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'A Obra de Sartre' revisita o existencialista francês

Versão atualizada do livro de István Mészáros busca revelar grandeza e antinomias do pensador

Regina Schöpke,

20 Julho 2012 | 18h00

Por mais duro que seja, é preciso, segundo o filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), reconhecer nossa finitude e contingência, porque só assim poderemos encarar com responsabilidade esta dura (porém necessária) tarefa de produzir-se como homem, como espécie, como ser. De fato, a afirmação de que "a existência precede a essência" traz em seu cerne uma crítica profunda à metafísica tradicional e a sua ideia de "ser" como algo dado, pronto. Este, aliás, é o grito de guerra do existencialismo de Sartre: o homem não tem uma essência; ele a constrói no tempo e no espaço de sua existência. É neste sentido que ele é um ser histórico: esta é a sua essência real. Ao contrário dos outros entes, ele é livre para produzir a si mesmo, e é o único responsável por esta criação. É assim, pelo menos, o que pensava Sartre, que foi considerado, ainda vivo, o maior expoente daquele movimento de ideias que tem suas raízes no cristianismo singular e atormentado do dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855).

Sim, é impossível não ligar o movimento existencialista à angústia e ao desespero desse pensador nascido em Copenhague, que se via inexoravelmente só na sua relação com Deus, com o Todo. A solidão existencial: este também é o ponto nevrálgico do existencialismo de Sartre (para quem o mundo é absolutamente contingente, sem um sentido superior ou mesmo intrínseco, sem uma razão de ser maior). O mundo e nós mesmos, ele diria: tudo pode ser ou não ser como é. Resumindo: a vida é absurda, gratuita, e a percepção disso produz em nós a "náusea" do existir, o horror de se ver como um nada - algo que só pode ser remediado quando tomamos nas mãos o nosso próprio destino e criamos nossa existência.

É exatamente sobre o filósofo parisiense tão admirado quanto odiado (e às vezes as duas coisas ao mesmo tempo) que trata A Obra de Sartre, do húngaro István Mészáros, cujo subtítulo é Busca da Liberdade e Desafio da História. Esse livro - que ganha versão atualizada (saiu originalmente em 1979) - está longe de ser um simples registro da vida e da produção do francês. Ao contrário, ele busca revelar a grandeza, mas também as antinomias, desse pensador que foi, simultaneamente, um admirador do marxismo stalinista e o divulgador de uma ideia de liberdade que, no fundo, se mostrava incompatível com um sistema que precisava de "mão forte" para ser implantado.

Na verdade, o que vemos exposto nessa obra densa e crítica é esta difícil conciliação, em Sartre (ou mesmo em todo o existencialismo), entre o pensamento do singular, do indivíduo total, com a ideia da necessidade do político e da convivência coletiva. Mészáros mostra como esse filósofo de origem burguesa - e que por isso, no entender do próprio Mészáros, nunca poderia deixar de ser um burguês em seu íntimo, mesmo quando se colocava contra as tiranias de sua classe - aliava, ao mesmo tempo, a paixão pela liberdade plena (que não deixa, de fato, de ser um delírio cristão e capitalista) com o desejo de uma moral que verdadeiramente ligasse os homens entre si, para lá de sua solidão existencial. No fundo, Sartre parece ter sempre lutado contra ele mesmo para articular o seu existencialismo com o marxismo - o que, muitas vezes, se mostrou impossível, já que, sendo um filósofo, ele não poderia aceitar qualquer opressão e aviltamento do homem, fosse qual fosse o sistema político ou econômico.

Sua tarefa, como ele disse certa vez a um jornalista (que tentava expor sua crítica à opressão dos governos comunistas como fruto de uma contradição interna de seu pensamento), era denunciar toda atrocidade e violência por uma questão simples de moralidade; moralidade esta que deve estar acima até mesmo dos ditos "fins nobres". Resumindo: nenhum sistema, nenhuma instituição tem o direito de ferir a liberdade dos homens, embora isto seja feito o tempo inteiro.

Pois bem, além de Kierkegaard, é impossível não ver em Sartre a influência de Heidegger (este pensador que também nunca conseguiu abandonar por completo a sua "batina espiritual"). A ideia do homem que, em sua solidão máxima, é lançado entre outros entes e que precisa tomar nas mãos o seu próprio destino; este ser que difere dos outros por problematizar a si mesmo... Sim, filosoficamente tudo vai bem, mas, na prática, tudo se complica, pois somos, no mínimo, seres naturais, gostemos ou não disso, e não podemos nos constituir sem levar em conta tudo o que está em torno de nós. Afinal, como mostrar a importância de se produzir um elo fraterno e igualitário entre os homens se não existem mais razões superiores, nem mesmo imanentes, que fundamentem tal necessidade? Que diferença faria, então, vivermos em sociedades justas ou nos tornarmos párias neste mundo à deriva, pensado como "mudo e sem sentido"? Poucos hoje conseguem responder a essa pergunta (tamanho o niilismo em que nos encontramos), contudo isto só prova que a filosofia precisa continuar firme na sua luta contra os excessos que também são cometidos pela intelectualidade fria, conceitual. Afinal, a vida também se perde na razão pura.

REGINA SCHÖPKE É FILÓSOFA E HISTORIADORA, AUTORA DE POR UMA FILOSOFIA DA DIFERENÇA (EDUSP) E MATÉRIA EM MOVIMENTO

 

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