703

“Foi neste quarto. Exatamente neste quarto.”

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2016 | 03h00

“Você está doido.”

“Aposto o que você quiser.”

“O quarto estaria o mesmo, tanto tempo depois?”

“Algumas coisas mudaram, mas olha a vista. A vista é a mesma.”

“Como você sabe? A última coisa que queríamos fazer, naqueles dias, era olhar a vista. Não saiamos da cama.”

“Acho que eu estou me lembrando até do número. Era o 703. Tenho certeza.”

“Tá sonhando.”

“Lembra que você trouxe uma sacola com pijama? Achei aquilo maravilhoso. Em vez de uma camisola, ou de nada, um pijama de flanela azul.”

“Que no fim eu nem usei.”

“Tomamos banho juntos, lembra? Antes e depois.”

“Foi a primeira vez que vi você nu. E quis me casar assim mesmo.”

“Olha o banheiro. Igualzinho. Era o 703!”

“Que ideia, vir para o mesmo hotel, tantos anos depois...”

“E acabar no mesmo quarto! O que você está fazendo?”

“Ligando pra casa. Pra ver se está tudo em ordem.”

“Não vá dizer onde nós estamos.”

“Vou. Vou dizer ‘Olha, seu pai quis passar o Dia dos Namorados no mesmo hotel em que dormimos juntos pela primeira vez’.”

“Você trouxe os meus remédios?

“Trouxe. Estão na sacola, junto com os meus. Aliás, na sacola só tem remédios.”

“O Isordil veio?”

“Veio. Eu estou delirando, ou naquela vez você entrou no quarto me carregando no colo?”

“Entrei. Coisa de filme americano.”

“Eu era mais magra.”

“E eu era mais forte. Hoje, se fosse tentar carregar você no colo, me deslocaria a coluna, se não me desse um enfarte.”

“Tanto tempo...”

“Eu me lembro de cada minuto.”

“Mentira.”

“Lembro de tudo. Lembro até do que você me chamava: Ronrozinho.”

“Que coisa ridícula.”

“Na época, era excitante.”

Mais tarde:

“Ronrozinho, você não vem pra cama?”

“Já vou. Estou olhando a vista.”

*

TCHAU

Vou sair em ferias. Sem foguetes, por favor. Volto no dia 1º de dezembro.

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