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'Strong Island' discute a partir de um crime a questão do racismo na Justiça dos EUA

Documentário da Netflix é forte candidato ao Oscar deste ano

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

06 Fevereiro 2018 | 19h55

Strong Island, disponível na Netflix, mergulha fundo na cultura racista norte-americana, o suficiente para surgir como forte candidato ao Oscar de documentário. O filme toma forma pelo olhar da diretora Yance Ford, que tenta compreender a morte do seu irmão e, em especial, o fato de que o assassino, conhecido de todos, não foi preso. Nem sequer indiciado.

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Conta muito o fato de que o jovem assassinado aos 24 anos William Ford Jr. era negro e seu assassino, um homem branco. Ainda assim, tudo tem de ser reconstruído pelo olhar da cineasta, que se pergunta, com razão, se os Estados Unidos são mesmo um lugar seguro para um jovem negro. A mesma indagação poderia ser feita por aqui, e com a mesma resposta.

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O fato se deu em 1992 quando William Ford se dirigiu a uma oficina mecânica para pegar seu carro. Houve uma discussão e o mecânico Mark Reilly o fuzilou. Ford estava desarmado. Não houve testemunhas oculares do crime, mas muita gente estava por perto, inclusive amigos de Ford, que dão depoimentos no filme. Falam que, quando a polícia por fim chegou, foram tratados como criminosos, inclusive a vítima. Discretamente, o atirador foi afastado da cena do crime, e dessa forma não foi lavrado flagrante.

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A família esperava reparação quando o caso fosse à Corte. Mas ele nunca chegou lá. O corpo de jurados - todos brancos - decidiu que não havia evidências sequer para levar Mark Reilly a julgamento. Seria apenas um caso simples de legítima defesa diante do classificaram como “medo razoável”. Ouvindo os envolvidos, e gente de sua própria família, Yance procura desmontar o puzzle de um aparato policial e jurídico construído para agir de maneira seletiva de acordo com a cor da pele do indivíduo.

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Strong Island tem seu lado de filme investigativo. Movida pela culpa, Yance Ford tenta apurar o que de fato aconteceu naquele homicídio sem testemunhas oculares. Ela sente que deve isso ao irmão, a quem deveria ter “ajudado mais”, sem que fique claro o que deseja dizer com isso.

Mas o ponto forte é a maneira como, através desse lamentável caso particular, Yance entra na dinâmica de uma sociedade que se deseja modelo de democracia para o mundo, mas não trata seus cidadãos como iguais. Quase 70 anos depois das lutas antirracistas das décadas de 1950 e 1960 do século passado, tantas questões ainda restam pendentes. Martin Luther King foi assassinado em 1968 e, em 1992, a Justiça americana ainda discrimina um crime cometido por um branco ou por um negro.

Yance ainda procura mostrar os efeitos que esse crime não punido provocaram em sua família. Meses depois de William Ford Jr. ter sido fuzilado naquela oficina mecânica, o pai vem a falecer. A mãe dá depoimento pungente sobre os filhos, a luta para criá-los, a ameaça permanente de um mundo violento que, enfim, acabou sendo cumprida. É uma professora aposentada, que se expressa de maneira serena, mas, sente-se, com emoção contida a custo. Morreria também, ao longo da produção do filme.

Pode-se dizer que Strong Island tem como limite excesso de entrevistas - as tais “cabeças falantes” dos documentários sem imaginação visual. Verdade. Se bem que ela tente inserir imagens sugestivas que liberem a imaginação do espectador e o impulsione para o ambiente onde os fatos se deram, Yance lida de maneira permanente com a falta de material visual compatível com os assuntos que deseja discutir.

Ainda assim, apresenta de maneira potente esse caso flagrante de injustiça social. Como este é um dos temas preferenciais da pauta contemporânea, é provável que o documentário surja com força na premiação.

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