Globo Filmes
Globo Filmes

Selton Mello evoca Tolstoi em 'O Filme da Minha Vida'

Letra da canção de Charles Aznavour embala e dá sentido ao novo longa do diretor

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 06h03

Partiu do próprio Antonio Skármeta a ideia de que seu romance Um Pai de Cinema virasse filme no Brasil. Um amigo sugeriu o nome de Selton Mello como diretor possível, ou ideal. No centro de todos os filmes de Selton, está o tema da família e a relação pai-filho domina O Filme da Minha Vida. Iniciaram-se as conversações, o projeto se concretizou e estreia nesta quinta, 3, em salas de todo o País. Pode até nem ser o melhor filme de Selton - O Palhaço segue instalado no posto -, mas é o mais bem dirigido. Um filme tão bonito visualmente que, no começo, até incomoda.

Cada plano mais bonito que outro. Paisagens, luzes, brumas. O diretor de fotografia é Walter Carvalho, um mestre do seu ofício. Selton recebe a informação (crítica?) com um sorriso. “Ah, mas era intencional (fazer o filme tão bonito). O Filme da Minha Vida nasceu impregnado por Tolstoi, que dizia que só a beleza (a estética) nos salvará.” Essa estética é invernal - Selton filmou na região serrana do Rio Grande do Sul, em Bento Gonçalves, por ali. “Queria mostrar o belo de uma região pouco filmada”, ele explica. “E o mais incrível é que aquilo é cheio de história. Você coloca a câmera e é capaz de jurar que a própria paisagem se agrega ao filme.”

Um pai ausente, distante. Um filho que se ressente dessa ausência. Vincent Cassel e Johnny Massaro são os intérpretes dos papéis. O guri, em gauchês, é extraordinário como ator. “Cara, eu tinha acabado uma minissérie. Foi acabar no sábado e na segunda já estava metido no filme do Selton. Mas foi uma imersão total. Selton é ator e sabe como colocar a gente no personagem.” Cassel? “É um bicho de cinema”, define o diretor. O enigma do pai. Quem é? Por que...? Entre pai e filho, o personagem de Selton. Como dizer o que é, ou sobre o que é o filme, sem risco de spoiler? Há uma revelação final que muda tudo e dá sentido às coisas. Mas, até lá, é um filme sobre o tempo, que, como diz o ator e diretor, “faz as coisas acontecerem”.

Estranhos são os caminhos da arte. Selton Mello começou a pesquisar na internet músicas para O Filme da Minha Vida. Começou a buscar músicas antigas. Mesmo não entendendo uma palavra de francês, ficou tocado pela melodia de uma canção de Charles Aznavour. Hier Encore. O sentido das palavras - “Hier encore, j’avais vingt ans, je caressais le temps/ J’ai joué de la vie/ Comme on joue de l’amour et je vivais la nuit/ Sans compter sur mes jours qui fuyaient dans le temps”. Traduzindo - “Ainda ontem, eu tinha 20 anos e acariciava o tempo/ Brincava de viver/ Como se brinca de amor e eu vivia à noite/ Sem contar os dias que se esfumaçavam no tempo”.

Ao descobrir do que falava a letra, Selton sentiu a urgência de ter Aznavour em seu filme. Não só as músicas para retratar a época - e ajudar na criação do clima. O próprio cinema. O Filme da Minha Vida tem aquelas cenas que você já viu no trailer. Remetem a um cinema de rua que exibe... Rio Vermelho, o western clássico de Howard Hawks, de 1948, com John Wayne. No começo dos anos 1970, Peter Bogdanovich já usou cenas desse mesmo filme para mostrar uma América mítica, que estava morrendo em A Última Sessão de Cinema. “Queria a cena do John Wayne com Montgomery Clift porque tinha tudo a ver com o clima entre pai e filho do filme.”

Pergunte a Selton sobre o tema de seu filme e ele vai falar da juventude, do tempo. Tudo está lá. Mas o que o fascinou de cara no livro de Antonio Skármeta foi ‘o pai de cinema’. Um pai mítico - “que o Vincent (Cassel) faz lindamente”, explica o diretor. Já o seu personagem... Todo o enigma, se existe um em O Filme da Minha Vida, passa pelo personagem do próprio Selton. Ele o interpreta com sotaque carregado, forçando a composição. Gauchês? “Apesar da paisagem, não fiz o personagem como gaúcho. Mas entendo que ele desconcerte. Faz parte do clima.” Selton gosta de dizer que se tornou diretor para poder contar “as pequenas grandes histórias” que o tocam. Como a desse pai, e desse filho.

Para Selton, a despeito de tudo o que já se falou - um filme sobre o tempo, sobre um pai mítico -, O Filme da Minha Vida é sobre a memória. “E, por isso, eu fiz questão de ter o personagem do (Rolando) Boldrin, como o maquinista do trem. É um guardião dessas lembranças que podem desaparecer. O próprio filme do Hawks entra com esse sentido.” Antonio Skármeta não apenas aceitou que Selton Mello fizesse seu filme como ele próprio faz um papel. É o dono do bordel, aonde Johnny (Massaro) vai perder a virgindade. “Foi uma troca muito grande. Extrapolou o fato de ele ser o autor do livro. Skármeta é um monstro, um grande, imenso escritor que inspirou um dos filmes mais amados que conheço - O Carteiro e o Poeta (de Michael Bradford, com Massimo Troisi). No nosso set, ele disse uma coisa linda e que fez todo o sentido para mim. Disse que o Johnny, no filme, é coadjuvante da própria vida.” 

Além da beleza das imagens (assinadas por Walter Carvalho, um grande diretor de fotografia), o filme beneficia-se do elenco. As mulheres, todas maravilhosas. Bruna Linzmeyer, com aqueles olhos; Bia Arantes e Ondina Clais, a mãe, um assombro. “Vincent (Cassel) é um cara muito doce e um ator especial. Tem ator que você precisa conversar muito para chegar a um entendimento, ou para tentar extrair dele o que deseja. O Vincent entrega naturalmente, sem nenhum estrelismo.” E o Johnny Massaro? “Eu achava que ele poderia fazer o papel, mas o Johnny me surpreendeu. Foi muito além do que eu esperava. Às vezes, me perguntam sobre o diretor que quero ser, ou que espero ser. Só quero ser diretor de gente. Contar essas histórias que me permitem interagir com pessoas tão talentosas, e maravilhosas.”

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.