Sony Pictures
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Tapete vermelho para o verão LGBT no Festival do Rio

O italiano Luca Guadagnino vem mostrar ‘Me Chame pelo Seu Nome’, que já iluminou Sundance e Berlim

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2017 | 06h00

No começo, era um filme de James Ivory e seu amigo Luca Guadagnino seria o produtor. James, cada vez mais debilitado após a morte de seu parceiro Ismail Merchant, terminou desistindo – e encorajando o próprio Guadagnino a dirigir. Call Me by Your Name é um desses filmes raros que têm passado pelos festivais espalhando felicidade. Sundance, Berlim – um crítico chegou a escrever que Guadagnino criou uma miragem, um sol de verão no rigoroso inverno berlinense. Call Me by Your Name integra agora a seleção internacional do Festival do Rio, que começa em 5 de outubro. Guadagnino virá ao Brasil para a gala, que será no dia seguinte, no Odeon. O filme deve estrear na sequência. Em fevereiro, o diretor e seus atores – Armie Hammer e Timothée Chalamet – conversaram com o repórter num hotel de Berlim. Armie estava descontraído ao falar de seu primeiro filme de temática gay. Primeiro? “Você não está se esquecendo de J. Edgar (de Clint Eastwood)?”, perguntou. “Ele é reincidente”, brincou Timothée.

Brincadeiras à parte, Call Me by Your Name – o filme será distribuído no Brasil pela Sony, com o título de Me Chame pelo Seu Nome – mostra a atração entre um garoto italiano e um americano maduro. Encontram-se em 1983, na região de Pandino, na Lombardia, quando o gringo, que se chama Oliver, se hospeda na casa dos pais de Elio. Houve uma vez um verão. Me Chame pelo Seu Nome baseia-se no livro de André Aciman. James Ivory tem crédito de roteirista. “Fiz algumas mudanças no roteiro de James, mas, de maneira geral, ele já havia sido mais fiel ao espírito que à letra do romance. O filme distancia-se do livro, é natural. Mas a essência está lá.”

Guadagnino graduou-se na Universidade La Sapienza, de Roma, na Faculdade de História e Crítica de Cinema, com uma tese sobre Jonathan Demme. Dirigiu Um Sonho de Amor e A Bigger Splash, ambos com Tilda Swinton. Apesar do fascínio pela cultura americana, não perdeu suas origens. “Quando me reuni com a equipe, disse que esse seria um filme de muitos personagens. Oliver e Elio, claro, mas também a paisagem, e a música. Filmei na região de Pandino, na Lombardia, que é muito cinematográfica. (Bernardo) Bertolucci filmou lá La Luna, então se você me perguntar se ele foi uma referência... Sim, foi. Com Bernardo vieram autores franceses que lhe são contemporâneos, Eric Rohmer e Jacques Rivette, que admiro pelo diálogo de seus filmes. E o pai de todos, Jean Renoir. Ainda acrescentei uma pitada do naturalismo de (Maurice) Pialat, porque amo a forma como ele filmava a juventude em Loulou e A Nossos Amores, mas tudo isso veio através da paisagem. Pandino inspira a gente a colocar a câmera, a sentir a vibração, a captar aquela sensualidade.”

E a música? “Queria que ela tivesse uma função de narração e que, de certa forma, comentasse a história. Sufjan Stevens fez um trabalho brilhante.” E aquela música quando Oliver está junto ao carro e começa a dançar? Aguarde o filme para ver – “Aquela é Love My Way, com The Psychodelics. É uma referência muito pessoal minha, que é anterior a tudo no filme. Sabia que teria de estar lá.” E o elenco? “Timothée já estava escolhido antes que eu me tornasse diretor. Armie foi escolha minha com o produtor. Acharam que estava louco, que ele não toparia. Gostei muito dele em A Rede Social e O Cavaleiro Solitário, que não fez sucesso, mas é muito bom. Armie e Timothée são héteros. Têm de expressar a atração que estão sentindo. Trocam o primeiro beijo, fazem sexo. Eu queria que fosse tudo muito discreto. Não queria mostrar muito. Deixei-os livres para ver o que me ofereciam, mas pedi que revissem a cena das cavernas de Marabar em Passagem para a Índia, de David Lean. Nada acontece, tudo acontece. Ambos me surpreenderam.”

O filme é feito de detalhes. O pai de Elio não diz nada, mas você é capaz de jurar que ele está percebendo tudo. “Queria passar a ideia, não de um pai cúmplice, mas de um pai compassivo, liberal.” Há uma cena em que Elio vai para a praia e passa por uma casa onde uma mulher descasca peras. Ele lhe pede um copo d’ água. Não tem nada a ver com a história. Nada? Descascar a pera, quebrar a casca de um ovo à mesa. Os símbolos são sempre discretos, tudo muito sutil, mas o tempo todo o filme está falando de se liberar, de se abrir para as sensações. “É um filme de detalhes”, concorda o diretor. “Possui camadas. Os artistas que admiro são surpreendentes por isso. Você está sempre redescobrindo os filmes. Eu volta e meia me pergunto dos filmes que gosto – ‘Como nunca vi isso antes?’ Trabalho nesse sentido, mas não vale muito a pena falar. O prazer tem de estar na descoberta. Se você já vai esperando... ‘Ah, o diretor disse...’ Não funciona. Como crítico, eu já gostava de refazer os filmes no meu imaginário. Me apropriava deles. É o que espero que o público faça nos meus filmes.” Por falar em se apropriar, depois de Me Chame pelo Seu Nome já emendou outro filme. Dirigiu a nova versão de Suspiria, o clássico ‘giallo’ de Dario Argento, de 1976.

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