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Unesco declara o Círio de Nazaré como Patrimônio da Humanidade

O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2013 | 12h 33

Festa dedicada a Nossa Senhora de Nazaré é realizada anualmente em Belém desde 1793

A festa do Círio de Nazaré, em homenagem à Virgem de Nazaré, que congrega milhares de fiéis todos os anos em Belém do Pará, agora também é Patrimônio da Humanidade. A Oitava Reunião Anual do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial, da Unesco, aprovou nesta quarta-feira (4 de dezembro), a inclusão do evento na Lista Representativa do Patrimônio Cultural da Humanidade. Agora, o Brasil possui quatro bens imateriais inscritos. Também são Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade o Samba de Roda do Recôncavo Baiano, Arte Kusiwa - Pintura Corporal e Arte Gráfica Wajãpi e o Frevo: expressão artística do carnaval de Recife.

A reunião do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial na cidade de Baku, no Azerbaijão, de 2 a 7 de dezembro, recebe 800 delegados de cerca de cem países. O encontro fará também um balanço dos dez anos da Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, que desempenha papel crucial na promoção da diversidade cultural em todo o mundo. Este ano, além do Brasil com o Círio de Nazaré, outras nove candidaturas serão avaliadas pelos 24 países membros do Comitê, entre eles o Brasil.

A festa em honra de Nossa Senhora de Nazaré, realizada em Belém, tem como principal procissão o Círio, que ocorre desde 1793. A festa religiosa envolve outras celebrações que começam em agosto e se prolongam 15 dias após o Círio no chamado Nazareno. Sagrado e profano se complementam mutuamente, promovendo um fato social de dimensões religiosa, estética, turística, cultural e econômica. Para os paraenses, é o momento de demonstração de fé e reiteração de laços familiares e afetivos.  Atualmente, o Círio de Nazaré agrega mais de 2 milhões pessoas no dia principal da procissão.

A jornada de fé e devoção considerada uma das maiores concentrações religiosas do mundo foi o primeiro bem cultural inscrito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artísitico Nacional (IPHAN) no Livro de Registro das Celebrações como Patrimônio Cultural do Brasil. Segundo o Ministério da Cultura do Brasil, sua inscrição na Lista Representativa do Patrimônio Cultural da Humanidade contribui para dar visibilidade aos patrimônios culturais imateriais do mundo.

O Círio ocorre há 220 anos contínuos e possui grande capacidade de mobilização popular. Em sua primeira realização, contou com cerca de 10 mil pessoas, atraídas por seus elementos que conformam a identidade brasileira: sua a gente, o colorido e o sentimento de devoção e fé que dão movimento e vida a muitas manifestações religiosas populares por todo Brasil.

A origem do Círio de Nazaré está envolta em mitos que se misturam a fatos históricos. As festividades são centradas na devoção à imagem de Nossa Senhora de Nazaré, que, de acordo com os devotos, foi encontrada por um homem do campo chamado Plácido. Ele descobriu uma pequena imagem da Virgem de Nazaré entre as pedras cobertas de trepadeiras, às margens do igarapé Murutucu, atualmente local da Basílica de Nazaré. Plácido levou a imagem para casa e, no dia seguinte, ao acordar, ela havia desaparecido. Assustado, correu ao local onde a encontrara e percebeu que a imagem havia voltado para o mesmo lugar.

O fenômeno repetiu-se várias vezes, até que o governador da época mandou que a imagem fosse levada para a capela do Palácio do Governo, onde ficou guardada pelos soldados. Mas, no dia seguinte, a santa foi de novo encontrada às margens do igarapé, com gotas de orvalho e carrapichos presos a seu manto, provada longa caminhada. A notícia atraiu para a palhoça do caboclo habitantes da cidade que, de curiosos, passaram a engrossar as fileiras dos devotos da santa milagrosa. O Círio de Nazaré revive esse trajeto - o ir e vir - feito pela Santa.