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"Suite Habana", sem diálogos e comovente

Agencia Estado

19 Agosto 2004 | 16h 26

Dos curtas, o mais interessante foi o brasiliense A Moça Que Dançou depois de Morta, de Ítalo Cajueiro, que transpõe para a tela o cordel de J. Borges, usando as imagens que o artista xilogravou especialmente para a produção. J. Borges, só para você saber quem é, foi comparado pelo The New York Times ao próprio Pablo Picasso. O primeiro concorrente latino demora um pouco para engrenar. Suite Habana, de Fernando Pérez, usa dez personagens para colocar na tela a capital cubana que os turistas não conhecem (e o cinema mostrou). O filme prescinde de diálogos. Tem só imagem e música. No começo, parece que vai ser um Godfrey Reggio cubano. Não é. Pérez fez um belíssimo filme sobre pessoas que você poderia definir como deslocadas, ou que levam existências duplas. Todas fazem uma coisa, mas sonham com outra. Há um menino com síndrome de Dawn. O pai e a avó sonham em fazer dele um homem capaz de enfrentar a vida sozinho. O sujeito que trabalha na lavanderia do hospital faz show de travesti à noite. Um garoto que faz trabalho pesado para sustentar a família à noite é bailarino. Os 30 minutos finais de Suite Habana são coisa de gênio e já fazem parte da história do cinema. Na seqüência, já prejudicado pelo impacto que teve o filme cubano, passou o segundo longa nacional da competição. Araguaya - A Conspiração do Silêncio, de Ronaldo Duque, trata da dura ofensiva que o Exército brasileiro, no auge da ideologia de segurança nacional, desencadeou sobre a guerrilha do Araguaia. Até hoje, restam 58 guerrilheiros desaparecidos. O filme mistura tudo - guerrilheiros inexperientes, militares tão brutais quanto corruptos, padres estrangeiros (no caso, franceses) e uma região onde miséria e ambição coexistem o tempo todo. Para contextualizar, o diretor acrescentou à sua estrutura ficcional depoimentos como o do político José Genuino, que evoca, falando para o público, sua experiência de guerrilheiro. Aliás, num momento em que o PT sofre acusações de dirigismo cultural, essa participação é um tanto inadequada e poderá valer críticas suplementares ao filme de Duque. Há duas lições a tirar de A Conspiração do Silêncio - é mais um filme nacional que, aqui em Gramado, não sabe usar a música (um instante de silêncio, por favor!) e bate na mesma tecla de Olga, de Jayme Monjardim. A esquerda brasileira que pegou em armas foi vítima da própria incompetência - além de inexperiente, acreditava demais em utopias de participação popular que se esboroaram em contato com a realidade. Os dois filmes abusam dos clichês para ganhar os espectadores. Pelo próprio formato de novelão, privilegiando a história de amor, Olga com certeza destina-se a fazer mais sucesso - de público, pelo menos. Mas a Lumière, que distribui Olga, também distribui A Conspiração do Silêncio. Deve tratar os dois com o mesmo cuidado, espera-se.

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