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A batalha mais longa

Richard Diver, o desencantado psicanalista do romance de F. Scott Fitzgerald Suave É a Noite, deixa, às páginas tantas, a dolce vita na Riviera Francesa para flanar pelos campos da batalha do Somme, na Picardia (norte da França), e refletir sobre os sonhos e as crenças do seu “belo mundo, encantador e seguro” que ali haviam se dissipado na década anterior, no auge da então chamada Grande Guerra. Suave É a Noite é um dos grandes livros em torno da Primeira Guerra Mundial, ligeiramente distanciado dela mas ainda marcado por seus efeitos na psique dos europeus e de exilados, como Fitzgerald e seu personagem. 

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Sérgio Augusto

20 Fevereiro 2016 | 02h00

Dick Diver foi ao Somme; eu, modestamente, fui a Verdun, no nordeste da França, mas a seis décadas de distância da carnificina que em suas onduladas campinas teve início em 21 de fevereiro de 1916, confrontando alemães e franceses. Queria ver o que sobrara das trincheiras, do Forte Vaux, visitar o cemitério de Douaumont, e verificar se depois de uma pancada de chuva a paisagem de Verdun-sur-Meuse ainda lembrava “a pele úmida de um sapo monstruoso”, impressão de um anônimo piloto francês que levei anotada junto a outras observações sobre a mais longa batalha da Primeira Guerra, cujo centenário amanhã se comemora. 

Se tivesse a sensibilidade e o poder descritivo de W.G. Sebald, me arriscaria a escrever algo menos pedestre sobre aquele passeio, mas a verdade é que, além da inaptidão intelectual, bem pouco me recordo do que lá vi e senti. 

Segundo grande confronto da “guerra do Kaiser” (o primeiro havia sido no Marne, cinco meses antes), Verdun durou mais de 300 dias e contabilizou 715 mil vítimas fatais. A batalha seguinte, no Somme, em julho de 1916, aquela evocada na segunda temporada de Downtown Abbey, juntaria ingleses e franceses numa única frente para aliviar a pressão alemã sobre Verdun. Os “boches” (alemães) eram mais numerosos e melhor armados que os “poilus” (franceses), além de pioneiros no uso de gás asfixiante, mas os franceses, compulsoriamente na defensiva, deram um show de resistência e tática. Tiveram mais baixas que o inimigo, mas afinal triunfaram. 

Desde o início a guerra serviu de estímulo às novas tecnologias (tanques, aviões, submarinos, metralhadoras, canhões antiaéreos, zeppelins, armas químicas, lança-chamas, granadas de mão, etc.) e à imaginação. O dadaísmo nasceu de seu ventre negativista. A arte dos anos 1920 foi quase toda marcada pelas angústias e pelos sofrimentos causados pelo conflito. 

Artistas, poetas, escritores, filósofos e historiadores ou nela se alistaram e serviram (até como padioleiro: Fernand Léger, e motorista de ambulância: Hemingway) ou a propagandearam como uma luta heroica entre a civilização e a barbárie. Léger imortalizou Verdun num desenho a crayon, assim como a outros momentos da guerra, que, por bons motivos, definiu como “a academia do cubismo”. Uma guerra abstrata, “linear e seca como um problema de geometria”. 

A França perdeu, no conflito, 403 poetas e escritores. Tombou em Verdun o romancista e político Émile Driant, fissurado em guerra. Com menos de um mês de combates, o poeta Apollinaire foi ferido na cabeça, sobreviveu a uma longa convalescença (durante a qual publicou seus caligramas sobre a guerra e a paz), para sucumbir à gripe espanhola, dois dias antes da assinatura do armistício. O também poeta Charles Péguy perdeu a vida no Marne, seu confrade Ernest Psichari morreu na fronteira com a Bélgica e Henri Alain-Fournier, o até hoje lido romancista de O Bosque das Ilusões Perdidas (Le Grand Meaulnes), que deu seu último tiro nas Ardennes belgas. 

Os poetas ingleses Wilfred Owen e Rupert Brooke, este o símbolo máximo da juventude romântica e impetuosamente galvanizada pelo confronto com os alemães, não voltaram vivos. Siegfried Sassoon, muito ligado aos dois, não só voltou inteiraço como trouxe no peito uma medalha por bravura. Sassoon escreveu alguns dos mais impactantes versos antibelicistas da língua inglesa. Na prosa, apesar do Fla-Flu teutônico que se criou entre o pacifista Erich Maria Remarque (Sem Novidades no Front) e o militarista Ernst Jünger (Tempestades de Aço), sou mais chegado não ao Hemingway de Adeus às Armas, nem ao Henri Barbusse de O Fogo, mas ao Dalton Trumbo de Johnny Vai à Guerra.

Trumbo, o roteirista de Hollywood perseguido pelo macarthismo e recém-glorificado no filme Trumbo - Lista Negra, publicou seu romance às vésperas da invasão da Polônia pelo exército de Hitler, em 1939, e dele extraiu um filme, por ele próprio dirigido em 1971. Seu libelo pacifista talvez seja o mais angustiante relato bélico que já li. Narrado na primeira pessoa, por um mutilado a quem só restou o cérebro para ruminar com seus botões, é um fluxo de consciência doloroso, um notável tour de force literário. Pena que a velha tradução da Civilização Brasileira esteja há tempos esgotada. 

Em 1939, os comunistas americanos eram isolacionistas, portanto contrários à entrada dos Estados Unidos na guerra. Rompido o Pacto Molotov-Ribbentrop e invadida a Rússia pelas tropas nazistas, em 1941, Trumbo e seu editor suspenderam a reedição do livro, só liberada depois da derrota alemã. “Foi uma tolice”, reconheceria o autor, na mira do FBI desde a primeira edição do romance. 

No início do século passado, o poeta, romancista e dramaturgo alemão Fritz von Unruth também era pacifista. Nunca soube por que o estado-maior alemão o convidou para ser o cronista oficial da Batalha de Verdun. Para lá enviado como soldado, Unruth não produziu a esperada ode à guerra, ao expansionismo alemão e à bravura dos boches, mas um repúdio criativo a essas três coisas, a que deu o título de O Caminho do Sacrifício. Publicado em 1919, é uma dança macabra formalmente audaciosa, descrevendo, de forma expressionista, os preparativos e os primeiros dias da batalha do ponto de vista de um pequeno grupo de soldados transfigurados pela violência e morbidez que os cercam. A exemplo do romance de Barbusse, foi traduzido em Portugal, mas nem o centenário da resistência em Verdun convenceu uma editora brasileira a publicá-lo. 

O único vestígio da “Primeirona” (apud Verissimo) atualmente em circulação por aqui é um comercial de TV estranhamente embalado pelo patriótico hino Over There, que George M. “Yankee Doodle Dandy” Cohan compôs para celebrar a entrada dos americanos na guerra, em 1917. 

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