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Sylvester Stallone conta como recuperou a confiança na própria interpretação em 'Creed'

Ator está entre os indicados para melhor ator coadjuvante

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Cara Buckley,
NEW YORK TIMES

16 Fevereiro 2016 | 04h00

CALIFÓRNIA - Existem algumas desvantagens em ser um ator de filmes de ação há muito tempo, descobriu Sylvester Stallone: ele passou por quatro cirurgias na coluna e uma atrodese (cirurgia também conhecida como fusão da coluna vertebral), esta última realizada depois de ele ter fraturado o pescoço durante as filmagens de Os Mercenários. Com o passar dos anos, as expectativas a respeito de suas supostas proezas atléticas aumentaram tanto que ele parou de querer jogar golfe ou basquete com qualquer pessoa. Quando as opiniões sobre sua capacidade de atuar atingiram o grau mais baixo, por volta da época em que ganhou o Framboesa de Ouro como pior ator do século no ano 2000, ele concordou com seus detratores mais severos.

“Quando você se transforma em sinônimo de lesão provocada pela força bruta”, disse Stallone, 69 anos, com sua voz de baixo profundo, parecendo surgir do fundo da Terra, “não deixa ninguém estremecendo de expectativa com a performance”.

A indicação de Stallone ao Oscar, por sua atuação como coadjuvante em Creed: Nascido para Lutar – o sétimo filme da franquia Rocky, que deu a ele sua última indicação ao Oscar quatro décadas atrás – o deixou extremamente grato e muito orgulhoso, embora um pouco confuso. “Para alguém considerado uma pessoa retraída e limítrofe, isso é inacreditável”, disse. “Trata-se do auge da minha vida profissional. É um milagre.”

Três semanas e meia antes, ele havia recebido o Globo de Outro por sua performance em Creed, uma vitória que o deixou tão estupefato que ele não conseguiu perceber a aclamação dos que estavam na plateia. Ele também esqueceu, para seu eterno desalento, de agradecer o roteirista e diretor do filme, Ryan Coogle, ou ao protagonista Michael B. Jordan, atitude que recebeu desaprovação de Samuel L. Jackson e de outras pessoas no Twitter.

“Quando Sam Jackson chamou minha atenção, concordei inteiramente”, disse. “Esquecer de agradecer ao diretor? Acredite em mim. Esta é a última coisa que eu teria feito.” Se Coogle e Jordan ficaram ofendidos, ocultaram o sentimento muito bem. “Eu adoro o cara!”, declarou Jordan durante a festa após premiação daquela noite. Coogle e sua noiva se dirigiram para o aeroporto onde, a bordo do avião particular de Stallone, cruzaram o Atlântico para a première de Creed em Londres. “Sly fez com que ríssemos muito durante todo o voo”, recorda Coogle.

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No final daquela semana, a notícias sobre o prêmio ganharam ainda mais destaque com a divulgação dos indicados para os prêmios de atuação do Oscar, todas para atores brancos. O fato de que Stallone ter recebido a única indicação por Creed, um filme escrito e dirigido por um negro e cuja história é basicamente a respeito de personagens negros, apenas aumentou a controvérsia, tornando a alegria de Stallone pelo reconhecimento de seu trabalho uma mistura de alegria e tristeza.

“Este cara aqui mereceu isso ante que eu merecesse, esse é o filho dele”, disse Stallone em referência a Coogle. “Quando ele trouxe Creed à vida, ele me trouxe à vida.” Quando rumores sobre um boicote à cerimônia começaram a circular, Stallone disse que perguntou a Coogle se deveria ou não participar da comemoração. “Eu realmente queria a opinião dele sobre como achava que eu deveria me comportar”, declarou Stallone. “Ele disse: ‘você deve ir, divertir-se e representar o filme’.”

Para esta entrevista, Stallone dirigiu-se ao cinco-estrelas Peninsula Hotel. Sua aparência era impecável e ele estava com sua costumeira expressão facial de algo talhado em granito. Ele conheceu Coogle, a quem descreve como “um completo gênio, um erudito”, três anos e meio atrás, antes da estreia de Fruitvale Station: A Última Parada.

O jovem diretor teve a ideia de fazer Creed quando seu próprio pai, um devoto fã de Rocky ficou gravemente doente (ele se recuperou). Coogle queria contar a história do filho ilegítimo do antigo adversário no boxe e amigo de Rocky, Apollo Creed. Ambientado na Filadélfia dos dias atuais, o filme explora a vibrante cultura negra da cidade pelos olhos de Adonis Creed, que pede a um envelhecido e doente Rocky que o treine.

Embora tenha marcado uma reunião com Stallone, Coogler não acreditou que o lendário ator concordaria com o filme. Então, no caminho para o escritório de Stallone, Coogle passou na Best Buy para comprar um Blu-Ray de Rocky II para que o ator autografasse. O filme é o favorito de seu pai e Coogle acreditava que nunca veria o astro novamente.

Na verdade, Stallone estava completamente hesitante com a ideia, pelo menos no começo, pois estava feliz com os comentários respeitáveis recebidos por aquele que era, na época, o último filme da franquia, Rocky Balboa, de 2006, que ele estrelou e dirigiu. “Uma receita para o desastre”, foi como Stallone encarou um outro filme com Rocky. No entanto, havia uma confiança e uma animação em Coogle que ele reconheceu intrinsecamente. “Ele não foi corrompido, não é limitado pelo sucesso material e está faminto”, disse Stallone. “Ele me lembrava alguns jovens impetuosos que conheci em 1975.”

Um ponto da trama (alerta de spoiler!) de Creed, porém, deteve Stallone. Trata-se do diagnóstico de câncer de Rocky. O ator não gostou disso e achou que o público também não gostaria, mas Coogle não aceitou alterações. Stallone disse que teve uma atitude ambígua em relação ao filme até que sua mulher, Jennifer Flavin, gritou com ele. “Ela disse: ‘você está com medo de fazer algo que nunca fez antes. Isso é chamado covardia’”, declarou Stallone, inclinando-se para trás na cadeira e dando risada. “Ela estava certa.”

Para se preparar para o papel, Stallone contratou, em tempo integral, uma preparadora de atores, Ivana Chubbuck. Segundo ele, suas habilidades em estúdio estavam “basicamente atrofiadas”. Quando a produção teve início, ele ainda estava paralisado pela perda devastadora de seu filho mais velho, Sage, que havia tido um ataque cardíaco fatal no verão de 2012, aos 36 anos.

Ele imaginou que sua dor seria uma zona proibida, mas Chubbuck o forçou a ir fundo. “Você se sente responsável”, dizia ela a respeito da morte de Sage. “Por não estar lá. Aqui, você salva todos os personagens, mas você não pode sequer salvar seu filho.” Uma vez aberta a comporta, afirmou ele, as emoções fluíram, mudando tanto sua performance quanto sua dor. “Ajudou muito”, declarou. “Consigo falar sobre isso agora. Há um certo consolo nisso.”

Ele também encontrou profundo consolo na aclamação que sua performance atraiu do establishment de Hollywood. Irwin Winkler, que produz os filmes de Stallone desde o primeiro Rocky, disse que ver Tom Hanks e Steven Spielberg pulando e aplaudindo o Globo de Ouro que Stallone ganhou foi especialmente gratificante. Olhando para trás, Stallone diz que não tem certeza de quanto respeito merece. Participar de filmes de ação se tornou, para ele, quase que um vício em adrenalina. “Uma prova de resistência que não muda sua alma, de forma alguma.”

As glórias que recebe agora fizeram com que desejasse papéis que envolvessem a demonstração de vulnerabilidade, o que aconteceu com as críticas recebidas por Cidade de Tiras, de 1997 e, obviamente, em Creed. “Agora, pensando friamente, eles estão certos”, disse, a respeito dos críticos de outrora. “Acho que o mundo poderia ter vivido sem Os Mercenários. Eu realmente poderia.” / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

 

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