A eleição de George Washington

Em ano eleitoral, há coisas a aprender com o presidente, e coisas a evitar

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

04 Fevereiro 2018 | 03h00

O sistema eleitoral dos Estados Unidos tem características únicas e complexas. A ideia matemática simples – quem obtiver mais votos leva o cargo – fica muito matizada quando se estuda a legislação daquele país. Depois de escrever bastante sobre os EUA, dar aulas de História da América há quase 30 anos e ter buscado muita bibliografia sobre como funciona a eleição lá, posso afirmar, com cristalina humildade, que dirimi algumas dúvidas e carrego comigo outras tantas não esclarecidas. Estudar é sempre ampliar a noção do desconhecido. 

Hoje, 4 de fevereiro, é o aniversário da eleição do primeiro presidente dos EUA (1789), George Washington, duas vezes indicado para o cargo por unanimidade. 

Voltemos um pouco no tempo. A independência tinha sido proclamada em 4 de julho de 1776. Ainda antes do documento de rebeldia, já tinha se iniciado um conflito armado. No rigoroso inverno de 1776-1777, o general Washington estava desanimado no Vale Forge (norte da Filadélfia). Atacados de fora pelo poderoso exército britânico e de dentro por políticos do seu jovem país, ele e seus comandados atendiam pelo solene nome de Exército Continental, porém era um grupo de, talvez, 11 mil colonos-soldados no vale, com pouca comida, praticamente nenhum uniforme, despreparado, tomado por doenças e distante da possibilidade de vitória. 

Há uma história consagrada a posteriori. No momento do desespero, George Washington ajoelhou-se e fez uma oração. Certamente a metáfora do salmo 23 “ainda que eu ande no vale da sombra da morte” deveria ser viva na ocasião. Há quem conteste a veracidade da narração. Tornar o pai fundador da pátria um homem religioso que busca auxílio do Deus dos Exércitos antes da batalha era tentador demais para os homens posteriores ao Iluminismo. Em 1866, o artista John McRae criou a imagem que consagraria a cena desejada. Para fins de cálculo, era fundamental que o general buscasse amparo em Deus. 

O Vale Forge foi uma virada. As coisas começaram a mudar a partir do verão de 1778. O barão prussiano Von Steuben colaborou no treinamento das forças antibritânicas e ajudou a tornar aquela tropa um corpo organizado. A aliança com a França começaria a dar resultados práticos e, em outubro de 1781, as forças britânicas renderam-se ao general Washington em Yorktown, na Virgínia. Nova York havia sido incendiada, brutalidades sem fim tinham sido impetradas, porém a vitória foi alcançada. Os ideais proclamados em 4 de julho de 1776 tiveram de ser garantidos no campo de batalha. A primeira independência das Américas seria seguida de debate sobre uma nova constituição e um conjunto de emendas que personificariam a liberdade individual dos estadunidenses: a Bill of Rights. 

Washington pretendia aposentar-se. Lutava desde as guerras coloniais entre franceses e ingleses e seus respectivos aliados indígenas. Era um militar e fazendeiro, duas funções que pouco o inclinavam aos exaustivos debates políticos que a nova situação provocava. O homem que sofria com seus dentes postiços (que misturavam arames e peças de animais com algodão) desejava sua fazenda. Tinha dificuldade em mentir. Um episódio com mais chances de veracidade do que a oração do vale conta que ele, por acidente, cortou uma jovem e promissora cerejeira que o pai plantara com carinho. Inquirido com dureza, disse que era incapaz de não dizer a verdade e assumiu a culpa. O pai criticou o desleixo com o machado e elogiou a retidão moral. George Washington não mentia. Como poderia fazer parte do delicado mundo político na capital, Nova York? 

O vitorioso de 1781 era o nome mais cotado para a presidência. Foi difícil convencê-lo. Em carta a um amigo, afirmava aceitar o cargo, mas que isso era uma despedida da ideia de felicidade pessoal. Washington, ao que tudo indica, não desejava a função, algo bem pouco comum entre os sucessores. 

Uma pátria é construída por duas categorias por vezes complementares e por vezes opostas. A primeira é a dos idealizadores capazes de indicar horizontes. De muitas formas, os EUA foram pensados pelos signatários do documento de 4 de julho de 1776, da Declaração de Independência. Eram variados. Oito deles não tinham nascido nas colônias. O mais jovem, Edward Rutledge, tinha 26 anos. O mais idoso, Benjamin Franklin, passava dos 70, idade avançada para o século 18. O intelectual Franklin era um homem sábio e de palavras moderadas. Seu colega John Hancock era o que se chamaria flamboyant, mais espalhafatoso. Ao assinar o documento de independência, Hancock fez de forma tão expansiva (para o rei George III poder ler, teria dito) que, até hoje, em inglês, seu nome está associado a assinaturas extravagantes. Esse era o grupo de homens que inventavam um novo conceito: uma independência colonial. 

Os segundos formadores de pátria são da categoria de Washington. Apesar de ter biblioteca, o primeiro presidente não era um intelectual. Era um fazendeiro, um militar, um homem prático. Alguns dos teóricos de 1776 viraram presidentes, como John Adams e Thomas Jefferson, mas o usual é a separação entre criadores e executores. 

Há 229 anos, ao elegerem George Washington, os norte-americanos iniciavam um processo que garantiria mais de dois séculos sem golpes de Estado. Poucos países forjaram um quadro político tão sólido que sobreviveu bem ao tempo, superando provas como quatro assassinatos e uma renúncia. Estamos em ano eleitoral. Há coisas a aprender com Washington e coisas a evitar. Em todo jogo, temos sempre um lado ideal e um lado House of Cards. Suspiro por um país no qual as instituições sejam maiores do que as pessoas e as leis abandonem o casuísmo. Bom domingo para todos nós.

Mais conteúdo sobre:
Política

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.