A mente brilhante que vi em jantares, conversas e drinks

Depoimento da socióloga Saskia Sassen, que esteve na comemoração de seu 95º aniversário em Londres

Saskia Sassen,

01 Outubro 2012 | 16h29

Além de formar uma geração de pensadores, Eric Hobsbawm ajudou na compreensão que temos da teoria marxista. De um lado, é preciso registrar que ele manteve uma perspectiva marxista da história ao longo de sua carreira, independentemente de como ela era vista pela academia de um modo geral, pouco importando se o marxismo estava ou não na moda do pensamento. Em segundo lugar, porém, é preciso registrar que, ao contrário de muitos pensadores de orientação marxista, Hobsbawm via a história, o processo histórico, como um animal vivo, mutante, que precisava ser constantemente decodificado.

Um aspecto me parece particularmente importante em sua trajetória como pensador. Hobsbawm, jamais, em momento algum, aplicou a moldura marxista à sua compreensão das historiografias. E o resultado disso foi que sua mente brilhante estava sempre pronta para fazer aquilo que fazia de melhor, livre de modas e dogmas. Estive na comemoração de seu 95º aniversário em Londres há algumas semanas. E fiquei, como sempre, impressionada ao vê-lo cheio de vida e de ideias, nunca perdendo a oportunidade de falar a seus interlocutores de maneira memorável.

Ao tratar abertamente de temas como o 11 de setembro e seu impacto na vida política e social internacional, ele reforçava a sensação que aqueles que privavam de seu convívio tinham: quando tratava de temas e episódios extremos, no calor do momento, estávamos acostumados a ouvir dele posições diferentes, fora do eixo tradicional.

Gostaria, no entanto, de oferecer um testemunho pessoal. Eu pude estar ao lado de Hobsbawm em diversas ocasiões ao longo dos últimos 30 anos; minhas viagens constantes a Londres eram marcadas por diversos jantares e encontros para alguns drinks. E isso fez com que eu pudesse ouvi-lo em diferentes ocasiões, conversando informalmente com amigos a respeito de uma enorme variedade de assuntos. E qual o retrato do homem que posso fazer a partir dessas experiências? Deixe-me contar uma anedota leve de nosso convívio. Há cerca de um ano, quando os movimentos Occupy Wall Street, em Nova York, e Los Indignados, na Espanha, estavam em plena atuação, estive com ele em Londres. E perguntei: "Occupy Wall Street, bom, não?" E ele respondeu, sem hesitar um só instante: "Sem partido político, nada é bom."

SASKIA SASSEN, AUTORA DE A SOCIOLOGY OF GLOBALIZATION, OCUPA A CADEIRA ROBERT S. LYND DE SOCIOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE COLUMBIA, NOS ESTADOS UNIDOS, ONDE INTEGRA O GLOBAL THOUGHT COMITTEE  

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