Sem invenções, 'Anos Felizes' consegue cativar o público

No longa do diretor Daniele Luchetti, a turbulenta e revolucionária década de 1970 é retratada pelo olhar de uma única criança

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

02 Junho 2014 | 20h36

Os Anos Felizes, de Daniele Luchetti, talvez não seja - e não é - um grande filme, mas é, no mínimo, bastante agradável e digno de ser visto. Luchetti, autor de Meu Irmão É Filho Único, não é cineasta de grandes invenções formais. Aliás, não inventa nada. Mas revela-se eficiente em suas escolhas dramatúrgicas.

Por exemplo, consegue interessar o espectador (pelo menos este aqui) com a história de um artista problemático, Guido, (Kim Rossi Stuart), que entra em rota de colisão com a própria família (dois filhos e a incrível Micaela Ramazzotti, no papel de Serena), muito em função de suas opções estéticas. Aqui, o espectador pode se perguntar, e com razão, se não existe no filme uma certa idealização extemporânea do artista maldito, aquele capaz de sacrificar os chamados entes queridos em nome da sua arte. Bem, essa ideia romântica, está, de certa forma, presente na história, sob a forma atualizada de Guido, um artista plástico meio conceitual, que vive sua experiência estética à base mais de performances que de obras.

Numa delas, aliás, ele se deixa pintar por uma série de mulheres nuas. Sua própria mulher, inicialmente na plateia, não deixará de surpreendê-lo. Enfim, há peripécias desse tipo, que evocam uma época em que a arte já perdera sua aura (conforme conceito de Walter Benjamin), mas o artista continuava a ser percebido como essa figura um tanto profética da modernidade. Como se tivesse uma mensagem para o presente e para o futuro, mas já não fosse capaz de articulá-la sob a forma de sua arte. Enfim, o estatuto contemporâneo do artista não deixa de ser ambíguo. Portador de uma mensagem talvez fundamental, não deixa de estar num mercado bastante pragmático e, portanto, tem a sua transcendência relativizada pela pressão do comércio.

A história é narrada pelo ponto de vista de um dos filhos e debruça-se sobre a década de 1970, quando as contestações políticas andavam de par com as transformações radicais dos costumes. Assim, os meninos têm de lidar com a separação do casal, as aventuras do pai, a experiência homossexual da mãe, etc.

Poderia se esperar que, do ponto de vista estético, a linguagem cinematográfica acompanhasse essa própria época de ruptura de que trata a história. Mas não é assim. Luchetti prefere tratar uma trama que comporta um ou outro ponto mais subversivo com uma linguagem bastante convencional. Mesmo no andamento da história propriamente dita, não parece que estejamos longe de uma tradicional família italiana.

Em suma, nada é tão radical como poderia ser. E estamos, convém lembrar, numa época de rupturas, tanto na Itália como na maior parte dos países ocidentais e desenvolvidos. As esperanças revolucionárias dos anos 1960 não se cumpriram, mas os avanços, ou alguns deles pelo menos, mostraram-se definitivos. O que se concentrara no campo político, passara para o campo comportamental.

Mesmo assim, em países como a Itália, a pressão política continuava, agora em grupos radicais quanto as Brigadas Vermelhas, por exemplo. A radicalização iria desaguar na tragédia do assassinato de Aldo Moro, de profundas consequências políticas.

Os Anos Felizes, como o nome diz, passa ao largo de tudo isso. Tem um tom leve de autobiografia, com o menino sendo presenteado pelo pai com uma câmera de cinema, prefigurando o futuro diretor. Com tudo que possa ter de problemático, o filme é mais solar que cinzento. E não nos deixa esquecer que aquela época, por convulsiva que pareça, no fundo era bem mais empolgante que a nossa.

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