1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

'Spotlight' é tenso e bem-feito: uma lição de imprensa e cinema

- Atualizado: 07 Janeiro 2016 | 14h 44

Longa reconstrói investigação sobre pedofilia na Igreja

Nos últimos dias, Spotlight - Segredos Revelados tem somado indicações e prêmios nos EUA. A Associação de Críticos da ‘América’ votou nele como melhor filme do ano e o Sindicato dos Produtores indicou o longa de Tom McCarthy para seu prêmio, que será outorgado em 23 de janeiro. Nos últimos anos, o vencedor do Producer’s Guild tem recebido também o Oscar de melhor filme. O sindicato esnobou Carol, de Todd Haynes, e Star Wars - O Despertar da Força, de J.J. Abrams. Spotlight concorre, entre outros, com O Regresso, de Alejandro González-Iñárritu, e Mad Max - Estrada da Fúria, de George Miller.

Hollywood sempre amou os soldados da notícia. A guerra da informação é, essencialmente, uma batalha democrática. Sem jornalismo investigativo e liberdade de expressão, o autoritarismo amplia seu espaço. Seria longo enumerar os filmes que têm abordado a atividade da imprensa. Precisaríamos, no mínimo, do dobro desse texto. Entre muitos outros filmes que poderiam ser citados destaca-se Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula, sobre os dois repórteres do The Washington Post que colocaram o escândalo de Watergate na berlinda e forçaram a renúncia do presidente Richard Nixon, para evitar o impeachment.

Spotlight também se baseia numa história real. Na conservadora Boston, um grupo de jornalistas alocado numa unidade do The Boston Globe levanta informações que resultam em reportagens acuradas. O grupo é reduzido e uma mudança de chefia coloca a equipe em perigo. Investigações tendem a ser demoradas, e caras. O jornal é pequeno e está em crise. E, nesse quadro, ‘Spotlight’, o time dos investigadores, vai investir contra um oponente pesado. A instituição, em questão, não é outra senão a Igreja Católica dos EUA.

Cena do filme 'Spotlight'
Cena do filme 'Spotlight'

Em foco, os abusos de crianças cometidos por representantes do clero. O assunto já esteve - está - em discussão por meio do filme chileno O Clube, de Pablo Larraín. Agora, o que se inicia como caso isolado torna-se plural e ganha um padrão. A Igreja afasta os padres acusados. A desculpa padrão é ‘licença médica’ e alguns deles vão parar em casas como a que se situa na vizinhança do repórter Mark Ruffalo. É uma casa austera, fechada como a de O Clube. As investigações mapeiam vítimas (acusadores) e acusados. Acordos que fornecem compensações financeiras jogam a sujeira para baixo do tapete. Surgem evidências de que o cardeal, maior autoridade da Igreja na região, acobertou as denúncias. Os próprios integrantes do Spotlight surpreendem-se ao descobrir que não levaram muito a sério denúncias preliminares. Agora investigam e descobrem que a força da Igreja cria uma blindagem em torno dela (e do cardeal).

O processo é intimidatório. Testemunhas são desautorizadas e o próprio prelado, num encontro com o novo editor-chefe, crava a sentença - “Uma cidade floresce quando suas grandes instituições trabalham juntas”. A discussão ultrapassa conceitos como fé e ética. O que está em jogo é o poder. O poder da imprensa contra o poder da Igreja. Narrado como suspense policial, e com elenco afiado (Michael Keaton, Rachel McAdams, Liev Schreider, Mark Ruffalo), o filme pode não ser tudo o que diz a crítica dos EUA, mas o diretor McCarthy não decepciona após o vigoroso O Visitante, de 2007.

Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.

Mais em CulturaX