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Sem alívio, 'A Gangue' é um filme raro, ousado e perturbador

Longa da Ucrânia usa linguagem de sinais para expressar ódio e desejo

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

14 Maio 2015 | 03h00

Filme corajoso está aí. A Gangue coloca em cena apenas personagens surdos-mudos, que se comunicam pela linguagem dos sinais. Logo no início, uma inscrição adverte o espectador: não se ouvirão diálogos, voz over, não haverá legendas ou qualquer coisa do tipo. Aos falantes, o filme se deixará compreender através da ação. 

Ultrapassado certo incômodo inicial, mergulha-se, de cabeça, no microcosmo descrito por Miroslav Slaboshpitsky. Por comodidade, passamos a chamá-lo de Miroslav. Ele mostra a chegada de um jovem portador de deficiência auditiva, Sergey, a um internato especializado. Logo, sofre um “batismo” dos veteranos e descobre que ali dentro opera uma facção nada amistosa – a tal gangue. Eles praticam furtos de todo tipo, roubam, fazem as vezes de cafetões de garotas da instituição e assim por diante. Verdadeira quadrilha, à qual Sergey precisa se adaptar se quiser sobreviver. 

Muito bem filmado, A Gangue é aquele tipo de obra que parte de um pressuposto e vai tirando dele suas consequências até o limite. O ambiente é brutal. Mas, mesmo em ambientes envenenados, é possível que o afeto, o amor e o desejo surjam. É o que acontece. Essa flor no asfalto, para falar como Drummond, será também a perdição de Sergey, e a de outros personagens. Há variáveis incontroláveis em qualquer situação, em especial quando se vive no caos. 

Dito isso, A Gangue, surpreendente estreia em longas de Miroslav, surge como um dos filmes mais perturbadores dos últimos tempos. Ele filma em tela panorâmica e usa muitos planos-sequência (sem cortes). Algumas cenas de sexo e violência são tomadas em tempo real. Sem alívio, refresco ou analgésico para o espectador. Nem por isso nos sentimos manipulados ou vítimas de alguma armação sensacionalista. As coisas são como são e é preciso um pouco de estômago para chegar ao âmago da natureza humana. 

Além do mais, A Gangue passa uma energia formidável durante todo o seu percurso. Os personagens se movem sempre de modo muito rápido. Caminham como se corressem. Por assim dizer, “falam” pelos cotovelos através da linguagem de sinais. O gestual é muito expressivo. Tentamos adivinhar o que dizem. E o que imaginamos não parece muito distante da realidade. São insultos, ameaças, brigas, complôs que se armam. E, quando tudo explode em violência, o significado que havíamos intuído se torna cristalino. 

O filme tem despertado pasmo e admiração mundo afora. Em especial por aqueles que apreciam o cinema “independente”, menos preso às conveniências sociais e à lógica de mercado. Miroslav conduz A Gangue por uma espécie de corda bamba da qual parece sempre preste a desabar. Aborda os temas propostos com toda a ousadia e, por uma vez em nossos tempos mornos, desafia do círculo de ferro imposto pelo pensamento politicamente correto. É difícil deixar de pensar nele depois de o termos assistido. 

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