio Araguari, no Amapá. Cildo e equipe viajaram pelo Brasil a partir de 2009, e além do áudio para o LP (com edição de som de Filipe Magalhães), a expedição rendeu imagens feitas por Edouard Fraipont e o documentário Ouvir o Rio: Uma Escultura Sonora de Cildo Meireles, de Marcela Lordy.

Inversão. A ideia inicial de Cildo era usar áudios de arquivos tanto das águas como das risadas, mas na década de 1980, quando tentou realizar Rio Oir pela primeira vez, percebeu que os sons de arquivos não tinham limpeza para serem usados no LP. "Achei, primeiro, que seria mais lógico utilizar sons já existentes", conta Cildo. Com o convite do Itaú Cultural, afinal, foi possível realizar captações sonoras próprias para a obra. Assim, além da viagem pelas quatro localidades brasileiras para a captação de sons das águas, foram gravadas em estúdio de São Paulo "quase cem risadas". "Para o disco, ainda foram incorporados risos de cartum e pensei até em chamar o Silvio Santos com sua risada icônica para participar", afirma o artista. Cildo já realizou dois LPs conceituais nos anos 1970, Mebs/Caraxia e Sal Sem Carne e hoje os exemplares desses trabalhos são raríssimos. Rio Oir, além de seu formato em vinil, terá tiragem digital.

Mas a exibição da obra no Itaú Cultural ganhou ares de instalação. No térreo da instituição, no local onde são apresentadas as mostras do projeto Ocupação, o visitante adentra um espaço com cenografia e arquitetura para a experiência sonora - e sensorial. Imagens e vídeos estão em back-lights para apresentar a expedição, mas é dentro de duas salas - em um formato circular e unidas por caixas com duas vitrolas - que se pode ouvir o trabalho. O lado Rio, das risadas (com áudio de cerca de 10 minutos), é um espaço espelhado. O Oir, do outro lado, é totalmente escuro e som com duração de aproximadamente 15 minutos.

Inicialmente, a ideia do artista era fazer com que o áudio dos rios começassem sutis, com o som do filete de água, e caminhassem num crescendo até o "espetaculoso" (da pororoca). "Mas o real impactou e orientou o trabalho. Hoje, os rios estão caminhando para se transformarem em águas residuadas, eles já nascem mortos", diz o artista. "Em Águas Emendadas, chegamos a um lugar em que os caras secaram a nascente e fizeram um poço para usar a água para lavar carro, etc." O áudio Oir, portanto, se inicia com a exuberância do som da pororoca e vai descendo até os pingos do poço. A obra reflete, assim, um fato - não pessimismo e ironia. "Se existe poesia nesse trabalho, é a da resistência diante da vida", conclui Cildo, que prepara grande exposição para 2013 na Fundação Serralves, em Portugal, e para o Museu Reina Sofia, em Madri.

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