‘Uma Temporada na França’ trata da dispersão das populações africanas na Europa

‘Uma Temporada na França’ trata da dispersão das populações africanas na Europa

Filme de Mahamat-Saleh Haroun é um comentário duro sobre a política de imigração europeia

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

08 Abril 2018 | 18h34

Uma Temporada na França, de Mahamat-Saleh Haroun, é um comentário duro sobre a política de imigração europeia. Num tempo de intolerância generalizada, o filme é politicamente importante. Mas não é seu único ponto forte. A história do personagem fala por si mesma. 

Abbas (Eriq Ebouaney) é um professor, vindo da República Centro Africana com seus dois filhos pequenos. Busca na França o que não teve em seu país: paz e condições para sustentar a família. Viúvo, Abbas procura obter o visto de residência, enquanto começa relacionamento com Carole (Sandrine Bonnaire). Esse é um subtema importante. O romance inter-racial não é lá muito bem visto numa sociedade hipócrita que se acredita não racista. Abbas é negro; Carole é branca. 

Abbas não fugiu do país apenas com seus filhos. Veio também o irmão, o culto e revoltado Étienne (Bibi Tanga), que terá a trajetória tortuosa e desamparada dos que se encontram privados de raízes e não são aceitos em um novo ambiente. 

Em sua estrutura dramática, Uma Temporada na França é um filme político e que aponta a insensibilidade burocrática no tratamento de questões humanitárias. Pela fria letra da lei, Abbas e Étienne podem não ser considerados refugiados políticos e, portanto, dignos de acolhimento pelo Estado francês. No entanto, é o que de fato são, apesar da dificuldade de se enquadrarem em quesitos da lei. 

Como verá o espectador, os destinos diferentes de Abbas e Étienne simbolizam duas opções diante de um beco sem saída – a sacrificial e a que busca um escape, nem que seja improvável. A ideia de Haroun foi de inscrever no destino dos dois personagens um certo encontro e uma separação. Da sensação de impotência (inscrita simbolicamente no sexo) à ruptura insubordinada. 

Tanto do ponto de vista de Étienne como de Abbas, o descumprimento da lei não é uma questão filosófica, ou jurídica, mas de simples sobrevivência. Não podem voltar para um país que, na prática, “não existe mais”, como diz Étienne, referindo-se à guerra civil que dilacerou o país e provocou grandes deslocamentos populacionais. Mas o filme toca também na questão do pertencimento. Como quando as crianças perguntam ao pai quando terão um lugar para morar em que não sofram risco de expulsão, como tinham em Bangui (capital da República Centro-Africana). 

Esses recursos mais didáticos para abordar temas complexos como desenraizamento e solidariedade internacional nem sempre ajudam no andamento da obra. Mas, implacável, o filme mostra que nem sempre a boa vontade é capaz de vencer a rígida burocracia de imigração do continente europeu. O fator humano não conta muito no mundo de hoje. 

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