Damon Winter/The New York Times
Damon Winter/The New York Times

'Você se sente um animal se contorcendo', diz Uma Thurman sobre assédio

Atriz de 'Pulp Fiction' e 'Kill Bill' conta em detalhes como Harvey Weinstein agiu

Maureen Dowd, The New York Times

05 Fevereiro 2018 | 06h00

Sim, Uma Thurman está furiosa. Ela foi estuprada. Ela foi abusada sexualmente. Ela foi mutilada com aço incandescente. Ela foi traída e enganada por aqueles em quem confiava. 

+++Os efeitos do escândalo sexual que envolve o magnata do cinema Harvey Weinstein

E não estamos falando de seu papel como a noiva ensanguentada de Kill Bill. Falamos de um mundo tão cruel, amoral, rancoroso e misógino quanto qualquer inferno imaginado por Quentin Tarantino. Estamos falando de Hollywood, onde até um anjo vingador tem que suar para ter respeito, quanto mais conseguir satisfação.

+++Quem é Harvey Weinstein?

Interpretando a sensual Mia Wallace em Pulp Fiction e a feroz Beatrix Kiddo em Kill Bill, Thurman foi uma deusa da flexibilidade no mito fundador de Harvey Weinstein e Quentin Tarantino. Mas, sob o reluzente ouro do Oscar, há trevas subjacentes que transformam a figura. 

“O sentimento complexo que eu nutro por Harvey é o quão mal eu me sinto por todas as mulheres assediadas depois de mim”, disse Uma Thurman. “Sou uma das razões para uma jovem entrar sozinha no quarto dele do jeito que eu fiz. Quentin usou Harvey como produtor executivo de Kill Bill, um filme que simboliza empoderamento feminino. E todos esses cordeiros caminharam para o abate porque achavam que ninguém que alcança aquele status faria algo ilegal com você. Mas eles fariam.”

Thurman alega que a Creative Artists Agency, sua antiga agência, estava conectada ao comportamento predatório de Weinstein. Desde então, eles pediram desculpas públicas. “Eu tanto fui vítima disso quanto parte da cortina de fumaça, é uma posição esquisita”, diz.

Quando questionada sobre o escândalo no tapete vermelho da estreia de sua peça na Broadway, The Parisian Woman, ela disse que esperava se sentir menos brava antes de falar sobre isso. “Eu usei a palavra ‘brava’, mas eu estava mais preocupada em não chorar, para dizer a verdade. O que se viu foi uma pessoa tentando ganhar tempo.”

No dia de Ação de Graças, Thurman começou a desembainhar sua katana feita por Hattori Hanzo, publicando no Instagram um desejo de boas festas a todos, “menos a você, Harvey, e a todos os seus conspiradores. (...) Você não merece nem um tiro. Fiquem ligados”.

Uma conheceu Weinstein e sua primeira esposa, Eve, após Pulp Fiction. “Eu o conhecia muito bem antes de ele me atacar”, ela disse. “Ele costumava passar horas discutindo o texto e me elogiando. Isso possivelmente me fez ignorar os sinais. Nunca fui o tipo de queridinha do estúdio. Ele tinha um firme controle sobre os tipos de filmes e diretores que se encaixavam comigo.”

As coisas rapidamente degringolaram em um encontro no quarto dele em um hotel em Paris. Estavam debatendo um roteiro quando o roupão dele apareceu. “Não me senti ameaçada”, ela se recorda. “Pensei que ele estava sendo muito idiossincrático, como se fosse um tio excêntrico.” 

Ele a chamou para segui-lo por um corredor. Sempre havia, Uma se lembra, “vestíbulos com corredores com antessalas”, então eles podiam continuar conversando. “Eu o acompanhei por uma porta e demos em uma sauna. Eu estava com botas, calças e jaqueta de couro. Fazia tanto calor e eu disse, ‘Isso é ridículo, o que você está fazendo?’ Ele estava ficando nervoso, então deu um pulo e saiu.”

O primeiro “ataque”, ela diz, veio não muito depois em sua suíte em Londres. “Foi como um golpe na minha cabeça. Ele me empurrou para baixo. Tentou se lançar sobre mim. Tentou se expor. Fez todo tipo de coisa desagradável. Você se sente como um animal se contorcendo, um réptil. Eu estava tentando fazer o que podia para levar o trem de volta aos trilhos. Aos meus trilhos, não aos dele.”

Uma estava dormindo em Fulham com sua amiga, Ilona Herman. “No dia seguinte, chegou à casa dela um buquê de rosas vulgar, de 60 centímetros”, diz a atriz. “Elas eram amarelas. Abri o bilhete como se fosse uma fralda suja e dizia apenas ‘Você tem bons instintos’.” Então, ela diz, assistentes dele começaram a ligar novamente para falar sobre projetos.

Ela pensou que poderia confrontá-lo e esclarecer tudo, mas levou Herman com ela e pediu a Weinstein para encontrá-la no bar do hotel. Os assistentes tinham sua própria coreografia para atrair atrizes à teia de aranha, e eles pressionaram Thurman, colocando Weinstein no telefone para dizer que foi um mal-entendido e que “temos tantos projetos juntos”. Finalmente, ela concordou em subir, enquanto Herman esperava em um hall de elevadores. 

Assim que os assistentes desapareceram, ela ameaçou Weinstein: “Se você fizer isso com outras pessoas, vai perder a carreira, a reputação e a família, eu prometo”. Por meio de um representante, Weinstein, que está em terapia no Arizona, concordou que ela “pode muito bem ter dito isso”. 

Herman disse que, quando a atriz conseguiu falar novamente, revelou que Weinstein ameaçou acabar com a carreira dela. Por um porta-voz, Weinstein negou isso e disse ainda que a achava “uma atriz brilhante”. Ele reconhece o relato dos episódios, mas diz que, até o encontro em Paris, eles tinham “uma relação profissional divertida e repleta de flertes”. 

“O sr. Weinstein admite ter passado uma cantada na sra. Thurman na Inglaterra, após compreender errado seus sinais em Paris”, diz a nota. “Ele imediatamente se desculpou.”

Embora ainda tivesse projetos com ele, Thurman passou a considerar Weinstein um inimigo. / Tradução de André Cáceres

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