Um réquiem para as ideias vencidas, que o vento levou

Avanti Popolo, de Michael Wahrmann, é um filme que pode surpreender já a partir do título. Usa as palavras iniciais da velha canção socialista italiana Bandiera Rossa, um hino enterrado na poeira da história, junto com os sonhos da revolução e da redenção da classe operária.

Luiz Zanin, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2014 | 20h36

Além do mais, Michael Wahrmann, que todos chamam de Micha, usa dois não atores como protagonistas, figuras muito conhecidas no meio cinematográfico, mas apenas nele: o já falecido diretor Carlos Reichenbach (1945-2012) e o pesquisador e professor André Gatti.

Eles interpretam pai e filho. O filho (Gatti) separa-se da mulher e volta a morar com o pai (Reichenbach) numa casa em escombros. O relacionamento entre ambos parece um tanto hostil. Nesse ambiente deprê (e fotografado em tons escuros), o pai procura resgatar a memória de outro filho, este desaparecido nos tempos da ditadura militar, e evocado apenas por trechos de filmes em Super 8.

Entremeada a essas cenas melancólicas entre pai e filho, há a narração de um programa de rádio pirata, na qual o locutor (o próprio Micha) faz comentários e tenta tocar para os ouvintes o velho hino socialista. Mas o disco está riscado e não funciona. Nada funciona, aliás. Todas as ações são interrompidas, as falas não chegam a concluir uma comunicação. Não existem pontes de fato entre as pessoas. Parece, em certo sentido, um pesadelo à la Buñuel, como no clássico Anjo Exterminador, em que um grupo de burgueses não consegue sair de um aposento, por mais que se esforce.

Aqui os personagens não são burgueses, pelo contrário. São pessoas que, se tivéssemos de classificar, pertenceriam mais à região da contracultura que a qualquer outra. E também, ao contrário dos tipos de Buñuel, podem se locomover à vontade, embora não o façam, porque algo parece travado, sem que saibamos exatamente o quê. Nada está claro. Nem para nós, na plateia, nem para os atores. A certa altura, o personagem de Carlão Reichenbach exclama: "Está tudo escuro, não estou enxergando nada!".

As alusões, se voluntárias por parte do diretor, parecem bastante óbvias. Ninguém, em especial os formados em uma certa cultura de esquerda, consegue mesmo enxergar coisa alguma diante do nariz. O que se vê, e isso sim de maneira clara, é o triunfo do mundo do hiperconsumo, capitalista e competitivo, no qual ideias como justiça social, solidariedade, cultura popular, etc., tornaram-se tão obsoletas quanto a moda das calças boca de sino.

De qualquer forma, essa melancolia não propositiva chegou a sensibilizar parte do público que já assistiu a em mostras e festivais. Ao que parece, ele vai ao encontro desse enfado brasileiro contemporâneo um tanto difícil de expressar. Um inconformismo com "o que está aí" e, ao mesmo tempo, a incapacidade de encontrar formas políticas de expressão mais adequadas e que não se aliem à direita. É um tempo de impasse mesmo, e por isso, o beco sem saída, tanto político como estético, do filme pode encontrar seus interlocutores. Ou, pelo menos, quem sinta que o filme o representa.

Foi o que aconteceu no Festival de Brasília do ano passado, no qual Avanti Popolo estreou, sem muito alarde. No fim, foi recompensado com os troféus de direção para Michael Wahrmann, e o de ator (in memoriam) para Reichenbach, numa decisão obviamente sentimental do júri.

No entanto, esse filme pequeno, pelo que sabe, foi encontrando seu lugar entre jovens em vários lugares e tem viajado a festivais alternativos pelo mundo. A dificuldade de classificá-lo em gêneros convencionais joga a seu favor. E tem mesmo como trunfo esse vago sentimento anarquista que fala ao coração de quem não se enquadra no mundo nem encontra alternativas realistas para ele. É quase um réquiem para as utopias de um tempo encerrado. 

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