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Ed Ferreira/ Estadão

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ASSISHORTA

A cara do brasileiro pelas lentes de Assis Horta

Exposição com cerca de 200 imagens está montada no Palácio do Planalto

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Rafael Moraes Moura/ Brasília ,
O Estado de S.Paulo

09 Dezembro 2013 | 17h24

Por pouco, ou não tão pouco assim, o arquiteto Oscar Niemeyer (1907-2012) não cumpriu o que havia prometido ao fotógrafo mineiro Assis Horta. "Niemeyer me dizia que ia morrer com 120 anos", lembra o amigo. O mestre das curvas faleceu em dezembro de 2012, aos 104, e foi velado numa de suas obras-primas, o Palácio do Planalto. O mesmo palácio recebe agora a exposição Assis Horta: A democratização do retrato fotográfico através da CLT que, de certa maneira, marca um reencontro entre esses dois companheiros que, diferenças ideológicas à parte (Niemeyer era comunista e Assis, filiado à conservadora UDN), lutaram juntos pela defesa do patrimônio histórico brasileiro.

Com curadoria do fotógrafo e designer Guilherme Horta - que não é parente de Seu Assis, apesar do sobrenome -, a mostra revela como a sanção, em 1943, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), desencadeou uma pequena revolução cultural no Brasil.

A exigência de uma foto 3 x 4 já nas primeiras páginas da Carteira de Trabalho e Previdência Social fez com que milhares de pessoas batessem à porta de estúdios fotográficos, onde posaram para retratos (muitos, pela primeira vez na vida) e acabaram transformando o olhar que o País tinha do próprio povo.

O acervo reunido no Planalto tem a força documental, que ajuda a entender o Brasil daqueles tempos e revela como a fotografia, antes restrita à burguesia, passou a desbravar a classe operária, suas famílias e amigos, captando as transformações sociais de uma época. Ao todo, foram reunidos no foyer do Planalto 200 retratos clicados por Assis Horta de 1940 a 1970.

"A exposição revela o gênio do povo brasileiro, nossa mistura. Queríamos trazer todas aquelas pessoas retratadas para o Palácio do Planalto, já que o maior patrimônio de um país é o seu povo", comenta o curador, rodeado de olhares curiosos, enigmáticos, convidativos, surpresos, sisudos dos personagens eternizados pela câmera de fole de Assis Horta, apoiada sobre um tripé de madeira.

Para Guilherme, Seu Assis fez com que o retrato entrasse na vida do trabalhador, mostrando a sua cara, atenuando a saudade, dignificando-o. "Fascinante reconhecer o gene do nosso povo através de um fotógrafo com rara sensibilidade para a execução do retrato", destaca o curador.

Os negativos eram revelados pelo fotógrafo em câmara escura e depois ampliados no formato solicitado pelo cliente. Havia aqueles que pediam até emprestadas as roupas em que apareciam nas fotos, por não ter dinheiro para comprar chapéu nem terno. "Tenho guardado o nome de todos (os fotografados), nunca joguei nenhum negativo fora", diz Seu Assis, o olhar emocionado, destacando que guarda todo o acervo, com o nome e a data da foto de cada pessoa retratada.

Dentro do estúdio do Photo Assis, em Diamantina, a ordem era ficar quieto na frente da câmara e ai daqueles que não seguissem as instruções. As pessoas gostavam das fotos e depois retornavam para ser clicadas outra vez. Não queriam apenas mostrar a sua cara, mas aparecer de corpo inteiro, ao lado de familiares e outras pessoas queridas.

Um garimpeiro generoso voltou com um presente: ouro, para que o fotógrafo tivesse o material para a aliança de casamento - a mulher de Seu Assis, Maria Conceição Horta, com que esteve casado por 71 anos, morreu há um ano."Fui um homem apaixonado a vida toda. E a vida toda foi só ela", comenta o guardião de tantas memórias, antes de mostrar, com uma feliz doçura, a foto guardada na carteira de dinheiro. "Olha que gracinha ela."

Vencedora do XII Prêmio Marc Ferrez de Fotografia da Funarte no ano passado, na categoria de Reflexão Crítica sobre Fotografia, a exposição fica aberta ao público até o dia 8 de janeiro. "É fundamental para o meu pai ter, aos 95 anos, esse tipo de reconhecimento ao trabalho", diz Isnard, o quarto dos dez filhos de Seu Assis.

Desde que assumiu a Presidência da República, Dilma Rousseff já trouxe ao Planalto obras como o quadro Abaporu de Tarsila do Amaral, a Medusa Murtola de Caravaggio, as "gordinhas sexy" (foi assim que Dilma chamou as esculturas) de Eliana Kertész e até a fracassada caxirola de Carlinhos Brown. Se a voz do povo ecoa pelas ruas, a cara está nos retratos de Assis Horta no Planalto.

ASSIS HORTA: A DEMOCRATIZAÇÃO DO RETRATO FOTOGRÁFICO ATRAVÉS DA CLT

Palácio do Planalto. De segunda a sábado, das 9h às 18h; no domingo, das 9h30 às 14h. Entrada franca. Até 8 de janeiro. 

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