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Tela Quente da Globo esquenta mais com 'Que Horas Ela Volta?'

- Atualizado: 11 Janeiro 2016 | 04h 00

Recusado no Oscar, filme ganha o horário nobre da emissora e promete sacudir o público com sua dimensão humana e social

Anna Muylaert sempre disse que fez Que Horas Ela Volta? para o público brasileiro. O sucesso do filme em Sundance e no Festival de Berlim alegrou-a, mas não a fez mudar de opinião. O fato de o filme ter sido ignorado pela Academia de Hollywood também não a surpreendeu. “Há quanto tempo um filme do Brasil não é indicado?”, ela pergunta. Mas a verdade é que havia, sim, a expectativa de que o Que Horas...? ficasse entre os cinco indicados para o Oscar de filme estrangeiro. Não ficou nem entre os nove pré-indicados da categoria – a lista foi divulgada em dezembro. Também não foi nenhum estouro de bilheteria no País.

Na noite desta segunda-feira, 11, Que Horas Ela Volta? terá, no Brasil, o público dos sonhos de Anna Muylaert, mas não será nos cinemas. O filme está chegando à televisão aberta, na Globo. Vai passar na Tela Quente, às 23h02, logo após o sexto dos dez capítulos previstos da minissérie Ligações Perigosas. Para o público que vai emendar a novela de João Emanuel Carneiro (A Regra do Jogo) com a releitura de Manuela Dias (autora) e Vinícius Coimbra (diretor) do romance epistolar de Choderlos de Laclos, o Que Horas...? promete outra coisa. Na verdade, algo tão próximo do universo classe média do público que a sensação talvez seja a de estar vendo a vida como ela é.

 
 
No exterior, Anna sempre encontrou espectadores intrigados pelo fato de, no Brasil, existir esse sistema meio de clausura, que faz com que a empregada doméstica viva como agregada na casa do patrão. Val (Regina Casé) é considerada da casa, mas na realidade sabe qual é seu lugar – ‘o quartinho’ na área de serviço. Chega sua filha e bagunça toda a vida da casa pelo simples fato de que Jéssica/Camila Márdila representa um outro Brasil que não o da Casa Grande e Senzala. Val deu duro para criar a filha – e até teve de se afastar dela –, mas Jéssica teve uma educação e agora deixou o Nordeste para fazer vestibular em São Paulo. E pretende cursar arquitetura, um curso de – digamos – rico.

Com seu jeito abusado, de quem sabe seu valor, Jéssica bagunça a vida da mãe, da patroa, da família toda. No fim do filme, e sem risco de spoiler, Val, por influência da filha, terá mudado. Preste atenção em dois detalhes – a piscina, claro, e o jogo de café. Tudo o que Anna Muylaert quer dizer sobre as novas relações humanas e sociais da família e da casa brasileiras passa por aí. O filme inscreve-se nessa discussão que, recentemente, veio sendo levada por O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, e Casa Grande, de Fellipe Barbosa. Seria muito interessante se o público da TV aberta pudesse ver os outros dois – mesmo que o primeiro, em especial, seja mais ‘de arte’.

Quando seu filme foi indicado pelo Brasil para o Oscar, Anna, a diretora, estava à beira de um ataque de nervos. Havia sido destratada por ‘colegas’ cineastas (Cláudio Assis e Lírio Ferreira) num debate no Recife e os próprios produtores, ela contou ao repórter na época, agiam como donos (patrões?) do filme, e como se ela, a ‘autora’, fosse a doméstica. Anna engolia sapos calada, para não prejudicar a campanha do Que Horas...? no Oscar. Jéssica não teria engolido tanto desaforo.

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