Divulgação
Divulgação

Tata Amaral lança 'Trago Comigo' e defende cultura de resistência no mercado colonizado

Diretora encara o espinhoso tema da delação e dos traumas que provoca

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2016 | 05h00

Márcia Léllis de Souza Amaral – quem é essa? Pois foi como Tata Amaral que ela se tornou conhecida (e respeitada). Diretora, Tata tem no currículo obras importantes como Um Céu de Estrelas e Através da Janela, ainda dos anos 1990, e mais recentemente Antônia e Hoje. Este último já aborda o tema da ditadura cívico-militar. Houve um tempo em que se falava da ditadura militar, mas as pesquisas, e os historiadores, já conseguiram provar amplamente que o braço armado dos militares teve a contrapartida civil – políticos, empresários. A ditadura cívico-militar, portanto. Sua memória tem assombrado o cinema de Tata Amaral. Fornece o quadro de Trago Comigo, que estreia nesta quinta-feira, 16.

O projeto começou a nascer em 2009 e é, portanto, anterior a Hoje. Tata foi cooptada pela TV Cultura para fazer um filme sobre a memória dos anos de chumbo. “A dúvida, nesses casos, é sempre – o que fazer? Que história contar? O Matias foi fundamental”, Tata conta. ‘Matias’, o também cineasta Matias Mariani, forneceu-lhe uma história. E foi assim que Trago Comigo começou a nascer. Um diretor de teatro, Telmo Marinicov, sai da aposentadoria para montar espetáculo que vai reinaugurar casa que foi importante. O atual responsável foi seu companheiro de guerrilha. Dá-lhe carta-branca, como Tata teve. Numa entrevista, Telmo, interpretado por Carlos Alberto Riccelli, ouve do repórter a pergunta – quem foi Lia? É a madeleine para que ele se lance numa viagem em busca do tempo perdido.

Como se encena a memória daqueles tempos terríveis? “Eu queria contar essa história, mas, de cara, empaquei. Achava que o flash-back não ia dar conta do que queria fazer, da história que queria contar. Mas não empaquei muito tempo, porque a própria história me deu as ferramentas. É um diretor de teatro. Transforma em peça a experiência que viveu. Uma peça dentro do filme, uma encenação. Em vez do flash-back, um flash-forward, a projeção futura. Foi assim que tudo começou.” No processo, Tata teve ajuda que se revelou enriquecedora. “O grupo participa de um assalto a banco para financiar a revolução. Toda a narrativa do assalto à agência veio de Lúcia Murat (a diretora de ‘Dois Irmãos’ e ‘Uma Longa Viagem’). Lúcia me contou e eu terminei adaptando o relato dela, transformando numa cena-chave da peça.”

A cena é tanto mais intensa porque gera mal-estar no palco, cria uma tensão, digamos, geracional. O ator que faz o diretor quando jovem não consegue ver um herói no assaltante do banco. Para ele, é só um ladrão. “A história daqueles anos ainda é um tabu no Brasil. Se a ditadura cívico-militar fosse debatida nas escolas como parte do currículo, talvez os jovens tivessem uma outra compreensão do idealismo daquela geração que quis mudar o Brasil. Mas a lei da anistia contemplou torturadores. Se não fosse a Comissão Nacional da Verdade, todo esse passado teria sido uma página apagada da História (com maiúscula)”, reflete a diretora.

O ator jovem insiste – o terrorista. O diretor (Riccelli) corrige – o revolucionário. Por um momento, parece que o tema de Trago Comigo vai ser esse embate geracional. Pois o que está em discussão é a memória. Mas, logo, algo se passa. Um gesto, uma ação, um grito no palco e uma sombra passa pelo rosto do diretor. Riccelli, num magnífico trabalho como ator, toma consciência, cai a ficha. E se ele delatou essa Lia, perdida na lembrança? No Brasil da Lava Jato e da delação premiada, o tema de Trago Comigo passa a ser outro. “Mas essa é uma leitura que a gente faz hoje. Lá atrás, em 2009, como podia prever que chegaríamos a isso? Falava da delação naquele contexto”, diz a diretora.

Toda essa revisão histórica que o cinema brasileiro tem feito dos anos duros não deixa de ser uma forma de questionar a violência do Estado. Digamos, o que é verdade, que Tata Amaral está contra o processo de impeachment, mas sua perspectiva, em Trago Comigo, é histórica. “A delação do filme me interessa como coerção e tortura do Estado, uma coisa que não é punida e deixa trauma. O filme é sobre esse trauma, a dor que Riccelli carrega. Mas não é um filme sem perspectiva. Tem superação.” Na verdade, o filme tem muito mais. Uma história forte, uma realização de qualidade, um astro. Tudo isso deveria atrair público e lotar as salas que vão exibir Trago Comigo. Mas o filme entra num momento de refluxo do cinema brasileiro.

Nesta quinta, também estreiam um blockbuster, o ótimo Mais Forte Que o Mundo – A História de José Aldo, e outro filme de autor, o admirável Big Jato. Numa época de penúria para os filmes brasileiros – com exceção de Nise, todo o cinema nacional que não é blockbuster tem sido derrubado no mercado (Campo Grande estreou com 1.300 espectadores no fim de semana, O Outro Lado do Paraíso com 1.600) –, toda essa produção de qualidade vai entrar para o sacrifício? Tata Amaral reflete: “Eu ando numa fase de militância, buscando novas formas de chegar ao público. Acho muito interessante a iniciativa da Spcine, criando um circuito de comprometimento cultural e formação de plateias. Estamos num processo de colonização violento. Na periferia, temos quebrado isso com a organização de saraus culturais, uma iniciativa muito interessante. O Trago Comigo já vai sair em DVD no fim do mês, cheio de extras, com depoimentos que não entraram no filme nem na série. Estou com outra série que vai estrear logo na Cine Brasil TV, Causando na Rua. São umas meninas ótimas, as Pretas do Peri. Vamos fazer esses saraus, umas leituras. O cinema precisa criar novas plataformas, se reinventar. É o que estamos fazendo.”

ENTREVISTA

CARLOS ALBERTO RICCELLI, ator e diretor - 'Era muito difícil ser artista naquela época'

Ator e diretor, Carlos Alberto Riccelli há tempos não apresentava um trabalho de interpretação tão forte como em Trago Comigo.

Como começou seu envolvimento no projeto?

Cheguei bem em cima do início da filmagem, faltando uma semana, quando o grupo de jovens atores da peça dentro do filme já ensaiava no TBC.

O roteiro mudou alguma coisa com a sua chegada?

Com exceção de alguns diálogos guias, foi tudo improvisado com o elenco jovem. E, como eu era o diretor da peça, conduzia as improvisações. Foi muito intenso, nunca havia trabalhado assim.

E o tema da ditadura?

Era difícil ser artista no Brasil daquela época sem viver a censura, as perseguições, os desaparecimentos. É o tipo da história que é preciso contar e o público deveria ver.

Você vem de um filme como diretor que não atraiu muito público, Um Amor em Sampa...

Mas quem viu gostou muito. A questão é motivar as pessoas, levá-las aos cinemas. Estamos num refluxo doloroso para quem faz filmes. Bruna (Lombardi) e eu estamos num projeto de série para TV que logo vai ser anunciado, mas não desistimos do cinema. Vamos continuar insistindo.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.