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Rodrigo Teixeira produz 'A Bruxa', que lida com medos ancestrais do público

Filme fez sucesso em Sundance e na Mostra Internacional de Cinema

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

03 Março 2016 | 20h39

Algo estranho se passa no sítio retirado onde mora a família de William. Ele é um daqueles puritanos colonizadores da América, na fase anterior à independência. William é tão rigoroso que é expulso da cidade. Com a mulher e os filhos, instala-se à beira de uma floresta. O garoto é curioso, como toda criança. A garota está em plena puberdade, o que significa que seu corpo está mudando. Thomasin é seu nome. Transpira sensualidade e a família percebe isso. Pai e mãe preocupam-se. Como devotos, acreditam em Deus – e no Diabo. A decalagem entre o que as pessoas gostariam de ser e o que são desencadeia o motor trágico da narrativa de A Bruxa.

O filme de Robert Eggers foi exibido com sucesso no Sundance, em janeiro de 2015. No fim do ano, integrou a programação da Mostra. O filme é uma produção do brasileiro Rodrigo Teixeira. Na Mostra, virou cult, estourou nas redes sociais, alavancado pelo público jovem. O produtor foi quem fez a apresentação. Disse que o diretor quis criar um pesadelo do passado, com ecos no presente. A história passa-se no século 17. Tão grande foi a preocupação de Eggers com a verossimilhança que os diálogos foram escritos com base em documentos da época e as próprias roupas, os móveis, tudo foi feito de forma tosca, para se assemelhar, no máximo possível, ao que seria o visual autêntico.

Pai e mãe têm um bebê. Thomasin cuida da criança. Ela percebe um movimento estranho na floresta, e a forma como Eggers filma reforça seu estranhamento. Afinal, o que está ocorrendo? O bebê desaparece. Há um bode preto, Black Phillip, que fala e mete medo. Tudo isso é real ou projeção de medos ancestrais? O pai desconfia que Thomasin virou bruxa. É conhecido o episódio das bruxas de Salem, garotas de uma comunidade parecida com a de A Bruxa. Acusadas de bruxaria, foram sentenciadas.

As bruxas de Salem viraram peça, filme. Há 60 e tantos anos, a história virou metáfora do macarthismo. O medo coletivo (do comunismo) gerou uma onda de paranoia. Suspeitos de antiamericanismo tinham de ser excluídos. Não é o caso de A Bruxa. Eggers faz cinema de gênero, mas não exatamente A Bruxa de Blair. O filme mexe com medos ocultos do público. Thomasin é bruxa? O bode é o demo? Nada é o que parece ser e o tratamento sonoro desestabiliza ainda mais o público. Depois, você vai se perguntar – o que significa tudo isso? Durante, vai sentir medo. O pesadelo do passado de Eggers funciona. Assustou até um especialista como Stephen King, que virou tiete de Robert Eggers.

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