Weinstein Co
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'Terra Selvagem' marca estreia de Taylor Sheridan na direção

Filme foi premiado em Cannes e quem subiu ao palco foi o produtor Harvey Weinstein; hoje, seria execrado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2017 | 06h04

Em Cannes, em maio, a única unanimidade sobre a mostra competitiva é que ela estava inferior a qualquer uma das demais seleções - Un Certain Regard, Quinzena dos Realizadores, Semana da Crítica. Um filme já em cartaz no País venceu o prêmio de mise-en-scène (direção) da mostra Um Certo Olhar. Terra Selvagem é sobre uma agente do FBI que se liga a xerife local para investigar o assassinato de garota numa reserva indígena. Feminicídio. Em questão, duplamente, o machismo - a garota sofreu violência sexual antes de morrer e a agente interpretada por Elizabeth Olsen precisa se impor no hostil ambiente masculino.

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Taylor Sheridan é o diretor, e ele já concorreu ao Oscar de roteiro original por A Qualquer Preço, com Chris Pine e Ben Foster. Sheridan e seus atores, Elizabeth e Jeremy Renner, encontraram-se com o Estado para discutir o filme. Logo em seguida, ele regressou aos EUA. Quem recebeu o prêmio foi o produtor. Harvey Weinstein leu uma mensagem de Sheridan. Basicamente, ele disse que é obrigação dos artistas denunciar a violência. “O governo dos EUA sempre tratou muito mal os nativo-americanos. Os crimes contra mulheres, inclusive nas reservas, atingem números ultrajantes.” Weinstein não apenas fez suas as palavras de Sheridan como acrescentou que tudo isso - a violência institucional e contra as mulheres - é uma vergonha. Foi aplaudidíssimo. Isso foi há seis meses. Hoje em dia, Weinstein nem conseguiria falar - a Salle Debussy, que o aplaudiu com entusiasmo, o teria vaiado até a morte.

Em certos casos, meio ano pode representar uma eternidade. Com o currículo do diretor, do produtor, mais o prêmio em Cannes, parecia uma aposta segura que Terra Selvagem fosse para o Oscar. Agora, virou uma incógnita - mas a qualidade do filme não mudou. As circunstâncias, sim. Na conversa com o repórter, Sheridan disse que a negociação com os Weinstein (Harvey e o irmão Bob) demorou muito. “Achei que não haveria acordo, mas aí o roteiro ganhou a chancela do Sundance e tudo mudou.” E Sheridan acrescentou - “Essas histórias ocorrem com muita frequência nas reservas indígenas. São endêmicas, mas muito mal divulgadas. Não é do interesse de ninguém divulgá-las. Um filme aqui, outro ali, e eu comecei a saber essas coisas, a conhecer pessoas. Esse roteiro virou uma espécie de reserva para mim. Escrevi e depois tive de esperar muito tempo para fazer o filme. Mas ele esteve sempre comigo, como a história que eu queria contar."

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E Sheridan acrescentou - “Cada um pode ter suas ideias sobre o cinema, mas ele me interessa como uma mídia realista. Considero-me um diretor naturalista, e por causa disso encaro a paisagem como um personagem tão importante como qualquer dos protagonistas de minhas histórias. No caso de Wind River (título original), era importante filmar a reserva no inverno. A dificuldade foi maior, porque tivemos muitas externas, mas creio que colocar esse clima na tela foi decisivo.

Neve e silêncio, silêncio e neve. A história ficou muito mais pesada, e esse, decididamente, tem de ser um filme pesado. Seria absurdo, dada a gravidade do tema, dar um refresco ao público.” Uma palavra do diretor sobre seus atores - “Elizabeth encarou o papel com a determinação que eu queria. Num certo sentido, é a personagem forte dessa história. Jeremy (Renner) trouxe para seu personagem uma vulnerabilidade interessante. E Kelsey (Chow) foi maravilhosa. O fato de ser metade Cherokee, metade chinesa fez com que se comprometesse no projeto com uma intensidade que me surpreendeu. Não há nada que estimule mais um diretor, ou um roteirista que ver atores dando vida a figuras que existiam só na imaginação da gente.”

A reserva do filme situa-se no Wyoming. “Embora seja um dos maiores Estados americanos, o Wyoming, que foi integrado no final do século 19, ainda possui áreas tão fechadas que você tem a sensação de estar de volta às fronteiras primitivas da América. Essa América profunda está impregnada de conservadorismo, e quem se beneficia com isso são políticos como (Donald) Trump. Parece incrível, mas, em pleno século 21, ainda é preciso reintegrar o país.”

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