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Cultura

Ridley Scott

'Um Homem Entre Gigantes' expõe violência em esporte

Pancadas que os jogadores de futebol americano levam na cabeça causam vários problemas, diz longa

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Mariane Morisawa,
ESPECIAL PARA O ESTADO

04 Março 2016 | 21h16

NOVA YORK - Como patologista forense em Pittsburgh, o nigeriano Bennet Omalu estava acostumado a lidar com dezenas de corpos todos os meses. Em 2002, fez a autópsia que mudaria sua vida e começaria uma discussão sobre o esporte mais popular dos EUA, o futebol (americano). O examinado era Mike Webster, “center” e um dos maiores ídolos da história do Pittsburgh Steelers, o time da cidade, pelo qual jogou 16 temporadas desde 1974. Webster tinha apenas 50 anos e estava lutando contra a depressão, amnésia, demência. Vivia numa caminhonete cheia de lixo. Omalu ficou intrigado, porque o cérebro parecia intacto. Por sua conta, resolveu investigar. E, assim, descobriu a encefalopatia traumática crônica, causada por repetidos traumas na cabeça, que vitimou vários atletas – em 2015, uma pesquisa encontrou a doença em 96% dos examinados, após a morte. A história foi parar na revista GQ. A produtora Giannina Scott leu e mostrou para seu marido, o diretor e produtor Ridley Scott. Assim nasceu Um Homem Entre Gigantes, dirigido por Peter Landesmann e estrelado por Will Smith.

O ator, acostumado a interpretar personagens reais como Muhammad Ali (em Ali, de 2001) e Chris Gardner (em À Procura da Felicidade, de 2006), ficou encantado com as ironias. “Um imigrante descobriu uma doença cerebral em atletas que jogam o esporte favorito dos americanos. É um belo espelho para os Estados Unidos”, disse Smith em entrevista, em Nova York. “Fora que ele não entendia como era possível as pessoas acharem que não saber a verdade era melhor do que saber”, completou, referindo-se à enorme resistência e descrédito que Omalu enfrentou em sua pesquisa, por ser estrangeiro, ainda mais africano.

Smith passou um tempo com Omalu e participou de várias autópsias. “Foi poderoso. Ele tem essa ideia de ser um guardião da fronteira entre a vida e a morte, entregando almas para o próximo plano. Leva esse trabalho muito a sério, não apenas cientificamente, mas espiritualmente também”, contou. “Entender essa harmonia quase paradoxal entre ciência e espiritualidade abriu a porta para sua verdade interna”, afirmou ainda.

A experiência pesou um pouco para o ator. “Fazer autópsias e confrontar a mortalidade não é fácil. Numa sexta participei de três e queria continuar porque Bennet faz isso normalmente. Mas não havia mais corpos às 4 da manhã. Às 8 horas do sábado já havia três. Entre eles, o de uma garota, com a tatuagem que tinha acabado de fazer ainda coberta. Foram três ou quatro meses até me livrar disso e não ter pesadelos.” Filmar em Pittsburgh, onde todo mundo conhece a história trágica de Mike Webster, foi emocionante. “Todos os dias, havia familiares dos jogadores mortos. A mesma mulher que extraiu fatias do cérebro de Webster para a pesquisa do dr. Omalu fez o trabalho para a gente. Semanas atrás, conheci a mãe do jogador mais jovem a cometer suicídio por causa da doença.”

Will Smith diz admirar o esporte, mas não consegue mais ignorar a repetição de golpes violentos. “Certamente, muda o jogo para sempre, quando se tem conhecimento científico do que acontece quando um cérebro colide com o crânio.”

O longa é duro com a NFL (liga de futebol profissional), que resistiu aos resultados da pesquisa do dr. Omalu e não foi consultada pela produção. “Sou jornalista, meu instinto é procurar todo o mundo”, disse o diretor. “Mas, no fim, era a jornada de um homem, e a NFL, que conta sua história todos os domingos, não tem nada a ver com isso. Espero que aceitem o filme, que só propõe a busca de uma solução.”

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