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A grávida e o burocrata

Na segunda-feira, o presidente do Instituto Butantã, Jorge Kalil, das poucas instituições de pesquisa que têm reconhecimento internacional, reclamou ao correspondente Jamil Chade, que, apesar de anúncios e discursos, ações de propaganda e intervenção direta da presidente e ministérios, o governo federal não liberou “um só tostão” para o programa que desenvolve vacina contra o zika.

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Marcelo Rubens Paiva

12 Março 2016 | 02h00

“Continua a burocracia enorme para a liberação de verbas. Pedimos R$ 30 milhões para fazer o programa contra o zika. O Ministério da Saúde autorizou R$ 8,5 milhões. Não chegou nada.”

Para o Ministério da Saúde, ficou acordado que 30% dos valores prometidos estariam disponíveis em até 30 dias. Como o prazo ainda não venceu, está justificado o atraso. E o mosquito pode trabalhar em paz.

Na quarta-feira, o Butantã anunciou que, diante do impasse, vai atrás de financiamento de agências internacionais. O burocrata de Brasília continua com birra. Reclamou em nota que o laboratório não entregou documento obrigatório para a liberação de recursos: “Mesmo estando dentro dos prazos previstos para início das transferências, o Ministério da Saúde fica impedido de destinar os valores diante desta pendência”. A vacina e o combate ao mosquito são secundários. Prioritário são “os documentos exigidos para a liberação de recursos”.

Minha mulher ficou grávida em outubro do nosso segundo filho. Festejamos até novembro, quando se anunciou o surto de zika. A comemoração virou aflição, que virou pânico. Porque, afinal, estamos no Brasil: Estados do Nordeste esperavam há meses o larvicida piroxisen de combate ao transmissor da dengue, chikungunya e, agora, zika, que deveria ter sido enviado pelo governo federal e colocado em reservatórios de água. Em 17 de novembro, contabilizávamos 399 casos de microcefalia.

A burocracia da saúde se revelou o paraíso da doença: municípios são proibidos de comprar diretamente o larvicida; o Ministério da Saúde envia aos Estados, que repassam aos municípios.

Prefeituras como a de Ouro Branco (AL) decretaram emergência. O ministro da Saúde, o desconhecido Marcelo Castro, tranquilizou a população e disse que o Exército produzirá repelente a ser distribuído para gestantes: “Entramos em contato e vamos estabelecer uma parceria”. O Exército negou no dia seguinte que tivesse fábricas que produzissem a quantidade exigida de larvicida.

Numa semana, o número de notificações de microcefalia dobrou no Rio de Janeiro, onde passaríamos o fim de ano, com passagem comprada e festa garantida em Copacabana: foram registrados até 10 de dezembro 45 casos de microcefalia, segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde; na semana anterior, eram 23.

Epidemia estava descontrolada na fuça de um ministro trapalhão, no cargo apenas porque é da ala do PMDB que não apoia o impeachment da presidente, partido dividido que chantageia e ameaça a governabilidade em troca de cargos e pastas. Dada a crise institucional, ganhou a da Saúde, a mais valiosa.

Descobriu-se rápido que o repelente mais eficaz é o Exposis, que oferece proteção contra o Aegypti, Albopictus e o Anófeles (malária), fabricado pelo Laboratório Osler para o Exército francês, que voltava infectado de missões nas Guianas. Ele vem com “icaridina”, fabricado pela Saltigo, da Alemanha.

Em dias, o Exposis sumiu das prateleiras das farmácias brasileiras. Quem tinha amigo ou parente vindo da Europa, encomendou o repelente, não tablets ou smartphones. Quem não tinha, entrou numa fila de espera de meses.

As autoridades continuam a culpar os vasinhos das donas de casa imprudentes. Não se falou da falta de saneamento nem da expansão da fronteira agrícola, que eliminou os predadores e deu de bandeja um suculento, vasto, docinho alimento aos mosquitos. Onde estão os sapos, rãs, pererecas, lagartixas tão comuns nas nossas casas? A última vez que vi um sapo foi no desenho que meu filho vê.

Passamos o réveillon na varanda do meu prédio em São Paulo, cercado de repelentes e com uma raquete que dá choque em mosquito, presente de Natal do sogro. Minha mulher parece uma Sharapova dopada, quando vê qualquer mancha escura voando pela casa. Claro que meu filho achou que os gatos da casa adorariam uns choquinhos.

São Paulo começou o ano com quatro casos. Estávamos tranquilos. Nosso secretário da Saúde é um infectologista renomado, David Uip. Anunciou no Natal que, em janeiro, uma grande força-tarefa combateria as larvas. Por que não começou logo? Mosquitos não trabalham nas festividades de fim de ano? Então não ficamos mais tranquilos no Estado mais rico: a imprensa descobriu que o governo de SP escondia os números, manipulava dados.

Depois de dias estudando as particularidades de cada mosquito, descobri mais Aedes na casa de amigos em Pinheiros do que no Egito. Já os vi na Linha Amarela e na Verde do Metrô, no elevador do dentista e no do meu prédio, no carro, na piscina em que nado e até em casa. Aedes, sim, peludão, fortão, com as listas da camisa da torcida organizada do XV de Piracicaba. Minha mulher não viaja, não sai do bairro, sai de casa toda coberta, com moletom, meia e bota em pleno verão. Parece uma assustada refugiada do Oriente Médio.

A chefe da Vigilância Epidemiológica de Ribeirão Preto informou no dia 6 de fevereiro que, desde o início do ano, 800 casos suspeitos de zika foram notificados. Desse total, 140 eram de mulheres grávidas atendidas na rede municipal. Nesta semana, cinco casos foram confirmados em Turiúba (SP), cidade de 2.009 habitantes. A proporção é de um doente em cada 400 habitantes. No meu bairro vizinho, Freguesia do Ó, tem um caso autóctone. No do meu sogro, em Americana, dois.

Uma grávida que teve manchas vermelhas e deseja fazer um exame de zika, tem que desembolsar entre R$ 900 e R$ 1.600. Laboratórios têm convênios com laboratórios alemães. Planos de saúde não cobrem.

Terça-feira, a OMS sugeriu que grávidas não viajem a países com zika. Mas e as grávidas que moram em países com zika? Quarta, o país contabiliza 745 casos confirmados de microcefalia; há uma semana, eram 641.

A catástrofe é viral e política. Antes de sanear as cidades e os vasinhos de planta, era preciso sanear os governos. E descobrir pesticidas que combatam a incompetência e a burocracia.

 

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