Ricardo Matsukawa/Estadão
Ricardo Matsukawa/Estadão

Sessão Cinetério transforma cemitério em sala de cinema

Mais de mil pessoas fizeram fila na madrugada de domingo para assistir a clássicos do terror brasileiro no Cemitério da Consolação

Flavia Guerra, O Estado de S. Paulo

14 Setembro 2014 | 08h28

Já passava da meia noite e meia quando o primeiro filme da sessão Cinetério estava prestes a terminar. Do lado de dentro do Cemitério da Consolação, pouco mais de 200 pessoas assistiram a As Sete Vampiras (1986, de Ivan Cardoso) enquanto mais de mil pessoas ainda faziam fila do lado de fora para assistir à segunda sessão do evento que transformou um dos cemitérios mais tradicionais da cidade em sala de cinema. "Chegamos às 21h30 aqui, mas achamos que não ia ter tanta gente e fomos dar uma volta. Quando voltamos, a fila estava dando a volta no quarteirão", declarou Ana Lúcia Carjerani, de São Mateus, a primeira da segunda leva de espectadores da noite, que assistiria a Excitação (1977), de Jean Garrett e a Ninfas Diabólicas (1978), de John Doo.

Ana Lúcia, de 48 anos,  saiu de casa na Zona Leste para acompanhar a filha Tatiana Carjerani, de 29 anos, técnica em informática  e "apaixonada por cemitérios", mas acabou gostando do programa. "Minha filha adora cemitérios, já visitou vários. Aqui mesmo, no da Consolação, já fez a visita guiada, que mostra os túmulos dos famosos aqui enterrados. Acho ótima a ideia de passar filmes de terror em um lugar tão especial", declarou ela. "Achei que a sessão ia ser em uma capela. Quando soube que ia ser no corredor, entre os túmulos, achei mais bacana ainda. Cemitérios são lugares muito interessantes e merecem ser mais visitados. Eu adoro este e o da Vila Formosa, que é imenso. Gosto de ver os nomes de quem está enterrado, saber da história...", contou Tatiana. "Perdemos o Sete Vampiras, mas vamos pegar um outro filme bom, que é mais apimentado. O pessoal aqui da fila vai se surpreender porque não são terror pesado, mas sim dos anos 70,  época em que o cinema brasileiro tinha muito sexo", completou Ana Lúcia. 

Ao ouvir mãe e filha empolgadas com o programa, uma dupla de seguranças que controlava a entrada do público no espaço, comentava sobre o sucesso de público. "Eu nunca vi tanta gente para gostar de cemitério. Às quatro da tarde já tinha gente chegando. Se eu ganhar na loteria, vou abrir um cemitério só para passar filmes e ficar mais rica ainda", comentou a segurança. "Eu tinha mandado minha mulher montar um carrinho para vender cachorro-quente aqui na frente hoje, mas ela não quis vir. Ia ter faturado. Tem gente de todo tipo aqui hoje. E eu achando que ia ter só gótico", rebateu o colega. 

Enquanto isso, de volta ao lado de dentro, enquanto o artista e cineasta Toninho do Diabo tirava fotos com os fãs, a primeira sessão da noite terminava e o público era conduzido por monitores até a saída dos fundos da necrópole. O passeio, ainda que rápido, pelas alamedas em meio aos túmulos foi o gran finale de uma noite que promete se repetir mais vezes na Consolação. 

"É fantástico ver que São Paulo, em meio a suas tantas tribos, tem quem adorou nossa ideia. Você vê a alegria com que as pessoas caminhavam ao final do filme por estarem passeando por um cemitério à noite. Isso só nos faz querer por em prática nosso plano de fazer uma iluminação especial para montar trajetos culturais noturnos aqui", informou Lúcia Salles França Pinto, superintendente do Serviço Funerário Municipal, que organizou o evento em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e a Cinemateca Brasileira. 

"Este é um verdadeiro museu a céu aberto, pois tem tanta história e personalidades aqui enterradas. É um espaço de memória e, portanto, de muita vida. É preciso ocupar espaços como este. E é isso que estamos fazendo, com esta sessão, e com as apresentações do Coral Paulistano Mario de Andrade, cujo patrono também foi sepultado aqui", continuou Lúcia. "Queremos desmistificar os cemitérios e integrá-los mais à vida da cidade. Já fizemos um bate-papo com o Zé do Caixão (José Mojica Marins) aqui na Virada Cultural, há as sessões no Cemitério da Vila Nova Cachoeirinha e outras virão. 

O público, que foi super respeitoso, já provou que esta é uma ideia que vale a pena", completou a superintendente, adiantando que ações como a Cinetério trazem atenção para as melhorias necessárias das necrópoles da cidade. "Queremos criar a Associação Amigos da Consolação, para resgatar cada vez mais o local. Brincamos que, assim como o Recoleta em Buenos Aires, este é nosso Consoleta. É preciso reformar o pórtico criado pelo Ramos de Azevedo, melhorar a iluminação... As população quer isso. Sem contar que desmitificar o cemitério, trazendo uma programação de cunho existencial, em que se discuta o medo da morte, o fascínio que estes locais exercem, é muito interessante", completou ela.

Quem concordou com a ideia foi o sepultador e estudante de engenharia elétrica José Hélio, que trabalha no Cemitério da  Nova Cachoeirinha. "Trabalhar com a morte é um aprendizado. Vejo casos que me fazem repensar a vida. Já participei desde o sepultamento de mendigo até o do Plínio de Arruda Sampaio, no Araçá. Esta sessão de hoje tem uma energia especial. Este é o lugar mais democrático que há. Não importa raça, nível social...", comentou José Hélio, que chegou às 22 horas no local e foi um dos primeiros a entrar. "Tem que fazer um Cinetério simultâneo em vários cemitérios porque aí dilui o público e ninguém mais vai ficar de fora", propôs o sepultador. 

Para os que temiam a segurança e a preservação dos túmulos, vale citar que grades e seguranças impediam o acesso aos corredores laterais do local. Salvo os puladores de muro habituais, que também foram impedidos de 'praticar o esporte' pela segurança, o público respeitou as regras e o local. "Isso é tudo que as almas queriam. Os antigos cineastas, os artistas. É uma grande glória. De forma alguma é um desrespeito com os mortos. Isso é uma homenagem. Eu, que venho do mundo dos mortos, estou muito contente. E vejo as almas aplaudindo neste momento", declarou Toninho do Diabo.  

A ideia de José Helio pode servir de inspiração para a diretora de eventos da Secretaria Municipal de Cultura, Karen Cunha. "Esperávamos bastante gente, mas não tanta. As pessoas ficaram até a madrugada. O público tem muita curiosidade de visitar os cemitérios. E isso vai além da morbidez. Muitos também vieram pelos filmes, interessadas na programação. A parceria com o Serviço Funerário foi ótima e hoje mesmo já fechamos novos eventos, como um ciclo de debates, visitas guiadas e outras sessões de cinema", informou Karen.  

A próxima sessão Cinetério deve ocorrer no Cemitério Campo Grande, na Zona Sul, onde está enterrado o corpo do operário Santo Dias, líder da luta operária e morto pela Polícia Militar em frente à fábrica Sylvania, em Santo Amaro, em 30 de outubro de 1979. A história de Santo Dias inspirou o filme Eles Não Usam Black Tie, de Leon Hirzschman, longa que será  exibido na noite.

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