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A condição humana, no incômodo limite entre o bem e o mal

ANTHONY BURGESS

09 Novembro 2012 | 19h 01

Exclusivo: no ensaio a seguir, escrito em 1973, o autor de 'Laranja Mecânica' explica as razões de seu livro

Sou, por ofício, um romancista. Acredito tratar-se de um ofício inofensivo, ainda que não venha a ser considerado respeitável por alguns. Romancistas colocam palavras vulgares na boca de seus personagens e os descrevem fornicando e fazendo necessidades. Além disso, não é um ofício útil, como o de um carpinteiro ou de um confeiteiro. O romancista faz o tempo passar para você entre uma ação útil e outra; ajuda a preencher os buracos que surgem na árdua trama da existência. É um mero recreador, um tipo de palhaço. Ele faz mímica e gestos grotescos; é patético ou cômico e, às vezes, os dois; ele faz malabarismo com palavras, como se estas fossem bolas coloridas.

O uso que ele faz das palavras não deve ser levado excessivamente a sério. O presidente dos Estados Unidos usa palavras; o médico, o mecânico, o general do exército ou o filósofo usam palavras; e essas palavras parecem estar relacionadas ao mundo real, um mundo em que impostos precisam ser arrecadados e depois evitados; carros precisam ser dirigidos; doenças, curadas; grandes pensamentos, pensados; batalhas decisivas, travadas. Nenhum criador de enredos ou personagens, por maior que seja, deve ser considerado um pensador sério, nem mesmo Shakespeare. Na realidade, é difícil saber o que o escritor criativo realmente pensa, pois ele se esconde atrás de suas cenas e de seus personagens. E quando os personagens começam a pensar e a expressar seus pensamentos, não se trata, necessariamente, dos pensamentos do escritor. Macbeth pensa uma coisa e Macduff, algo diametralmente oposto; as ponderações do Rei não são as mesmas de Hamlet. Até mesmo o dramaturgo trágico é um palhaço, soprando uma melodia triste em um trombone velho. E então seu ânimo trágico se esgota e ele se torna um bufão, cambaleando por aí e plantando bananeiras. Nada que deva ser levado a sério.

Por vezes, entretanto, um mero recreador como eu pode ser tragado a contragosto para a esfera do pensamento "sério". Ele se vê forçado a dar sua opinião sobre questões profundas. A causa dessa obrigação pode ser um repentino interesse público por um de seus romances - um livro que ele tenha escrito sem considerar profundamente o significado, cujo objetivo era render algum dinheiro para pagar o aluguel, mas que acabou adquirindo uma importância não prevista pelo autor. Ou pode ser um romance em que, graças a uma preocupação ou a um rancor irredutível em relação a algo que acontece no mundo real, o romancista - para seu próprio arrependimento - cria algo menos recreativo do que o normal; algo mais assemelhado a um sermão ou a uma declaração homilética ou didática - e a elaboração de tais coisas não é, na realidade, a função do romancista. No momento, encontro-me escrevendo um livro bastante diferente de qualquer outro que eu tenha escrito, e o motivo pelo qual escrevo não é tanto o interesse público por um de meus romances, mas o interesse público por um filme realizado a partir de um dos meus romances.

Tanto o romance quanto o filme chamam-se Laranja Mecânica (Clockwork Orange). Publiquei o livro pela primeira vez em 1962, e desde aquele ano conquistou leitores nos dois lados do Atlântico, o suficiente para garantir sua contínua impressão. No entanto, dez anos depois de corrigir as provas de gráfica, seu título e conteúdo tornaram-se conhecidos por milhões, não apenas milhares, graças à adaptação cinematográfica bastante fiel feita por Stanley Kubrick. Vi-me convocado, então, a explicar o verdadeiro significado, tanto do livro quanto do filme, em todas as mídias públicas dos Estados Unidos, e também em algumas da Europa, e minha explicação tem sido, mais ou menos, a seguinte.

Primeiramente, o título. Ouvi a expressão "tão estranho quanto uma laranja mecânica" pela primeira vez em um pub londrino, antes da 2.ª Guerra Mundial. Trata-se de uma gíria cockney antiga que se refere a uma esquisitice ou insanidade tão extrema que chega a subverter a natureza - afinal, que noção poderia ser mais bizarra do que uma laranja mecânica? A imagem atraiu-me não somente como algo fantástico, mas também como algo obscuramente significativo; surreal, mas também obscenamente real. O casamento forçado de um organismo com um mecanismo; de uma coisa com vida, que amadurece, é doce, suculenta, com um artefato frio e morto - seria apenas um conceito assustador? Descobri a relevância desta alegoria para o século 20 quando, em 1961, comecei a escrever um romance sobre curar a delinquência juvenil. Li em algum lugar que seria uma boa ideia liquidar o impulso criminoso por meio de terapia de aversão; fiquei estarrecido. Comecei a investigar as implicações dessa noção em um breve trabalho de ficção. O título Laranja Mecânica parecia estar ali, esperando para se vincular ao livro: era o único nome possível.

O herói, tanto do livro quanto do filme, é um jovem delinquente chamado Alex. Dei-lhe esse nome por causa de seu caráter internacional (você não veria um rapaz inglês ou russo chamado Chuck ou Butch), e também graças às suas conotações de ironia. Alex é uma redução cômica de Alexandre, o Grande, talhando seu caminho pelo mundo e conquistando-o. Mas Alex se torna o conquistado - impotente, mudo. Ele fazia sua própria lei (a lex); torna-se uma criatura sem uma lex e sem léxico. Os trocadilhos ocultos, claro, não se relacionam com o verdadeiro significado do nome Alexandre, que é "defensor dos homens".

No início do livro e do filme, Alex é um ser humano dotado, talvez exageradamente, de três características que consideramos atributos essenciais do homem. Ele se deleita com o uso de uma linguagem articulada e até inventa uma nova forma de comunicação (a esta altura, ele está longe de ser aléxico); ele ama a beleza, que encontra, acima de tudo, na música de Beethoven; ele é agressivo. Com seus companheiros - menos humanos do que ele, pois não dão importância à música - ele aterroriza as ruas de uma grande cidade, à noite. Essa cidade poderia ser qualquer uma, mas eu a visualizei como uma espécie de amálgama entre minha nativa Manchester, Leningrado e Nova York. A época poderia ser qualquer uma, mas é, essencialmente, o hoje. Alex e seus amigos roubam, mutilam, estupram, vandalizam; acabam matando. O jovem anti-herói é preso e punido, mas punição não é suficiente para o Estado. Como a prisão não é um inibidor muito eficiente para o crime, o Home Office ou o Ministério do Interior introduz uma forma de terapia de aversão que garante, em apenas duas semanas, eliminar propensões criminosas para sempre.

Alex, em sua inocência, abraça a oportunidade de ser "curado". Ele tem tanta fé na indestrutibilidade de sua própria libido que se considera mais do que um desafio para os especialistas em comportamento do Estado. Injetam-lhe uma substância que provoca náusea extrema, e a deflagração da náusea é deliberadamente associada a violentos. Em pouco tempo, ele não consegue ver cenas de violência sem se sentir desesperadamente enjoado. Fazer amor era, para ele, apenas um aspecto da agressão; portanto, até mesmo observar uma parceira sexual desejável desperta a náusea avassaladora. Ele é forçado a andar por uma corda bamba de "bondade" imposta. A sociedade fica satisfeita e mal pode esperar por um milênio livre do crime.

Mas homens não são máquinas, afinal, e o limite entre um impulso humano e outro é sempre difícil. O tratamento de Alex consistiu em assistir a filmes violentos e sentir a náusea induzida. Tais filmes empregaram trilhas sonoras de música sinfônica como "amplificadores emocionais". Após seu tratamento, o delinquente reformado descobre que não consegue mais ouvir Beethoven sem se sentir desesperadamente doente. O Estado foi longe demais: invadiu uma região além de seu pacto com os cidadãos; fechou para sua vítima um universo de belezas amorais, a visão de ordem paradisíaca que grandes peças musicais transmitem. Perturbado por uma gravação da Nona Sinfonia, Alex tenta cometer suicídio, causando perplexidade e despertando compaixão entre os elementos liberais da sociedade; Alex, então, é submetido a uma terapia hipnopédica que o restaura à sua condição "livre" anterior. Despedimo-nos de Alex enquanto ele sonha com novos e mais elaborados métodos de agressão. A intenção era a de um final feliz.

O que tentei argumentar, com o livro, era o fato de que é melhor ser mau a partir do próprio livre-arbítrio do que ser bom por meio de lavagem cerebral científica. Quando Alex tem o poder da escolha, opta apenas por violência. Entretanto, existem outras áreas de escolha, como ilustra seu amor pela música. Na edição inglesa do livro (mas não na norte-americana, tampouco no filme), há um epílogo que mostra Alex crescendo, aprendendo a desgostar de seu antigo estilo de vida, pensando no amor como algo maior do que uma forma de manifestar violência; até mesmo imaginando-se como marido e pai. Tal caminho sempre esteve aberto; ele, enfim, opta por segui-lo. Antes uma laranja podre, ele agora se preenche com algo mais próximo da doçura humana decente.

Liberdade de escolha é mesmo tão importante? O homem é capaz disso? O termo "liberdade" tem algum significado intrínseco? São questões que preciso perguntar e tentar responder. Devo registrar que fui ridicularizado e criticado por expressar meus receios em relação ao poder do Estado moderno - seja na Rússia, na China ou na que poderíamos chamar de Anglo-América - de reduzir a liberdade individual. A literatura já denunciou esse poder em livros como Brave New World (Admirável Mundo Novo), de Aldous Huxley, e 1984, de George Orwell, mas pessoas "sensatas", que não se comovem muito com textos criativos, garantem que há pouco com o que se preocupar. O livro Beyond Freedom and Dignity (O Mito da Liberdade), de B.F. Skinner, foi lançado na mesma época em que Laranja Mecânica surgiu nas telas, pronto para demonstrar as vantagens do que poderíamos chamar de lavagem cerebral benéfica. Nosso mundo está em má situação, diz Skinner, com os problemas das guerras, da poluição ambiental, da violência civil, da explosão demográfica. O comportamento humano precisa mudar - isso, diz ele, é autoevidente, e poucos discordariam - e, para tanto, precisamos de uma tecnologia para o comportamento humano. Podemos deixar de fora dessa equação o homem interior, o homem que encontramos quando discutimos com nós mesmos, o ser oculto que se preocupa com Deus, com a alma e com a realidade absoluta. Precisamos enxergar o homem de fora, considerando especialmente o que leva uma característica do comportamento humano transferir-se de um indivíduo para outro. A abordagem behaviorista do homem, da qual o professor Skinner é um grande expoente, prega que ele é levado a vários tipos de ações por estímulos de aversão e não aversão. Medo do chicote fazia o escravo trabalhar; medo da demissão ainda faz o escravo do salário trabalhar. São tais reforços negativos para a ação que o professor Skinner condena; o que ele deseja ver são reforços positivos. Você ensina truques a um animal de circo não por meio da crueldade, mas da bondade. (Skinner deveria saber disso: muito de seu trabalho experimental foi realizado com animais; alguns de seus avanços em condicionamento animal aproximavam-se de um nível circense bastante elevado.) Com os estímulos positivos certos - aos quais respondemos não de maneira racional, mas por meio de nossos instintos condicionados -, todos nós poderemos nos tornar cidadãos melhores, submissos a um Estado cujo objetivo maior é o bem-estar da comunidade. Não devemos, diz tal argumento, temer o condicionamento. Precisamos ser condicionados para salvar o ambiente e a raça. Mas precisa ser condicionamento do tipo certo.

Segundo o discurso skinneriano, é o tipo errado de condicionamento que transforma o herói de Laranja Mecânica em um nauseado modelo de não agressão. O fato de eu mesmo considerar qualquer tipo de condicionamento um erro deve ser atribuído, imagino, à força da tradição religiosa na qual fui educado. Eu fui, pode-se dizer, condicionado por ela, mas minha consciência aprova as convicções que sinto em meu âmago. Minha família é de Lancashire, um condado ao norte do Reino Unido que foi uma fortaleza da fé católica. A Reforma Protestante, que transformou a Inglaterra no que ela é hoje, nunca chegou a Lancashire ou, caso tenha chegado, o fez de maneira suave e moderada, nas infiltrações pacíficas dos períodos mais tolerantes que seguiram as sangrentas imposições dos Tudors. O tipo de protestantismo que floresceu na época de Cromwell e criou uma nova estirpe de mercadores burgueses era calvinista. Predestinação era seu eixo doutrinal. O homem não teria arbítrio sobre a própria salvação; seu estado futuro havia sido predeterminado por Deus.

O catolicismo rejeita uma doutrina que parece enviar alguns homens arbitrariamente ao Paraíso, e outros, de maneira não menos arbitrária, para o Inferno. Seu destino, diz a teologia católica, está em suas mãos. Não há nada que o impeça de pecar, se você quiser pecar; ao mesmo tempo, não há nada que o impeça de se aproximar dos canais de graça divina que são a garantia de sua salvação. O fato de duas doutrinas opostas - a do livre-arbítrio e a da predestinação - poderem coexistir na mesma fé religiosa requer explicação. Primeiramente, há a omnisciência de Deus. Se Deus sabe tudo, Ele sabe se eu serei condenado ou salvo: meu destino derradeiro foi, digamos, reservado desde o início dos tempos. Mas se Deus dá ao homem o poder da livre escolha, poderia parecer que Ele está deliberadamente renunciando à Sua consciência sobre o que o homem fará com esse poder. Um Deus onisciente e onipotente, em um gesto de amor pelo homem, limita tanto Seu poder quanto Seu conhecimento.

Sean O'Faolain, em sua autobiografia, relata uma incapacidade de conciliar o livre-arbítrio do homem com o conhecimento total de Deus, o que foi resolvido certo dia por um súbito insight mágico ou milagroso, antes de uma corrida de táxi em Manhattan. O'Faolain chegou à seguinte conclusão: toda e qualquer ação do homem continuava uma ação livre até ser executada. Uma vez executada, tornava-se algo que Deus havia determinado que acontecesse. Ele e o taxista ficaram bêbados para celebrar a descoberta.

Mas os calvinistas sempre dispuseram de munição pesada para defender a campanha da predestinação. Na direção do exército do livre-arbítrio, eles miram o canhão da Queda. Adão caiu por causa do pecado original da desobediência; ele transmitiu a culpa por esse pecado a todos os seus descendentes. Os homens são predispostos a pecar; não são criaturas livres. A resposta ortodoxa para isso é, claro, a de que Jesus Cristo morreu para que os homens fossem libertados, mas o calvinismo parece não se entusiasmar com tal fato. As teocracias construídas pelos calvinistas, cidades-estados ou comunidades inteiras governadas por homens da fé autoeleitos, foram sempre caracterizadas por uma espécie de melancolia chuvosa. Veja a Massachusetts de Cotton Mather; a Genebra do próprio João Calvino. Para eles, permitir que os homens determinassem o próprio destino era uma marca da depravação católica. Homens são pecadores, homens não evitarão o pecado (por que deveriam, se estão predestinados ao Paraíso ou ao Inferno, independentemente do que façam?) Homens precisam ser obrigados a serem bons; as mulheres, filhas da pérfida Eva, ainda mais. O calvinismo é repleto de reforços negativos.

Não é meu objetivo ensinar teologia elementar, e certamente não é minha intenção considerar o mundo contemporâneo a partir desse ângulo da fé herdada. Estou apenas demonstrando que certos termos que emprestamos da teologia têm validade em uma abordagem secular de nossos problemas. Por ser uma pessoa cuja religião tem sido hesitante por 40 anos, seria hipocrisia de minha parte pregar que, para acabarmos com as guerras e regenerar os rios poluídos, deveríamos nos voltar para Deus. O que sugiro é que a religião e outras disciplinas seculares ou antropocêntricas, como filosofia, psicologia e sociologia, têm algo em comum: uma consciência sobre a contínua infelicidade do homem. E, talvez, certas palavras de origem arcaica, como "bem", "mal" e "livre-arbítrio", até mesmo "pecado original", não precisam ser substituídas por terminologia pseudocientífica apenas por serem derivadas de uma abordagem teocêntrica do homem.

"Chamávamos o tabuleiro de xadrez de branco - chamamo-lo de negro", diz o bispo Blougram no poema de Robert Browning. Em outras palavras, uma perspectiva otimista da vida humana é tão válida quanto uma pessimista. Mas de que vida estamos falando? A de toda a raça ou a do imperceptível fragmento dela que cada um de nós chama de "eu"? Creio que sou otimista em relação ao homem: acredito que sua raça sobreviverá; acredito que, por mais doloroso e lento que seja o caminho, ele resolverá seus grandes problemas, simplesmente por ter consciência deles. Quanto a mim mesmo, tudo o que posso dizer é que estou ficando velho, minha visão está ficando embaçada, meus dentes requerem atenção constante, não posso comer ou beber como antes, fico entediado com cada vez mais frequência. Não consigo me lembrar de nomes, meu raciocínio funciona lentamente, tenho espasmos de inveja dos jovens e de ressentimento por minha própria decadência iminente. Se eu tivesse fé ardente na sobrevivência pessoal, essa melancolia da senescência poderia ser imensamente abrandada. Mas perdi tal fé, e é pouco provável que eu a recupere. Às vezes, tenho desejo de aniquilação imediata, mas a ânsia de permanecer vivo sempre se sobrepõe. Existem compensações - o amor, a literatura, a música, a rica vivência na cidade sulista em que passo a maior parte do meu tempo -, mas elas são muito incertas. Existe um consolo maior e mais duradouro - o fato de que sou livre para escrever o que desejar, de não ter de seguir nenhum relógio, de não precisar chamar nenhum homem de "senhor" e submeter-me a ele por medo. Mas tal liberdade traz seus próprios remorsos: sinto-me culpado se não trabalho; sou meu próprio tirano. As coisas que tenho agora me eram mais necessárias quando eu era jovem. Lembro-me da máxima de Goethe: "Cuidado ao desejar qualquer coisa na juventude, pois você a terá na meia-idade".

Reconheço que estou em melhores condições do que a maioria, mas não acho que tenha optado por me eximir da agonia e da ansiedade que atormentam homens e mulheres escravos de vidas que não escolheram, habitantes em comunidades que odeiam. Penso, especialmente, nos cidadãos de grandes centros comerciais e industriais - Nova York, Londres, Bombaim, a minha própria Manchester. "Você comerá seu pão com o suor do seu rosto": o Livro de Gênesis resume perfeitamente. A manutenção de uma sociedade complexa depende, cada vez mais, de trabalhos repetitivos, trabalhos sem prazer ou criatividade. As coisas que comemos, as roupas que vestimos, os lugares em que moramos tornam-se progressivamente padronizados, pois a padronização é o preço que pagamos pelos preços que podemos pagar. A vida simplesmente passa para a maioria de nós, como a hora em um despertador. Acabamos por nos acostumar com o ritmo imposto pela nossa necessidade de subsistência; em pouco tempo, passamos a gostar de nossas amarras.

Um dos slogans do superEstado no romance 1984, de George Orwell, é "Liberdade é escravidão". Uma das interpretações possíveis é a de que o fardo de tomar as próprias decisões é, para muitas pessoas, intolerável. Estar vinculado à necessidade de decidir por conta própria é ser escravo de seus próprios ímpetos. Lembro-me de quando me alistei no exército britânico, aos 22 anos. Inicialmente, me ressenti da disciplina, da remoção de até mesmo a mais ínfima liberdade (como o direito de comer quanto e o que fosse desejado e o direito de ir ao banheiro quando o próprio corpo, e não uma corneta, determinasse). Em pouco tempo, minha redução a mero mecanismo começou a me agradar, a me acalmar. Participar de um esquadrão obedecendo ordens com o restante do grupo, proibido de fazer perguntas ou questionar regulamentos - eu estava, depois de quatro anos de rigorosa vida acadêmica, em férias da necessidade de precisar escolher o tempo todo. Depois de seis anos, posso simpatizar com o civil que não gosta de tomar as próprias decisões (onde comer, em quem votar, o que usar). É mais fácil receber orientações: fume tal cigarro - 90% menos alcatrão; leia tal livro - 75 semanas na lista de best-sellers; não veja tal filme - é pseudoarte.

Talvez exista algo de positivo na submissão social, considerando que a vida dos trabalhadores tem muito pouco espaço para o individualismo: é doloroso ser um especialista em Spinoza à noite e um operário durante o dia. E existe algo em nossa natureza gregária que faz com que desejemos nos submeter. Até mesmo os rebeldes anticonformistas encontram suas próprias conformidades: o "uniforme" de cabelo longo, barba, calças de algodão trançado, miçangas e amuletos, por exemplo, e o invariável gosto por maconha e músicas de protesto tocadas no violão. Uma pessoa precisa se acomodar em um padrão de trabalho para que possa comer e alimentar a família; uma pessoa pode achar agradável, natural ou conveniente acomodar-se em seus gostos sociais. Porém, quando os padrões de conformidade são impostos pelo Estado, as pessoas têm o direito de se assustar. Infelizmente, a conformidade política que leva a um uniforme, a uma bandeira, a um slogan, a uma mordaça no livre discurso tende a funcionar a partir de uma disposição para a obediência em áreas não políticas.

Talvez não tenhamos obrigação nenhuma de gostar de Beethoven ou de detestar Coca-Cola, mas é, pelo menos, concebível que sejamos obrigados a não confiar no Estado. Thoreau escreveu sobre o dever da desobediência civil; Whitman disse, "Resista muito, obedeça pouco". Para esses liberais, e muitos outros, a desobediência é uma coisa boa. Em pequenas comunidades sociais (paróquias inglesas, cantões suíços), o sistema que governa pode, ocasionalmente, ser adequado à sociedade governada. Porém, quando a comunidade social cresce, transforma-se numa megalópole, num Estado, numa federação, o sistema de governo se distancia, torna-se impessoal, até desumano. Ele toma nosso dinheiro para propósitos que, aparentemente, não aprovamos; trata-nos como estatísticas abstratas; controla um exército; apoia uma força policial cuja função nem sempre parece ser de proteção.

Tudo isso, claro, é uma generalização que poderia ser considerada bobagem preconceituosa. Eu, particularmente, desconfio de políticos ou representantes do Estado (poucos escritores e artistas confiam) e acredito que as pessoas entram na política por duas razões: uma negativa, a de não terem talento para mais nada; outra positiva, a de que ter poder é sempre delicioso. Contra isso deve ser considerada a verdade de que o governo cria leis saudáveis para proteger a comunidade e, no grande mundo internacional, pode ser a voz de nossas tradições e aspirações. Mas ainda é fato que, em nosso século, o Estado foi responsável pela maior parte de nossos pesadelos. Nenhum indivíduo ou associação livre de indivíduos poderia ter chegado às técnicas de repressão da Alemanha nazista, ao massacre de bombardeios intensos ou à bomba atômica. Departamentos de guerra podem pensar em termos de milhões de mortos, enquanto o homem médio pode apenas fantasiar sobre o assassinato de seu chefe. O Estado moderno, seja em um país totalitário ou democrático, tem poder demais, e provavelmente estamos certos em temê-lo.

É relevante o fato de que os livros agourentos de nossa época não sejam sobre novos dráculas ou frankensteins, mas sobre o que poderia ser chamado de distopias - utopias invertidas, em que um governo megalítico imaginário leva a vida humana a um extraordinário extremo de miséria. Sinclair Lewis, em It can't happen here (um romance curiosamente negligenciado), apresenta uma América do Norte que se tornou fascista, e as características desse fascismo são tão norte-americanas quanto torta de maçã. O sardônico e grosseiro presidente estilo Will Rogers usa as cláusulas de uma constituição escrita por otimistas jeffersonianos para criar um despotismo que, aos olhos ignorantes da maioria, parece, inicialmente, mero senso comum. A vitória de intelectuais com cabelos longos e anarquistas verborrágicos sempre agrada ao homem médio, apesar de poder, na realidade, significar a supressão do pensamento liberal (a constituição norte-americana foi escrita por intelectuais de cabelos longos) e a eliminação da divergência de opiniões políticas. O livro 1984, de Orwell - uma visão aterradora que talvez tenha evitado uma realidade aterradora: ninguém espera que o ano de 1984 seja igual ao de Orwell - mostra o descarado amor pelo poder e pela crueldade que muitos líderes políticos escondem sob as flores da retórica "inspiradora". O "Núcleo do Partido" da Inglaterra futura de Orwell exerce controle sobre a população por meio da falsificação do passado, para que ninguém possa recorrer a uma tradição morta de liberdade; por meio da delimitação da língua, para que pensamentos de rebeldia não possam ser formulados; por meio de uma epistemologia de "duplipensar", que faz o mundo exterior parecer o que os governantes querem que pareça; e por meio de simples tortura e lavagem cerebral.

A visão norte-americana e a inglesa se aproximam ao pressupor que os instrumentos aversivos do medo e da tortura são as inevitáveis técnicas do despotismo, que busca controle total sobre o indivíduo. Mas, no longínquo ano de 1932, Aldous Huxley, em seu Admirável mundo novo, demonstrou que a submissa docilidade que poderosos Estados buscam de seus súditos pode ser mais facilmente alcançada por meio de técnicas não aversivas. Condicionamento pré-natal e na infância resulta em escravos contentes com a própria escravidão, e a estabilidade é reforçada não por meio de chicotes, mas de um contentamento imposto pela ciência. Este, claro, é um caminho que o homem pode seguir se realmente deseja um mundo sem guerras, crises populacionais, angústias dostoievskianas. As técnicas de condicionamento estão disponíveis, e talvez, em breve, a condição do mundo assuste o homem o suficiente para que ele as aceite. Porém, como diz Huxley por meio de seu herói, um selvagem incivilizado criado em uma reserva indígena, a felicidade não é, na verdade, o que queremos. O homem é, quase por definição, uma criatura inquieta - criativa, destrutiva, inclinada ao entusiasmo e à dor. O jovem selvagem exige o que o admirável mundo novo não pode oferecer: infelicidade; e se suicida.

"O homem", diz G. K. Chesterton, "é uma mulher" - ele não sabe o que quer. Há poucos de nós que não rejeitam imediatamente os pesadelos orwelliano e huxleiliano. De certa maneira, preferiríamos uma sociedade repressiva, repleta de polícias secretas e arame farpado, em vez de uma condicionada pela ciência, em que ser feliz significa fazer a coisa certa. Todos nós poderíamos concordar com o professor Skinner: uma sociedade bem governada e condicionada é algo excelente para uma nova raça - uma espécie de homem racionalmente convencida da necessidade de ser condicionada, desde que o condicionamento seja baseado em recompensas, não em punições. Mas não somos essa nova raça, e teimamos em não ser nada além do que somos - criaturas conscientes das próprias falhas e mais ou menos determinadas a fazer algo para resolvê-las, e fazê-lo de nossa própria maneira. Poderíamos até pensar em termos de dois seres humanos: nós mesmos, homens livres ou imperfeitos; e o novo homem, que ainda surgirá (criação do próprio homem, não da natureza), a quem talvez possamos chamar de neoantropos, um nome que soa como um estrangulamento.

Curiosamente, ou talvez não, as figuras históricas que mais reverenciamos são aqueles homens e mulheres que lutaram contra a repressão e foram até martirizados por defender os justos ou bons. Prometeu, Sócrates, Jesus Cristo, sir Thomas More, Giordano Bruno, Galileu - a lista é extensa, e a história continua a aumentá-la com heróis como os Kennedys e Martin Luther King Jr. É como se, perversamente, precisássemos da intolerância por não conseguirmos seguir adiante sem heróis. O que os grandes intransigentes fazem por nós é lembrar-nos de certos conceitos absolutos, como bem e mal. Foi a ocupação nazista da França que fez Jean-Paul Sartre formular uma nova filosofia para o homem, que soa como uma teologia, apesar de não ser. Ao falar sobre a "era de assassinos" prevista por Rimbaud, Sartre, em seu Que É a Literatura?, diz:

Fomos ensinados a levar a sério. Não é nossa culpa nem nosso mérito, se vivemos em uma época em que a tortura era um fato diário. Chateaubriand, Oradour, a Rue des Saussaies, Dachau e Auschwitz demonstraram que o Mal não é uma aparência, que saber sobre ele não o afasta, que não se opõe ao Bem como uma ideia confusa é oposta a uma ideia clara... Apesar do que desejamos, chegamos a essa conclusão, que parecerá chocante para almas elevadas: o Mal não pode ser redimido.

O estagnado, exaurido e corrupto período dos anos 1930 na França representou uma espécie de condição mecânica, um lúgubre funcionamento da máquina humana. Quando os franceses estavam submetidos à menor liberdade possível, sob ocupação, vivendo um paradoxo tipicamente humano, eles estavam, enfim, livres para recuperar um senso de dignidade da liberdade humana. Ocorreu a Resistência; houve a última e irredutível liberdade de dizer "não" ao mal. Trata-se de um direito indisponível em uma sociedade preocupada com reforços de comportamento. O fato de um homem poder se dispor a sofrer tortura e morte em nome de um princípio é o tipo de perversidade insana que faz pouco sentido no laboratório dos behavioristas.

Tendemos a usar o termo "mal" sem estarmos dispostos a defini-lo. Não se trata exatamente de um sinônimo para "ruim", pois não podemos falar de uma laranja malvada, exceto poeticamente, ou sobre uma performance maldosa de violino. Certamente não é um sinônimo para "errado". "Certo" e "errado" são, sabemos, termos com referências variadas - em outras palavras, o que é certo em determinada época pode ser errado em outra. Em um período de guerra contra a Alemanha, pode ser tão errado ter amizade com alemães que você corre o risco de ser morto por isso. Em um período de paz, pode ser certo ser amigável com eles, ou, pelo menos, algo de importância neutra. É certo obedecer quaisquer leis que estejam em voga em determinado momento, e errado insultá-las propositalmente. Não podemos levar o certo e o errado muito a sério, pois eles mudam e oscilam com frequência. Precisamos de conceitos absolutos, como "bem" e "mal". Nossa atitude em relação ao bem é curiosamente descompromissada ou indiferente; estamos mais acostumados a ser instruídos a não fazer o mal do que estimulados a fazer o bem.

O mal é sempre o mal, e pode ser considerado, talvez, algo essencialmente destrutivo, uma negação consciente e deliberada da vida orgânica. É sempre maldade matar outro ser humano, mesmo que, às vezes, seja certo fazê-lo. Talvez seja maldade matar qualquer organismo, até mesmo o gado e as ovelhas que precisamos para nossa nutrição. Ser um carnívoro não é certo nem errado, pelo menos na sociedade ocidental: é algo de significado neutro. O hinduísmo é tão veemente em relação à santidade de toda vida que se opõe à matança de qualquer coisa, seja por comida ou até, em certas situações, por autoproteção. É permitido usar uma rede contra mosquitos, mas não mata-moscas. Eu já vi operários hindus paralisando grandes empreendimentos imobiliários para proteger a vida subterrânea que subiu à superfície com o movimento de uma pá. O Oriente e o Ocidente acreditam, essencialmente, na santidade da vida, mas o Ocidente é mais pragmático em relação a ela. Em uma espécie de extensão metafórica, o Ocidente vai mais longe do que o Oriente no que diz respeito ao mal (não apenas ao errado) atribuído à destruição de um artefato, especialmente se tal artefato for uma obra de arte. Uma obra de arte é, de certa maneira, orgânica, e rasgar uma pintura ou demolir uma escultura não é apenas uma ofensa contra a propriedade; é uma ofensa contra a vida.

Poder-se-ia considerar o princípio do mal no âmbito da conduta em que a destruição de um organismo não é intencional. É errado forçar crianças a consumir drogas, mas poucos negariam que é, também, maldade: a capacidade de autodeterminação daquele organismo está sendo prejudicada. Mutilar é maldade. Atos de agressão são maldosos, apesar de sermos propensos a encontrar fatores atenuantes no espírito passional da vingança ("um tipo de justiça selvagem", definiu Francis Bacon) ou no desejo de proteger os outros de esperados, senão praticados, atos de violência. Todos nó guardamos, na imaginação ou na memória, imagens do mal em que não há sequer um sopro de atenuação - quatro jovens sorridentes torturando um animal, um estupro em gangue, vandalismo a sangue frio. Aparentemente, o condicionamento forçado de uma mente, por melhor que seja a intenção social, é maldade. / Tradução de Henrique B. Szolnoky

Copyright The Clockwork Condition (A Condição Mecânica) © The Estate of Anthony Burgess

 

Trecho de Laranja Mecânica, de Anthony Burgess (tradução de Fábio Fernandes, editora Aleph):

"-- Então, o que vai ser, hein?

Éramos eu, ou seja, Alex, e meus três druguis, ou seja, Pete, Georgie e Tosko, Tosko porque ele era muito tosco, e estávamos no Lactobar Korova botando nossas rassudoks pra funcionar e ver o que fazer naquela noite de inverno sem-vergonha, fria, escura e miserável, embora seca. O Lactobar Korova era um mesto de leite-com, e possa ser, Ó, meus irmãos, que tenhais esquecido de como eram esses mestos, pois as coisas mudam tão skorre hoje em dia e todo mundo esquece tão depressa, porque também quase não se lê mais os jornais mesmo.

Bom, o que vendiam ali era leite-com-tudo-e-mais-alguma-coisa. Eles não tinham autorização para vender álcool, mas ainda não havia leis contra prodar algumas das novas veshkas que costumavam colocar no bom e velho moloko, então você podia pitar com velocet, sintemesc, drencrom ou alguma outra veshka que lhe daria uns belos de uns quinze minutos muito horrorshow só ali, admirando Bog e Todos os Seus Anjos e Santos no seu sapato esquerdo com luzes espocando por cima da sua mosga. Ou você podia pitar leite com faca dentro, como a gente costumava dizer, e isso te aguçava e te deixava pronto para um vinte-contra-um do cacete, e era isso o que estávamos pitando naquela noite com a qual começo esta história".

LARANJA MECÂNICA

Autor: Anthony Burgess

Tradução: Fábio Fernandes

Editora: Aleph (352 págs., R$ 79; lançamento previsto para o próximo dia 22)