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'Últimos Dias em Havana' consegue mostrar alma profunda de Cuba

Filme de Fernando Pérez, o maior cineasta da ilha, conta história de amizade e de contradições políticas

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2017 | 19h30

Últimos Dias em Havana é um filme sobre a amizade, mas também sobre a sociedade cubana e o desejo contraditório de muitos de seus habitantes que hesitam entre sair do país e lá permanecer. Quem o dirige é Fernando Pérez, tido como o mais importante cineasta da ilha. Autor de filmes considerados referenciais como Clandestinos, Hello, Hemingway e Suíte Havana, Pérez concedeu entrevista exclusiva ao Estado. 

Em Últimos Dias em Havana, vemos dois amigos que vivem juntos no mesmo quarto de uma habitação coletiva no bairro popular do centro. Um deles, Miguel (Patricio Wood), deseja desesperadamente deixar o país e emigrar para os Estados Unidos. O outro, Diego (Jorge Martínez), encontra-se preso ao leito, doente terminal de aids. 

Ao assistir ao filme, muita gente lembrou de Morango e Chocolate, de Tomás Gutiérrez Alea (o “Titón”), morto em 1996. Ele é autor do clássico Memórias do Subdesenvolvimento e é considerado o maior cineasta da história de Cuba. Pérez confirma a influência do diretor, mas estabelece a diferença entre Últimos Dias em Havana e Morango e Chocolate. “O Diego do nosso filme não é um intelectual como o de Morango e Chocolate. O primeiro não pode atuar porque a sociedade não permite. O outro, por causa de sua condição física. O filme, mais que homenagem a Morango e Chocolate, é um tributo a Titón, de quem fui assistente de direção no começo da carreira e a quem devo tudo o que sei de cinema.”

Em Últimos Dias em Havana, a amizade coloca-se em primeiro plano. Mas a emigração problemática dá tônus político ao longa e é, por assim dizer, o cimento da trama. Não é a primeira vez que aparece na obra de Pérez. Já a vimos, sob sua forma mais dilacerada, em Madagascar e La Vida es Silbar. “A emigração é um dilema (e em muitos casos uma tragédia) desse mundo em que vivemos”, diz Pérez. “Apenas que, em Cuba, se aprofundou por razões ideológicas. Tenho três filhos e dois deles escolheram viver fora de Cuba. A maioria das famílias cubanas viveu separações e ausências similares.”

Todo esse enredo político e humano sustenta-se sobre dois grandes atores. Para viver o homossexual Diego, Fernando Pérez fez um longo processo de casting até chegar a Jorge Martínez. “Ele é um ator muito querido em Cuba, mas, até esse filme, não tivera oportunidade de assumir papel de protagonista; foi escolhido por sua sensibilidade e talento. E também porque, tendo enfrentado problema semelhante, identificou-se muito com o personagem”, diz. 

No Cine Ceará, em Fortaleza, onde o filme de Pérez foi apresentado em concurso, Martínez nos disse que havia sofrido um câncer de pulmão e estava curado depois de tratamento longo e penoso. Diz que usou a memória do seu próprio sofrimento físico e psicológico para compor o personagem de Diego em sua fase terminal.

O outro polo da dupla é Patricio Wood, intérprete de um personagem minimalista, oposto ao exuberante Diego. “Sempre pensei em Patricio para o papel, embora seu temperamento seja o contrário do personagem. Teve de fazer um esforço extraordinário para se concentrar no mutismo e na vida interior de Miguel. Terminou identificando-se tanto com ele que, quando nos encontramos, eu o chamo de Miguelito”, diz.

 

Patricio e Jorge são atores veteranos, respeitados em seu país. Mas há também uma estreante que brilha em Últimos Dias em Havana, Gabriela Ramos, no papel de Yusisleydi, a sobrinha “hippie” de Diego. “Quando ela veio ao casting, sentimos de imediato que tinha características da personagem. No primeiro teste, ela se pôs a cantar uma música que acabamos por incorporar ao filme.”

De certa forma, a garota de nome estranho é a fresta de luz que se abre em meio a tantas dúvidas e questões sombrias colocadas. Pérez diz que estava buscando a expressão franca que muitos jovens têm e que destoa do discurso oficial e das pessoas mais velhas. “O fato de que a fala da jovem possa parecer ingênuo denota uma profunda sinceridade que lhe permite julgar as atitudes dos outros. Apesar de sua adolescência, termina sendo madura em suas reflexões”, diz. 

Em países muito problemáticos, a maturidade, às vezes, é tragicamente precoce, como sabem cubanos, brasileiros e outros povos.

ANÁLISE: Retrato afiado, não perde a ternura jamais

Últimos Dias em Havana é um sensacional dueto entre o moribundo cheio de vida, Diego (Jorge Martínez), e o homem são porém morto por dentro, Miguel (Patricio Wood). 

Um deles, Miguel, alimenta a obsessão de sair do país. O outro, Diego, nem cogita disso, pois precisa antes de tudo pensar em sobreviver. Dessa amizade assimétrica, ambientada no microcosmo do bairro de Centro Havana, Fernando Pérez atinge o universal, através de relações humanas bem traçadas, com seus conflitos, suas esperanças e um entorno social e político bem definido. Obra de mestre. 

Além de Miguel e Diego, outros personagens vão se agregando ao duo - uma mulher abandonada pelo marido, uma velha que funciona como referência da vizinhança e ajuda a todos e, sobretudo, uma garota, sobrinha do moribundo e que representa a juventude cubana. Exótica, ela cria bichos estranhos, junto com o namorado, e está grávida. Será essa personagem que se dirige ao espectador na comovente sequência em que dá conta do destino de todos os outros e do que resolveu fazer de sua vida. 

A câmera de Fernando Perez é um instrumento de precisão. Retrata com familiaridade a tensa e alegre realidade cubana. Compõe um retrato sem retoques. Mas com a ternura que não se deve perder jamais. É, ao mesmo tempo, delicado e incisivo - sua maneira particular de ser dilacerado e acenar com uma esperança que talvez não se cumpra, mas nos aquece.

 

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