A bênção, padre Fábio

Fé é uma gramática de percepção do universo, uma resposta a um anseio ancestral de proteção

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2017 | 02h00

Lancei o livro Crer ou Não Crer (Editora Planeta) no dia 3 de outubro, em São Paulo. A obra é um debate com o padre Fábio de Melo sobre fé e ateísmo.

Logo após a hora inicial de nossas falas, começaram os autógrafos e as indefectíveis fotos para as 600 pessoas presentes no teatro. Já lancei muitos livros com outros autores e tenho prática em congelar o sorriso por algumas horas, à custa de fundos sulcos bilaterais. Sinto que morrerei como a personagem Coringa do Batman, com um sorriso congelado. 

Observo muito o mundo e as pessoas, mesmo quando pareço blasé. O padre Fábio estava ao lado mais próximo das pessoas que vinham até a mesa. Ao se aproximarem, muitos (a maioria) pediam bênção para ele. Alguns beijavam a mão ou solicitavam uma oração mais específica. Eu não ouvia, desde minha infância interiorana, pessoas pedindo a bênção a um sacerdote. Supunha hábito escasso e antigo, pouco presente em uma metrópole como São Paulo. Ledo engano: passei quase toda a noite ao lado de um repetido e carinhoso mantra: “A bênção, padre”, seguido de um benevolente “Deus te abençoe, meu filho/minha filha”. 

Sou estudioso de religião e de religiosidades e achei o fato curioso. Amanhã lembraremos os 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Tendo com a religião uma relação intelectual, percebi que eu poderia estar perdendo uma ligação com o imenso rio subterrâneo da prática da fé que aflora no pedido de uma bênção. É um verdadeiro aquífero guarani teológico sob o solo que piso.

Os acadêmicos que trabalham com expressões institucionais ou antropológicas da fé observam muitas coisas, mas vivenciam pouco o cotidiano das crenças. A bênção é um desejo, um anseio, um talismã e uma postura de vida. 

Lembrei-me da conhecida experiência soviética de reprimir o Cristianismo ortodoxo por 70 anos. Igrejas foram demolidas, seminários fechados, publicações confiscadas. Na Polônia socialista, até o controle do papel era uma arma contra a Igreja Católica. Fidel Castro suspendeu o feriado do Natal. Passada a interdição ou a proibição, a religiosidade e as instituições religiosas voltam com força enorme. O aquífero irrompe em gêiseres, como em vasos comunicantes.

Um exame de datação científica do Santo Sudário revelou confecção no século 14. Logo, o pano de Turim era uma fraude. Debates posteriores lembraram da possibilidade de contaminação por materiais mais recentes, como velas, algo que pode ter alterado por completo o rigor da prova. Suspeito que, se um exame revelasse a etiqueta made in China no sacro pano, em nada abalaria a devoção.

A fé não funciona na chave da prova empírica, pelo menos para a maioria das pessoas. Não é uma prática forense investigativa que anima o romeiro, porém a busca de uma resposta que nenhuma ciência pode lhe fornecer. 

A fé é uma gramática de percepção do universo, uma prática, uma resposta a um anseio ancestral de proteção, uma sociabilidade, uma identidade e um hábito. As instituições podem ajudar ou atrapalhar, mas não são as formadoras principais da crença. Tanto intelectuais ateus como teólogos religiosos entendem pouco de povo e de fé. A massa está absolutamente distante das vias de Tomás de Aquino para provar que Deus existe de forma lógica, ou das contestações de Richard Dawkins para provar que qualquer deus é um delírio. Teólogos e intelectuais ateus falam para si, em redomas afastadas do mundo, fazendo estardalhaço pelos seus narcisos. 

Ali, nas pessoas que vinham buscar uma foto e um autógrafo, existia também uma demanda que encontrava um presbítero famoso. Talvez o maior debate entre ateu e crente não estivesse no texto ou nas palavras, mas nos homens e mulheres com adereços votivos, escapulários, terços ao pescoço e até uma efígie do padre Reus (jesuíta que morreu com fama de santo em São Leopoldo). Há uma gestualidade e uma vivência corporal da crença, há vetores antigos e fortes que acompanham o público religioso. 

Lembrei-me de um episódio ocorrido em Campinas. Fila imensa de autógrafos que se arrastava como uma cáfila no Saara. Uma simpática senhora se aproxima com seu bebê. Fico de pé, pergunto quem vai tirar a foto. A mãe pede apenas que eu coloque a mão sobre a cabeça do filho. Aturdido, pergunto se ela sabe que sou ateu. Ela sorri: “Não importa”. Dei a bênção apostólica ateia para a criança que sorriu. A senhora se retirou agradecida. Fé é tão forte que pode ser obtida de um professor ateu. As coisas são assim. 

Chegamos ao terceiro centenário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, a morena, atacada e despedaçada como quase todos os cidadãos da pátria amada, idolatrada e estilhaçada! Brasileira, Aparecida nunca desiste. Amanhã é o dia dela e, também, o Dia da Criança, o dia do descobrimento da América, o dia de Colombo, dia “de la raza”, o aniversário de d. Pedro I e, acima de tudo, é feriado nacional. Folga em uma quinta é uma graça randômica que o calendário concede. Emendar agrada a ateus e a piedosos trabalhadores. Escolha um motivo e descanse. Bom feriado e boa semana para todos!

Mais conteúdo sobre:
Padre Fábio de Melo

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.