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Tradições turcas desmoronam em 'A Segunda Esposa'

O diretor curdo-austríaco Umut Dag arma narrativa complexa para desmontar códigos em filme que chega com atraso ao Brasil

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2016 | 20h00

Foi há quatro anos. Em fevereiro de 2012, Kuma, do curdo-austríaco Umut Dag, inaugurou a seção Panorama do Festival de Berlim. Naquele mesmo ano, o filme integrou a programação do Festival do Rio. Passado todo esse tempo – as tais circunstâncias de mercado –, e com o título de A Segunda Esposa, Kuma estreia, enfim, nos cinemas brasileiros. No intervalo, Umut Dag já fez seu segundo longa, Risse in Betom (Concreto). Não poderiam ser mais diversos. A Segunda Esposa passa-se quase todo em interiores. A cena vai duas vezes para a rua – numa praça, um supermercado. Na maior parte do tempo, retrata conflitos familiares do ângulo de duas mulheres. Concreto está sempre na rua, na paisagem urbana, e agora os conflitos são predominantemente masculinos, entre pai e filho.

Há uma forte migração turca em países como Alemanha e Áustria. E existem os diretores como Fatih Akin e Umut Dag, que refletem sobre a permanência (ou não) das tradições de seus países de origem na pátria de adoção. A família tem sido o tema preferencial de Dag, desde o média Papai e, agora, por meio dos longas – A Segunda Esposa e Concreto. O filme começa com uma festa numa aldeia do Curdistão turco. Uma garota está se casando. Begüm Akkaya, que faz o papel, é linda. Forma um belo par com Murathan Muslu, ator fetiche do diretor, protagonista de Concreto. Mas esse casamento é só uma fachada. Ayse não está se casando com Hasan. Na verdade, ele está ali para dar legitimidade a outra união. Sem esse casamento, ela não poderá migrar para a Áustria, onde será a ‘kuma’, segunda mulher do pai sexagenário do rapaz.

Quem arranjou o casamento foi a primeira mulher, que está morrendo de câncer. Fatma precisa de uma cuidadora – para ela, cujo estado se agrava, e também para o marido e os filhos. A convivência de todos no apartamento não será pacífica. As duas filhas nascidas na Áustria rebelam-se, mas a mãe, pelo menos inicialmente, usa de sua persuasão (ou autoridade) para serenar os ânimos. O espectador, muito provavelmente, aprovaria se o casamento do começo tivesse sido para valer. Há mesmo alguma atração entre Hasan e Ayse, mas numa cena ele se abre para ela. Antes disso, mamãe já armou o sofá da sala para a concretização das núpcias e papai desvirginou a garota, que engravida.

A primeira parte de A Segunda Esposa é, como dizer?, calma. As coisas vão ocorrendo sem muito alarde, num ritmo tranquilo – e cotidiano. Fatma e Ayse tornam-se próximas, quase amigas. É curioso, pelas diferenças culturais, comparar A Segunda Esposa com Já Sinto Saudades, de Catherine Hardwicke, que estreou na quinta-feira, 24. A Segunda Esposa estreou no sábado, dia 2. O filme norte-americano é sobre duas amigas e os efeitos do câncer na relação das duas. As amigas, Drew Barrymore e Toni Collette, são transgressoras por natureza. Aqui, desde a aldeia e, depois, mesmo em Viena, tudo se faz segundo uma tradição.

É verdade que as filhas começam a se distanciar dessa tradição e hostilizam Ayse. Falam em alemão, para que garota não as entenda. Na segunda parte do filme de Umut Dag, esse mundo desmorona. Desejos reprimidos vêm à tona, segredos são revelados. Fatma e Ayse entram em rota de colisão. A violência explode. Nada é facilitado para o espectador. O diretor diz uma coisa para falar de outra. No final, tudo – racismo, preconceito, tradição – é colocado em xeque. E Umut Dag impõe-se como um jovem talento (tem 33 anos) a ser seguido com atenção, e até entusiasmo.

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