JOBA MIGLIORIN/DIVULGAÇÃO
JOBA MIGLIORIN/DIVULGAÇÃO

Selton Mello discute função paterna em filme baseado em obra de Antonio Skármeta

CATIPORÃ - Serra gaúcha, paisagem bucólica um tanto atemporal, dia anormalmente quente para a época do ano. Um garoto contempla, com certa ansiedade, um casarão que tem diante de si. Mira-o como se fosse o Graal, a Terra Prometida, a Meca, que inspira tanto desejo quanto temor reverencial. E não deixa de ser isso mesmo. O menino encontra-se diante de um bordel, onde em pouco tempo terá sua primeira experiência sexual.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

26 Maio 2015 | 03h00

A cena faz parte do terceiro longa-metragem dirigido por Selton Mello, chamado de O Filme da Minha Vida. A história é adaptada da novela do escritor chileno Antonio Skármeta, de O Carteiro e o Poeta, que também está no local para participar da produção e não apenas como autor do livro original. Aos 74 anos, Skármeta (leia entrevista abaixo) fará um papel que o delicia, o de proprietário do tal prostíbulo que, por acaso talvez irônico, tem como locação um prédio pertencente ao CTG - os tradicionalistas Centros de Tradições Gaúchas.

Como contou Selton ao Estado, presente ao local da filmagem, o projeto lhe foi proposto pelo próprio autor do livro. “Depois de O Palhaço, eu procurava algo para fazer meu novo longa e um dia toca o telefone e é o próprio Skármeta oferecendo seu livro”, diz. “Claro, no momento pensei que fosse um trote.” Não era, por sorte, e Skármeta deu a Selton toda liberdade para adaptar o livro como bem lhe parecesse. Um presentão, dada a qualidade do texto.

Selton, e seu parceiro habitual de escrita Marcelo Vindicatto (em Feliz Natal, seu primeiro longa, e em O Palhaço, o segundo), provavelmente tiveram de fabular um pouco. Afinal, o livro original, com o título Um Pai de Cinema tem 128 páginas na edição brasileira (Record). Conta uma história tocante. Um rapaz tem lembranças de um pai, francês, que um dia deixou a família para voltar ao seu país. Um dia, encontra esse pai numa cidade vizinha, descobre que este é projecionista do cinema local e que tem um filho pequeno, que...Bem, não convém contar toda a história para não estragar a surpresa de quem ainda não leu o livro (recomenda-se, porque é maravilhoso) e espera pelo filme.

O fato é que Selton e Vindicatto mexeram com essa linha narrativa, trazendo a ação do Chile para o Brasil. A história se passa no ano de 1963. O francês da trama é vivido por Vincent Cassel, ator amigo do Brasil e proprietário de casa no País. Tony (Johnny Massaro, protagonista da série da Globo Amorteamo) está de volta à cidadezinha de Remanso, onde vive sua família. Fica sabendo que o pai voltou para a França. Torna-se professor da escola e mantém uma relação de amizade com seus alunos (e alunas) adolescentes. Entre eles, o personagem daquela nossa primeira cena, Augusto, papel do iniciante João Prates.

Ele participará de mais duas cenas, presenciadas pelo Estado. Na primeira, já está na porta do bordel (este devidamente assinalado por duas lanternas vermelhas, como no filme famoso do chinês Zhang Yimou). Na soleira da porta, vê, através da vidraça, o objeto do seu desejo, a linda Camélia (Martha Nowill). Selton dirige a cena, e quem se responsabiliza pela imagem é o craque da fotografia Walter Carvalho. “Cuidado com o reflexo”, adverte Waltinho. Faz sentido. Filmar uma pessoa através de uma vidraça produz impressão visual interessante, mas corre-se o risco de imprimir na imagem a equipe trabalhando no reflexo - o que entrega o jogo do cinema e vira gafe imperdoável.

De modo que a escolha do ângulo é fundamental. Deve preservar o mistério sem comprometer a magia. Na outra cena, Augusto já está no interior do cabaré e é conduzido pela mão por uma das moças. Enquanto isso, as outras descansam, conversam, riem, fumam. Um empregado varre o chão. É o entreato do bordel. A parte da tarde, modorrenta, sem clientes, propícia a primeiras aventuras de um adolescente com poucos recursos financeiros. O ambiente é banhado por uma luz um tanto irreal. A ideia é essa mesma. Fazer do prostíbulo esse local de sonhos, um tanto felliniano. Aliás, a referência a Fellini é explícita pela presença de uma moça com alguns, digamos, quilinhos a mais, e que evoca algumas das mais queridas figuras eróticas do mestre italiano de Oito e Meio e Amarcord - ou alguém não se lembra da Saraghina ou da cena famosa do garoto com a gorda vendedora da tabacaria?

Na pausa da filmagem, almoço com Selton. Ele diz que ficou encantado com a oferta de Skármeta, em especial porque lhe permitia vislumbrar na história algo que conseguira com O Palhaço, unir qualidade artística a boa comunicação com o público. “Quero seguir a mesma linha. Com O Palhaço conseguimos 1,5 milhão de espectadores sem fazer nenhuma concessão.”

Busca pelo profundo que se vê com clareza

A chegada de Skármeta ao set é uma festa. Bonachão, boa gente mesmo, sorriso sempre aberto, o escritor chileno conquistou a todos. É carinhoso com as pessoas e bem-humorado. Mesmo porque anda numa lua de mel animada e constante com o Brasil. Paixão que começa pela música e se estende ao cinema. Chegou mesmo a escrever as letras de todas as canções para o disco Café Frio, de Killy Freitas, e tem se apresentado com o compositor gaúcho nos shows de divulgação do disco.

Então você está seguindo os passos de Vinicius de Moraes, nosso grande poeta, que começou como escritor e depois se tornou compositor popular...

(Rindo) Essa comparação muito me honra, pois sou grande admirador do Vinicius. Inclusive porque foi um homem que se casou várias vezes...

Nove para fazermos a conta exata. Mas que tipo de música você faz com o Killy Freitas?

Veja, é meio bossa nova, mas é claro que, como compositor gaúcho, ele tem a sua influência dos vizinhos Argentina e Uruguai, com suas milongas e outros ritmos (cantarola uma das músicas em que pôs a letra). Há músicas românticas, mas sempre com um toque de humor. Em Poeta Casamenteiro, homenageamos meu conterrâneo Pablo Neruda. Em Samba de los Muertos homenageamos vários gênios brasileiros como Noel Rosa, Pixinguinha, Elis, e, claro, Vinicius de Moraes. 

E quanto ao seu trabalho como ator, é a primeira vez?

Não. Tenho até uma filmografia interessante (ri). Claro, só de pequenos papéis. E o primeiro deles sabe qual foi? Nem todos sabem, mas o livro O Carteiro e o Poeta, famoso com a direção de Michael Radford e Philipe Noiret e Massimo Troisi nos papéis principais, já havia sido filmado - por mim mesmo. Com o título original do livro, Ardiente Paciencia. Num dia de filmagem, um ator ficou doente e faltou. Era quem interpretava o policial que levava Pablo Neruda preso, veja você. Não havia ninguém para substituí-lo e tive que fazer a minha estreia como ator no papel de um policial que prende um poeta. Veja que azar!

Há autores que são muito ciumentos do seu texto quando eles são adaptados para o cinema. Você sofreu muito com a adaptação deste?

De modo nenhum. Sabe por quê? Porque considero que são duas coisas distintas. Uma é o livro; outra o filme. São duas linguagens diferentes. E, além disso, o Selton Mello e o seu parceiro Marcelo Vindicatto tinham a delicadeza de me enviar cada versão que faziam do roteiro. Pude acompanhar cada etapa do processo. 

Não é fácil tirar um longa-metragem de uma história tão enxuta quanto esta...

Nem tanto. Tem umas cem páginas. E, segundo aquela regra dos roteiristas - uma página, um minuto de filme -, já daria um longa-metragem. 

Nota-se que a escrita é muito depurada. Tem uma simplicidade enganosa, cheia de subentendidos, difícil de ser atingida. 

Tem aquele clichê que acredito verdadeiro: “Escrever é cortar”. Então, eu corto, corto, corto, buscando essa simplicidade que, como você disse, esconde muita coisa. Eu quero atingir isso - uma profundidade, mas que se enxergue com nitidez

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