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A aventura de Djanira na garupa da moto de Rebolo

Ali estão as mesas-redondas, onde jantávamos sem toalhas, as cadeiras anos 50, como que vindas de brechós, o palco ao fundo e o piano onde Polera tocava o que queria e quanto mais bêbado, melhor tocava. Era irmão do Joubert de Carvalho, o médico compositor, autor de um sucesso incomparável, Maringá. Enquanto Polera não saía da noite, Joubert não frequentava bares, nunca tinha entrado em uma boate, odiava boemia. Além de Maringá, compôs mais 699 canções.

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Ignácio de Loyola Brandão

18 Março 2016 | 02h00

Assim como o footing foi restaurado pelo Humberto Werneck em uma crônica, recuperei o Clubinho quando abri o livro Artes Reportagem 2, que Luiz Ernesto Kawall deixou em minha portaria. Uma coisa mágica. O Clubinho, hoje esquecido, tinha nome pomposo – Clube dos Artistas e Amigos da Arte. Ainda que o projeto desta sua terceira tenha sido assinado – vejam só – por Jorge Wilheim, Jorge Zalszupin e Victor Reiff, era um porão sem graça, subsolo do Instituto dos Arquitetos do Brasil, na esquina da Rua Bento Freitas.

Informal, parecia ter móveis doados por amigos e sócios. Não havia decoração, mas você podia deparar nas paredes com um quadro de Clóvis Graciano, outro do Mario Gruber, um do Di Cavalcanti, algum do Rebolo, um Volpi ou um Marcelo Grassmann (o repórter político David Barreto dizia: tudo feito em casa) ou Bonadei. Valiam uma fortuna, mas quem ia estava cansado de vê-los, sabia quem eram os autores. Mais do que isso, olhando para as mesas identificávamos Mário e Rebolo – dos maiores expoentes do célebre Grupo Santa Helena – conversando, o crítico Arnaldo Pedro Horta com Sérgio Milliet, dois copões de uísque na frente, e o irmão de Arnaldo, o Oscar, que foi ministro da Justiça de Jânio e, dizem, quem tratou logo de entregar a carta-renúncia a Moura Andrade. Ou a bela Márcia, filha do Oscar, amicíssima de Lygia Fagundes Telles; Márcia, que certa época namorou o Fifuca, ou Flávio Porto, irmão do Sérgio Porto. Lygia e Márcia eram um estouro, como se costumava dizer na época. Via-se também Ciccillo Matarazzo. Este era sócio, o que causava estranheza, indagavam: mas ele é artista? Não, respondia Rebolo, ele é o amigo das artes.

Todas as noites, ali estava o Mário Donato, autor best-seller, seu erótico romance Presença de Anita fez furor. Na mesma mesa, Ibiapaba Martins, o grande romancista da época do café, e Marcos Rey – campeão dos leitores juvenis, vende até hoje. Tivesse sorte, veria Luis Martins, que fazia uma crônica diária no Estadão, boa-pinta e sedutor, marido de Ana Maria Martins. Gente inteligente e descolada estava lá.

Havia uma mulata deslumbrante (hoje, todos achariam que era siliconada; não era, o silicone ainda não existia para tais fins; tudo era dela de nascença). Namorada de um boa-praça chamado Silioma (se a memória não me faz errar) que era a metade dela em altura. Mas ela só olhava para ele. Olhar para nós, aquele bando de jornalistas sem ter onde cair morto? Demos apelido à moça: amiga da arte. Íamos ao Clubinho porque ali havia o melhor picadinho da cidade (e o mais barato) e o uísque custava quase nada. Mesmo assim, uma dose era sorvida por longas horas, até o gelo secar. Consultávamos o bolso e podíamos escolher: um uísque ou três Cubas-libres.

Tudo isso – e há muito mais –, o Kawall subitamente me restituiu. Quem é ele? Pena de quem não conhece. É o sujeito que tem a Vozoteca, uma das maiores coleções de vozes do mundo. Voz de quem você possa imaginar, de Mário de Andrade a Juscelino, e todos cantores, cantoras, artistas, escritores, pintores, cineastas famosos e anônimos importantes. Luiz Ernesto foi um dos mais versáteis jornalistas a cobrir artes plásticas no Brasil, escrevendo para A Tribuna de Santos. Quase batendo nos 90 anos, Kawall circula sem parar, serelepe, jovial.

Ao folhear, você percebe este jornalista furando a pesada segurança e posando ao lado do general Eisenhower, presidente dos Estados Unidos, ou ao lado de Di Cavalcanti, de Carlos Lacerda, Juscelino, Volpi, Bruno Giorgi, Pennacchi, Ciccillo Matarazzo, Paulo Bomfim, Câmara Cascudo, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Patativa do Assaré, Warchavchik, Flávio de Carvalho, Pietro Maria Bardi. Ele conheceu e entrevistou tudo e todos. Parte de suas memórias está neste Artes Reportagem 2, que você pode encontrar no Espaço Cultural Alberico Rodrigues, na praça Benedito Calixto, já que o jornalista é da praça também.

Histórias e mais histórias. Ele conta uma, que ouviu de Rebolo e vale a pena recontar: “Djanira, a pintora, estava começando e veio de Avaré para São Paulo, ver o ambiente artístico. Eu presidia o Clubinho e, às vezes, a linda morena fazia parte de nosso grupo. Uma noite, choveu demais e ela perdeu a hora de voltar para o hotel. Perguntei se aceitaria ficar em minha casa, já que a chuva não parava. Topou. Fomos em minha moto Galateia. Uma aventura embaixo d’água subir os morros do Morumbi. Chegamos, saltei correndo, chamei Lisbete, minha esposa, que dormia: Olhe, venha ver quem trouxe para dormir aqui, a Djanira. Lisbete foi, olhou a moto e indagou: Djanira? E onde está? Tinha caído da boleia. Voltei rápido e encontrei a pintora na chuva, encharcada, os pés na lama, p... da vida”.

Quanto ao Clubinho, fechou há décadas.

 

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