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Wagner Moura lança ‘Praia do Futuro’ e deixa o Brasil por dois anos

Luiz Carlos Merten - O Estado de S. Paulo

14 Maio 2014 | 03h 00

Ator fará minissérie sobre Pablo Escobar, dirigida por José Padilha, na sequência

Wagner Moura nem estranha mais - é o preço que paga por ter feito um personagem tão forte quanto o Capitão Nascimento. Desde 2007 e, depois, 2011, quando Tropa de Elite 1 e 2 viraram fenômenos - e o segundo se transformou no recordista de público de todas a história do cinema brasileiro -, ele se acostumou a ver as pessoas, e a imprensa, perguntarem se o papel, qualquer que seja, é uma tentativa de se libertar do capitão do Bope. "Dessa vez, vão radicalizar", prevê. "Vão dizer que fiz um gay para acabar de vez com o Nascimento." Na verdade, Wagner Moura está muito feliz com Praia do Futuro, que estreia nesta quinta, 15, em um bom circuito. Não é um blockbuster, daqueles que entram arrebentando em centenas de salas. É um lançamento menor e ele confessa que está ansioso.

"Não tenho nada contra as comédias que fazem sucesso, até já fiz uma (A Mulher Invisível). Mas eu acho que é preciso diversificar. Minha bronca é acharem que só comédia interessa ao público." Admirador de Karim Aïnouz, ele confessa que assediou o diretor. "Queria filmar com ele. Conversamos muito sobre um projeto que não se consolidou, e aí veio o Donato." É o bombeiro gay de Praia do Futuro. Desde que o filme foi para o Festival de Berlim, em fevereiro, a imprensa não fala outra coisa. O personagem homossexual de Wagner - como se o próprio Capitão Nascimento tivesse saído do armário. Ele não quer fazer de Praia do Futuro uma bandeira. Diz que o personagem não é só gay. "É muito mais rico, e o próprio filme é mais que simplesmente gay." Mas não foge da raia: "Se ajudar a diminuir o preconceito, então é (gay)".

E revela, o que pode surpreender: "Donato é o meu personagem mais próximo de Nascimento. Não é um estereótipo. É viril". O próprio Karim Aïnouz teme que o reducionismo prejudique seu melhor trabalho." É meu filme mais maduro, sim. Fiz os outros no grito, no susto. São filmes de que me orgulho. Mas esse é mais denso. Todo filme tem sempre muito da gente, mas esse é mais pessoal, sem ser autobiográfico." Um filme que começa com cata-ventos e está sempre em movimento, como o tempo. Um filme em capítulos - O Abraço do Afogado, Um Herói Partido ao Meio e O Fantasma que Fala Alemão. No primeiro movimento, Donato salva o alemão que está se afogando na Praia do Futuro, mas perde o amigo dele. Tornam-se amantes e, para viver sua história, Donato deixa a família no Brasil - o irmão pequeno que o idolatra - e parte para a Alemanha. Dez anos mais tarde, o irmão, Ayrton, cresceu, virou homem e o localiza em Berlim. O reencontro é dilacerante, uma cena que já nasceu clássica - antológica - por sua intensidade e emoção.

Wagner está muito feliz com Praia do Futuro, mas não tão feliz assim com o Brasil. Confessa: "Tenho o maior amor por esse País, mas não está dando para viver aqui. Nunca pensei que fosse dizer isso, mas estou gostando que meu próximo projeto - uma minissérie sobre Pablo Escobar que será dirigida por José Padilha - vai me tirar do Brasil por uns dois anos". Ele reclama do preconceito e do conservadorismo, e diz que Praia do Futuro vai contra isso, mas reclama mais ainda da política. Na eleição passada, já se havia distanciado do PT e apoiado Marina Silva para presidente. "O PT não inventou o toma lá/dá cá, mas o institucionalizou", diz, desiludido. O Rio é uma das cidades mais caras do mundo. "Eduardo Paes governa com a iniciativa privada." É o oposto do que vivenciou em Medellín, na Colômbia (onde vai filmar Narcos).

"Vão me chamar de demagógico, mas o projeto de reurbanização de Medellín realmente privilegia os necessitados. O metrô sai de dentro das favelas, e elas estão sendo urbanizadas. No Brasil, temos as UPPs, que são um primeiro passo, mas a coisa não vai adiante. São os mesmos policiais, olha a quantidade de denúncias." Como cidadão, e sabendo que poderia influenciar pessoas, ele sempre abriu seu voto. Pela primeira vez, admite que não sabe em quem votar. "Tenho um carinho muito grande por Marina (Silva), mas não estou nem um pouco con vencido com Eduardo Campos. Me decepciona a proximidade dele com Aécio Neves, que é o candidato da agroindústria." Depois da entrevista, Campos decidiu que precisa se afastar de Aécio em busca de lulistas insatisfeitos. "Não voto em Aécio nem em Dilma. Lula ainda mascarava a fragilidade do PT, mesmo com o mensalão. Dilma não tem o carisma dele nem a competência."

Pai dedicado, Wagner adora curtir os filhos. Quer um Brasil melhor para eles. Ia fazer logo seu longa sobre Marighella, que agora está prevendo para 2016. "Tem gente que diz que era um assassino, mas ele entendeu o Brasil e sabia que a chapa ia esquentar, já antes do golpe. Marighella pertence a uma geração que se sacrificou pelo Brasil, eu quero fazer o filme sobre ele para a minha geração. Ficou difícil, hoje, entender e aceitar esse idealismo, as pessoas estão muito centradas." Uma coisa é certa: Wagner encantou-se com Jesuíta Barbosa, que faz seu irmão em Praia do Futuro. "É um ator maravilhoso e um cara muito especial. Ainda não sei que papel dar a ele, mas quero que esteja comigo em Marighella."

‘Interpreto no instinto, na raça’, diz o ator Jesuíta Barbosa

Como você foi parar no elenco de Praia do Futuro?

Karim (Aïnouz) já tinha o Wagner, que é baiano. Queria um ator de Fortaleza, porque Praia do Futuro começa lá, na praia do título. Ele começou a procurar atores, terminou me escolhendo.

Está ocorrendo tudo mundo rápido com você. Tatuagem, Praia do Futuro, a minissérie da Globo (Amores Roubados). Como está sendo?

Como você diz, é muito rápido. Não estou tendo tempo de processar. Avanço no instinto, na raça, mas está sendo muito bom. Tenho conhecido pessoas fantásticas. O Irandhyr (Santos), o Wagner (Moura), o Karim. Hilton Lacerda, que dirigiu Tatuagem, me ajudou muito. É o cara mais puro que conheço. Devo muito a ele.

Você está de novo num filme com tema gay, depois de Tatuagem. Como encara isso?

Se eu tenho medo de ficar marcado? A gente fala muito das outras coisas de Praia do Futuro, para evitar que o rótulo cole e o filme vire só isso. Mas acho que tem de assumir, sim. Uma pessoa, um filme, nunca são só gays. Tá todo mundo no mundo. Ayrton foi maravilhoso de fazer. Todo mundo é tão dilacerado em Praia do Futuro. É um filme dolorido, mas não triste.

Como foi fazer a cena do elevador com Wagner?

Bicho, a gente sabia que ia chegar lá, mas foi muito forte. Fátima Toledo, que nos preparou, a Wagner e a mim, deixa a gente num estado de fragilidade, de tensão, que você é capaz de explodir. Aquilo saiu tudo num jorro. O amor, o ódio, a agressão. É uma coisa muito física. A Fátima é f...

E o futuro?

Cacá Diegues falou comigo sobre um papel para o Grande Circo Místico. Fiquei doido para fazer, mas ele ainda não decidiu. Tem outro ator na parada. Faço tudo. Cinema, TV. Estou aprendendo, me descobrindo como ator e como gente. É um processo muito intenso.

 

‘Sou muito chamado para filmes de ação’, diz Clemens Schick

Aquela cena em que você canta e dança Aline é muito forte. Como foi fazer?

Karim (Aïnouz) queria uma cena assim, mas até dois dias antes não sabíamos se teríamos os direitos. Quando ficou decidido, tive pouco tempo para aprender os versos e criar a coreografia. É uma cena da qual as pessoas falam muito, mas tem uma coisa que me envergonha. Não canto bem, não sei cantar. Tem gente que acha que desafino intencionalmente. Nãããooo. Estou me acostumando a me ver. Achava estranho.

Como anda sua carreira internacional?

Deve ser pelo meu físico, mas me chamam muito para fazer filmes de ação, papéis de vilão. Cassino Royale, Largo Winch 2 - Conspiração Burma. No segundo, salto de um helicóptero disparando tiros. É tudo muito louco, mas é também excitante. Um dia, estou conhecendo gente em Bangcoc, depois em Fortaleza, na Praia do Futuro. É uma descoberta permanente. Da gente e dos outros.

A pergunta que não quer calar: como é fazer um personagem gay, e com cenas tão calientes?

As cenas são só cenas, e quando se faz com um ator como Wagner (Moura) não chega a haver nenhum constrangimento. Vamos lá, e a gente faz. Tenho respondido muito a essa pergunta. O curioso é que ninguém me pergunta como me preparo para fazer cenas heteros. É como se com outro homem fosse antinatural. Com homem, com mulher, a gente representa. Os personagens é que pretendem ser reais, e isso é que importa.

E representar em outra língua?

Entendo português, mas não falo. Falo inglês e, um pouco menos, francês. Mas uma coisa é entender, falar, outra coisa é atuar em outra língua. Sou alemão, qualquer outra língua é difícil para se expressar emoções. Mas, se quer saber, é mais fácil para mim dizer "te amo" em inglês que em alemão.