1. Usuário
Assine o Estadão
assine

Wes Anderson fala sobre o filme 'O Grande Hotel Budapeste'

Elaine Guerini - ESPECIAL PARA O ESTADO

03 Julho 2014 | 02h 00

Cineasta recupera Europa do entre guerras em novo filme

BERLIM - Wes Anderson não abre mão dos elementos que o consagraram como um diretor de grife. Nem poderia. Quando seu nome surge nos créditos de abertura de um filme, a plateia já sabe o que esperar: personagens excêntricos, ambientação surreal, universo estilizado e uma história com um quê de fábula.

"Por mais que as pessoas digam que eu faço exatamente a mesma coisa, a cada novo projeto sinto que estou me reinventando", diz o diretor, que colocou o seu imaginário cinematográfico a serviço de trama mais substanciosa e sofisticada em O Grande Hotel Budapeste, seu filme mais recente, que após ser apresentado no Festival de Berlim chega hoje aos cinemas brasileiros.

Em O Grande Hotel Budapeste, o diretor Wes Anderson narra as aventuras (desventuras?) de Gustave H., o concierge de um majestoso hotel, e de seu fiel escudeiro, o mensageiro Zero Moustafa, num período conturbado na história da Europa, entre as duas guerras mundiais. Há mistério, romance, sexo e assassinato na trama, inspirada ligeiramente na obra do escritor austríaco Stefan Zweig, que atuou nas décadas de 1920 e 1930. "Zweig registrou como ninguém o momento da perda da inocência da Europa", diz o diretor na entrevista a seguir.

Divulgação
Em "O Grande Hotel Budapeste", o diretor Wes Anderson narra as aventuras (desventuras?) de Gustave H., o concierge de um majestoso hotel

Stefan Zweig cometeu suicídio no Brasil, em 1942. Alguma ideia do motivo que o levou a escolher Petrópolis como última parada?

Inicialmente, ao fugir dos nazistas, Zweig seguiu para a França e para a Inglaterra. Mais tarde, foi para os EUA, onde viveu em Nova York. Participou de uma conferência de escritores em Buenos Aires, onde percebeu que se sentia melhor na América do Sul. Foi aí que ele se instalou em Petrópolis, no Rio, numa área de grande beleza natural. Mas não acho que ele tenha ido para o Brasil com a intenção de se matar lá. Queria viver. Ele tinha lutado por isso. Mas em algum momento não teve mais forças para continuar.

Seus filmes são povoados de personagens excêntricos...

Mas talvez eles sejam absolutamente normais para mim. O concierge, por exemplo, é inspirado em amigo próximo. Desde muito jovem, ele já tinha opinião formada sobre tudo. Já era intelectualizado, tinha boas maneiras e vivia rodeado de amigos mais velhos. Ele realmente saía com mulheres 25 anos mais velhas, como Gustave H. faz no filme. Esse é o perfil de uma pessoa que considero interessante o suficiente para contar a sua história.

Você é conhecido como um dos mais europeus dos diretores americanos. Concorda?

Os filmes que me inspiraram a dirigir são metade europeus e metade americanos. Quando comecei a estudar cinema, fui atraído pela produção dos anos 60, época em que os filmes europeus e japoneses ganharam popularidade internacional. Ao mesmo tempo, no entanto, fui tão influenciado por Truffaut, Goddard, Bergman, Fellini e Kurosawa quanto por Scorsese e Peter Bogdanovich e Mike Nichols.

No início da carreira, você dizia que não conseguia os atores que queria, tendo que recorrer às suas segundas opções. E hoje?

Ainda é assim (risos). Para cada filme, metade dos atores convidados originalmente diz “não”. Por exemplo, por mais que Tilda Swinton esteja fantástica aqui, o papel de Madame D., a octogenária amante do concierge, tinha sido oferecido a uma atriz que realmente está nessa faixa etária, Angela Lansbury. Mas ela não estava disponível.

 

De onde vem o sentimento de nostalgia de seus filmes?

O que me interessa é estabelecer universos próprios, onde eu possa ancorar os meus personagens. Invento mundos como invento personagens. Não me interesso por um lugar qualquer, que já foi visto incontáveis vezes no cinema. Neste caso, eu quis falar de um tempo particular, muito distante da sociedade movida a redes sociais.

Seu amigo Spike Jonze encontrou uma maneira interessante de abordar o tema em Ela, não?

Spike vislumbrou um futuro para o qual nós possivelmente estamos caminhando. Essa ideia me agradou muito. Talvez eu devesse ambientar alguma história no futuro e não me deixar levar tanto pelo passado. Meu problema está no presente, com o qual não sei como lidar (risos).

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

Título original: The Grand Budapest Hotel. Direção: Wes Anderson.

Gênero: Comédia: (Reino Unido-Alemanha/ 2013, 100 minutos).

Classificação: 14 anos.