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'Spotlight' é tenso e bem-feito: uma lição de imprensa e cinema

Longa reconstrói investigação sobre pedofilia na Igreja

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

07 Janeiro 2016 | 02h30

Nos últimos dias, Spotlight - Segredos Revelados tem somado indicações e prêmios nos EUA. A Associação de Críticos da ‘América’ votou nele como melhor filme do ano e o Sindicato dos Produtores indicou o longa de Tom McCarthy para seu prêmio, que será outorgado em 23 de janeiro. Nos últimos anos, o vencedor do Producer’s Guild tem recebido também o Oscar de melhor filme. O sindicato esnobou Carol, de Todd Haynes, e Star Wars - O Despertar da Força, de J.J. Abrams. Spotlight concorre, entre outros, com O Regresso, de Alejandro González-Iñárritu, e Mad Max - Estrada da Fúria, de George Miller.

Hollywood sempre amou os soldados da notícia. A guerra da informação é, essencialmente, uma batalha democrática. Sem jornalismo investigativo e liberdade de expressão, o autoritarismo amplia seu espaço. Seria longo enumerar os filmes que têm abordado a atividade da imprensa. Precisaríamos, no mínimo, do dobro desse texto. Entre muitos outros filmes que poderiam ser citados destaca-se Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, sobre os dois repórteres do The Washington Post que colocaram o escândalo de Watergate na berlinda e forçaram a renúncia do presidente Richard Nixon, para evitar o impeachment.

Spotlight também se baseia numa história real. Na conservadora Boston, um grupo de jornalistas alocado numa unidade do The Boston Globe levanta informações que resultam em reportagens acuradas. O grupo é reduzido e uma mudança de chefia coloca a equipe em perigo. Investigações tendem a ser demoradas, e caras. O jornal é pequeno e está em crise. E, nesse quadro, ‘Spotlight’, o time dos investigadores, vai investir contra um oponente pesado. A instituição, em questão, não é outra senão a Igreja Católica dos EUA.

Em foco, os abusos de crianças cometidos por representantes do clero. O assunto já esteve - está - em discussão por meio do filme chileno O Clube, de Pablo Larraín. Agora, o que se inicia como caso isolado torna-se plural e ganha um padrão. A Igreja afasta os padres acusados. A desculpa padrão é ‘licença médica’ e alguns deles vão parar em casas como a que se situa na vizinhança do repórter Mark Ruffalo. É uma casa austera, fechada como a de O Clube. As investigações mapeiam vítimas (acusadores) e acusados. Acordos que fornecem compensações financeiras jogam a sujeira para baixo do tapete. Surgem evidências de que o cardeal, maior autoridade da Igreja na região, acobertou as denúncias. Os próprios integrantes do Spotlight surpreendem-se ao descobrir que não levaram muito a sério denúncias preliminares. Agora investigam e descobrem que a força da Igreja cria uma blindagem em torno dela (e do cardeal).

O processo é intimidatório. Testemunhas são desautorizadas e o próprio prelado, num encontro com o novo editor-chefe, crava a sentença - “Uma cidade floresce quando suas grandes instituições trabalham juntas”. A discussão ultrapassa conceitos como fé e ética. O que está em jogo é o poder. O poder da imprensa contra o poder da Igreja. Narrado como suspense policial, e com elenco afiado (Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreider, Mark Ruffalo), o filme pode não ser tudo o que diz a crítica dos EUA, mas o diretor McCarthy não decepciona após o vigoroso O Visitante, de 2007.

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