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A admirável bondade humana

Marcelo Rubens Paiva

A luta sanguinária pela preservação tem explicação. A norma na Evolução é a caça, presa versus predador. Defende-se território. A violência é rotina entre todas as espécies. A bondade é que surpreende.

Vídeos que nos encantam: um tigre dando de mamar a porquinhos, uma cadela cuidando de gatinhos, criados por um ganso cuidado por cobras amigas de um bebê. Muitos se perguntam como ocorreu a extinção do homem de Neandertal há 30 mil anos. Não foi uma coincidência ter cruzado o caminho de Home Sapiens, nós, mais fracos, mais inteligentes e ágeis, na mesma época?

Se um pacote de US$ 10 mil dá sopa, alguém passa a mão nele. Se outrem devolve ao seu dono, torna-se notícia de jornal. A bondade é exceção. É raridade. É quase sem explicação.

No livro Minha Vida de Goleiro, Luiz Schwarcz conta a incrível história do pai, um menino judeu procurando sobreviver na Hungria invadida por nazistas. Em 1944, o trem em que estava a caminho do campo de concentração quebrou. No vagão sujo e entulhado, Lajos, avô de Schwarcz, notou a fresta, jogou o filho e disse: "Fuja, corra, não olhe para trás, estarei bem".

O menino correu sem olhar para trás. Voltou a Budapeste, trabalhou na Resistência, distribuiu passaportes falsos, foi preso, fugiu de novo, deparou-se com soldados nazistas numa estação, agarrou uma desconhecida e a beijou, como dois namorados que há muito não se viam. Os soldados passaram. Nunca soube o nome da moça que o ajudou. Nem por que não o entregou.

Pouco antes do fim da guerra, foi preso de novo, viu seu colega da Resistência ser morto. O carcereiro nazista, sabe-se lá por que, abriu a porta da cela e disse: "Fuja e não olhe para trás". Veio parar no Brasil. Sob um dos maiores horrores que a humanidade já provocou, como uma pequena flor no asfalto, a bondade resistiu e floresceu. Lajos nunca mais foi visto. É Luiz em húngaro.

Nem toda a ação faz parte de um plano. Nem toda boa ação tem um propósito por trás. O homem é também bom. Pode ser. Existem elementos para.

Como deficiente, já vi anônimos me ajudarem sem pedir nada em troca. Já tombei e rolei duas vezes de cadeira de rodas pela calçada. Não dura segundos: surgem, do nada, anjos da guarda que nem se conhecem e organizam o resgate, montam a minha cadeira, me agarram, me puxam, me recolocam no lugar.

Já fui carregado em escadas por anônimos voluntários. Tenho amigos que já se desdobraram. No primeiro ano da USP, a sala era no primeiro andar. Subi e desci aquela escada, carregado por colegas, incontáveis vezes. Desci sete andares do Edifício Copan, quando numa emergência tivemos que evacuar o prédio. Amigos me carregaram na cadeira de rodas pela escada, a turma, por solidariedade e pelo amor que têm por mim. Sorte deles que eu estava magro e a cadeira era manual, não a motorizada.

"Quer ajuda?" é uma pergunta que rotineiramente um deficiente escuta na rua.

Em 11 de setembro de 2001, enquanto o mundo assistia de boca aberta e ao vivo ao incêndio das torres do WTC (World Trade Center), pensei nos meus colegas cadeirantes. Você sabe, todos sabem, em caso de incêndio ou terremoto, não se deve pegar o elevador.

John Abruzzo e Ed Bewya eram dois cadeirantes que trabalhavam na Torre 1 do WTC, contou a revista New Mobility.

John trabalhava no 69.º andar, no escritório da Port Authority Of New York, quando o primeiro avião bateu no prédio. Sua janela era para o lado norte, exatamente onde o jato bateu. Viu papel e, depois, corpos caírem. Tetraplégico (C5-C6), foi com sua cadeira motorizada até o lobby, onde encontrou dez colegas de trabalho assustados.

Alguém achou a EVAC+CHAIR, uma cadeia de lona reforçada, dessas de praia, com ganchos e rodinhas, feita exatamente para esse tipo de evacuação. Transferiram John para ela e começaram cuidadosamente a descê-lo pelas escadas. Revezavam-se em turnos de três ou quatro colegas. No 40.º andar, por causa da densa fumaça, o grupo teve de cruzar o andar em chamas e ir para a escada do outro lado. No 30.º andar, cruzaram com os primeiros bombeiros subindo as escadas com pesado equipamento. No 20.º andar, ouviram um estrondo na outra torre. No 10.º, ouviram a torre vizinha desabar. Não pararam.

Finalmente, no térreo, John foi carregado sobre entulhos de concreto cercados por destroços e corpos. Bombeiros quebraram uma janela para eles e os amigos passarem. Ainda na EVAC+CHAIR, fora do prédio, correram pelas ruas sem olhar para trás.

Não viram o colapso da torre em que estavam. Mais corpos caíram. Finalmente uma ambulância o levou. Não tinha nenhum ferimento. Foi levado ao hospital por causa da inalação de fumaça. Sua cadeira motorizada deixada no 69.º andar e sua van estacionada nunca foram encontradas.

Ed tinha 42 anos, era tetraplégico completo (C3) e trabalhava como analista de sistema da Blue Cross há 14 anos, no 27.º andar. Como Abe Zelmanowitz, 55 anos, também programador. Com o tempo, viraram melhores amigos. Ed pesava 150 quilos. Na hora do incêndio, Abe não saiu do seu lado. Pediu para outros chamarem os bombeiros, enquanto ficaria com o amigo. Ao mesmo tempo, ligou para a família, dizendo que estava tudo bem, e que ficaria com Ed até o resgate, apesar de a mãe implorar para ele sair de lá. Não se sabe se o resgate chegou.

Ed morreu com seu fiel escudeiro, Abe Zelmanowitz. John ainda tem a EVAC+CHAIR que, com dez colegas de trabalho, salvou sua vida. Nas entranhas do horror, aparece um raio de luz que dá esperanças à humanidade. O conformismo e o individualismo podem ser mais benéficos. A bondade e o altruísmo podem ser arriscados e até mortais, aprendi isso em família. Mas admiráveis.