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'A Grande Volta' confronta pai e filho no palco

30 Abril 2010 | 05h 00

Fúlvio Stefanini e Rodrigo Lombardi contracenam na peça traduzida por Paulo Autran e dirigida por Marco Ricca

Ubiratan Brasil - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - A peça A Grande Volta, que estreia neste sábado,1, no Teatro Faap, é como um doce mil folhas, que se abre em diversas camadas. No caso, ao tratar de vários retornos. O primeiro, mais evidente, é observado no palco, com a história do pai que, sem aviso prévio, se muda para a casa do filho - ator ultrapassado, há muito tempo fora dos palcos, ele precisa de um local para ensaiar pois foi chamado para viver um personagem clássico, o Rei Lear, de Shakespeare.

 

O segundo está no texto, que permite reavivar as palavras de Paulo Autran - entusiasmado pela trama quando a descobriu em 2001, o falecido ator logo a traduziu, versão utilizada na atual montagem. Autran pretendia encená-la com Rodrigo Santoro, mas o sucesso de Visitando o Sr. Green (que ele interpretava na época) mudou seus planos.

 

Finalmente, A Grande Volta ratifica a posição de Fúlvio Stefanini entre os grandes atores brasileiros - embora não tivesse perdido a honra, seus últimos trabalhos não ofereciam chances para ele revelar a grande instrumentação que domina.

 

"É uma história cujos personagens oferecem excelentes oportunidades de interpretação", comenta o ator Marco Ricca que, tentado a atuar, decidiu assumir a direção. "Preferi o desafio de apresentar esses dois homens aparentemente tão distintos mas que, no final, se revelam muito parecidos."

 

Boris é o ator decadente que, por conta de problemas de calefação em seu apartamento, decide "invadir" o do filho Henrique, onde pretende ensaiar seu Lear. Não encontra, porém, a tranquilidade esperada: além de perder o emprego, o rapaz recém se separou da mulher, que foi embora com o filho. O ambiente, portanto, transforma-se em um campo de batalha entre duas pessoas com hábitos diferentes, mas totalmente dispostas a interferir na vida do outro. "Aos poucos, porém, Boris e Henrique per cebem que são idênticos, pois têm o mesmo discurso, o mesmo medo e a mesma loucura", observa Ricca, que logo pensou em Stefanini e Rodrigo Lombardi para os papéis. "Já trabalhei com os dois e percebi que, apesar de não parecerem pai e filho, conseguem uma espécie de mimetismo."

 

De fato, a semelhança é necessária. A peça escrita pelo belga Serge Kribus em 2000 funciona como um quebra-cabeça, com os contornos semelhantes de pai e filho despontando vagarosamente. "Os dois têm uma vida muito desorganizada, o que provoca um inevitável atrito", lembra Stefanini. "Mas há uma questão muito forte, a da hereditariedade, que não pode ser esquecida. Por mais que Henrique brigue com o pai, ele carrega o que lhe foi transmitido."

 

Com mais de 50 anos de carreira, Fúlvio Stefanini construiu um delicado trabalho de interpretação que oferece todas as particularidades de Boris - inicialmente um "invasor" de apartamento, o velho ator logo demonstra ter assumido a loucura do Rei Lear, enquanto ensaia o papel. Não a perda da sanidade, mas a capacidade de falar verdades que mantinha escondidas. É o que acontece na cena em que os dois estão em uma praça, antes de entrarem em um restaurante: bastam algumas doses de vodca para que Boris solte confissões (como desprezar a carreira de ator) que logo se transformam em berros, tão altos que pai e filho acabam presos.

 

"Boris transforma-se em uma espécie de Zorba, aquele grego do cinema que se sente um homem completamente livre", conta Stefanini, que não esconde também sua disposição de surpreender em cena. É justamente o que acontece naquele momento de loucura libertária de Boris, manifestação que continua quando ambos estão aprisionados. "É uma doideira que tem de convencer a plateia sobre seus ideais e não ser simplesmente uma sucessão de berros."

 

Contestação. De fato, o escândalo de Boris tem raízes no terreno da contracultura dos anos 1960, quando a ordem era contestar. "Curiosamente, quando Henrique também começa a gritar na prisão, acontece uma inversão, pois o mais conservador, que é o filho, se transforma no inovador", afirma Marco Ricca.

 

É o momento em que Rodrigo Lombardi completa o arco que marca a trajetória de Henrique: se no início ele procura contornar uma situação difícil de suportar (a chegada inesperada do pai, o desemprego, o abandono da mulher), finalmente se solta graças ao empurrão paterno. "Há um resgate de valores nessa reestruturação familiar", observa o ator, lembrando do extenso trabalho de dissecação do texto. "Discutimos muito os meandros da peça que, em um primeiro momento, pareceu ter muito humor. Mas, à medida que estudávamos cena a cena, percebemos uma certa valorização do lado patético da vida."

 

A descoberta também motivou a direção de Ricca. Como a peça se passa em ambientes diversos (primeiro no apartamento de Henrique, depois em uma praça até terminar em uma cela de delegacia), ele buscou ocupar poeticamente o palco do Faap. A solução, bem trabalhada pelo cenógrafo André Cortez, é muito criativa: paredes formadas por um tecido transparente são corrediças, permitindo que um mero abrir e fechar transforme completamente o ambiente. Para completar, a iluminação desenhada por Maneco Quinderé oferece o toque necessário para incentivar a imaginação e induzir o espectador a acreditar naquela ambientação. "São recursos que valorizam a interpretação", completa Ricca.

 

A Grande Volta - Teatro Faap (506 lug.). Rua Alagoas, 903, 3662-7233. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 70. Até 18/8. Estreia sábado, 1