A água da rainha

Na corte de Henrique 8º. da Inglaterra a torrada seria colocada num copo contendo a água do banho da rainha

Luís Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

08 Abril 2018 | 06h00

A etimologia não é uma ciência exata. Definir a origem de palavras muitas vezes envolve mais palpite e fantasia do que rigor escolástico. Será verdade que “toast”, a palavra inglesa para “brinde”, vem do hábito de mergulhar uma torrada (também “toast” em inglês) numa taça de bebida, que fazia a ronda dos convivas até voltar para quem tinha proposto o brinde, que a comia? Na corte de Henrique 8º. da Inglaterra a torrada seria colocada num copo contendo a água do banho da rainha e o copo faria a ronda dos cortesãos – presume-se que reunidos em torno da banheira da rainha, com a rainha ainda dentro –, cabendo ao último gentil-homem o privilégio de comê-la. A torrada. Encontrei esta versão num livro fascinante chamado Neologismos Indispensáveis e Barbarismos Dispensáveis, de Domingos de Castro Lopes, que nem o Google conhece, publicado em 1909. Sim, tenho ido longe para me distanciar do tétrico noticiário do dia. 

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Mas o costume de beber a água do banho da rainha seria anterior ao século 16. Escreve Castro Lopes (atualizei a ortographia): “Reinava como soberana em Alcázar a bela D. Maria de Padilha, amante de Pedro o Cruel. A célebre favorita tinha adotado para seu uso o ‘Banho das Sultanas’, para o qual entrava em presença da corte, exigindo a polidez que cada cortesão bebesse no covo da mão da favorita um pouco da água do banho. Recusou-se a fazê-lo um dos grandes da Espanha e perguntou-lhe o príncipe a razão de tal injúria. ‘Depois de ter provado o molho’, respondeu ele, ‘receio que se me abra o apetite para o peixe’”. 

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Castro Lopes odiava galicismos e anglicismos. Propôs alguns neologismos para substituir barbarismos dispensáveis. Em vez de “turista”, que vem do “tourist” dos ingleses, “aqueles insulares que muito incita a bossa da locomoção”, sugeriu “ludambulo” – de “ludus”, divertimento, passatempo, e “ambulo”, andar, passear. Assim como existem sonâmbulos, existiriam ludambulos, os que passeiam pelo mundo para se divertir. Como o “ludopédio” para substituir “futebol”, do Chico Buarque, a sugestão do Castro Lopes não teve futuro. Valeu a sua boa intenção, neste e em outros casos, de proteger nossa bela língua dos invasores. Pelo menos ele foi poupado de ver “entrega” virar “delivery” e “caipira” virar “country”.

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Curioso, na frase do Castro Lopes sobre os ingleses citada acima, o uso da palavra “bossa”. Com o sentido de compulsão, se bem entendi. Não sou nenhum filólogo, mas essa bossa pra mim é nova. 

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