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'Se Meu Apartamento Falasse', de Billy Wilder, discute relações de sexo e poder nas empresas

Longa passa uma navalha crítica na sociedade onde os fatos se dão

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

14 Janeiro 2018 | 06h00

Numa época em que só se fala em assédio, é até engraçado rever Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder. Para usar um anacronismo, pode-se dizer que o tema de Wilder é esse mesmo - assédio no lugar de trabalho.

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O que se vê são homens em posição de poder de uma grande empresa de seguros seduzindo suas funcionárias. Os poderosos levam para a cama secretárias, datilógrafas, ascensoristas. E, como não devia ser muito fácil encontrar um motel seguro na Nova York daqueles anos, pedem emprestado o apartamento de um funcionário solteiro, C.C. Baxter (Jack Lemmon).

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Ninguém é muito inocente na história. Os executivos, casados todos eles, usam o poder para viver aventuras extraconjugais. As moças querem relações estáveis, mas sabem, no fundo, que dificilmente eles abandonarão suas famílias. Baxter, tornando-se agenciador do próprio apartamento, vê nesse expediente uma forma heterodoxa para subir rápido na hierarquia da firma.

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É o universo de Billy Wilder, diretor singular na indústria. Wilder veio de Viena e, em companhia de outros refugiados da guerra, trouxe aquele toque crítico e de qualidade a Hollywood. Como bom europeu do século 20, tinha poucas ilusões sobre a natureza humana.

De modo que Se Meu Apartamento Falasse, comédia rasgada, depois melodrama e em seguida comédia romântica, passa uma navalha crítica na sociedade onde os fatos se dão. Wilder é claro: o sistema induz que todos se aproveitem de todos. Em especial, que os mais poderosos se sirvam dos mais fracos. Assim, os diretores da empresa aproveitam-se das mulheres e dos serviços de Baxter e seu apartamento oportuno. Mas, como não é inocente, Wilder não vitimiza nem as mulheres nem Baxter. Todos fazem parte do jogo, assimétrico sim, mas que, para funcionar, precisa da adesão de todos os jogadores.

Não se trata porém de uma “comédia negra”, daqueles que se refestelam no fato de que nenhum dos personagens vale nada. Baxter é um aproveitador melancólico e, por isso, charmoso. Não é má pessoa. Pelo contrário - é alguém com quem o público pode se identificar, apesar de algumas atitudes interesseiras e nada dignificantes.

E há Fran, a charmosa ascensorista vivida por Shirley MacLaine. Ela tem um affair com Jeff Sheldrake (Fred MacMurray), o chefão da empresa, naturalmente casado e pai de família. Quando Sheldrake descobre o esquema do apartamento de Baxter, resolve entrar para o clube. E então as coisas começam a não funcionar tão bem no esquema erótico-empresarial em razão da formação desse trio - Baxter, Fran, Sheldrake.

De certa forma, Se Meu Apartamento Falasse dá continuidade a O Pecado Mora ao Lado (1955), em que Wilder aborda o tema da tentação e do adultério. Com a família em férias na praia, um homem (Tom Ewell) vê-se atraído pela estupenda vizinha (Marilyn Monroe). Mas Wilder sabia até onde ir, para levar sua crítica corrosiva dentro dos limites do tolerável para a indústria, o Código Hays e o público. Fez isso em relação a outras instituições da vida americana, como a imprensa, em dois filmes demolidores, A Montanha dos Sete Abutres e Primeira Página.

Em relação a O Pecado Mora ao Lado, Se Meu Apartamento Falasse é menos erótico e mais crítico. No primeiro, Wilder falava da insegurança de uma pessoa isolada, apenas um marido sem sal vislumbrando uma aventura como a bombshell Marilyn. Mas em Se Meu Apartamento Falasse é toda a corrupção das relações de poder entre sexos na empresa que se vê exposta. Dos chefes aproveitadores (“assediadores”, diríamos hoje) às festinhas cafajestes de fim de ano, está tudo lá para quem quiser enxergar.

O toque romântico em algumas passagens e, em especial, no desfecho, não deve iludir ninguém. É uma formatação palatável, na qual Wilder empacota sua dissecação radical do sistema e sua visão realista da vida. Um frasco bonito no qual está contido um veneno mortal.

Tudo isso num formato cinematográfico de primeira, em preto e branco, com grandes atuações de Lemmon, Shirley MacLaine e de todo o elenco secundário, a começar por MacMurray, notável no papel do patife que não se percebe como tal. O roteiro do próprio Wilder e I.A.L. Diamond é pura ourivesaria. A estrutura é sólida e contém frases notáveis, como aquela de MacLaine: “Mulheres que saem com homens casados não devem usar rímel”.

Todo esse conjunto de excepcionalidades produziu uma penca de prêmios no Oscar: melhor filme, direção, roteiro, direção de arte e edição. Shirley MacLaine foi indicada, mas não ganhou. Em compensação, levou a Copa Volpi de melhor atriz no Festival de Veneza.

Se Meu Apartamento Falasse é cinema adulto, popular, crítico, sem vítimas ou vilões absolutos. Estranho, não? 

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