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Roberto Faria quer filmar thriller sobre Ângela Diniz

Agencia Estado

28 Junho 2001 | 18h 11

O cineasta (e diretor de televisão) Roberto Faria está se preparando para voltar à tela grande. Se tudo acontecer dentro do prazo, daqui a um ano, com o apoio de patrocinadores, ele estará filmando Quem Ama não Mata, thriller contando a vida, a morte e o julgamento de Ângela Diniz a Pantera de Minas, socialite onipresente nas colunas sociais dos início dos anos 70, que foi assassinada pelo namorado, o corretor de imóveis Doca Street, em Búzios, às vésperas do réveillon de 1976. Sem filmar há 14 anos, seus dois últimos filmes foram sucessos de crítica e público, Os Trapalhões e o Auto da Compadecida, em 1987, e Pra Frente Brasil, em 1985 um policial sobre os porões da ditadura militar. O filme será também a estréia no cinema da atriz Débora Secco, estrela da Rede Globo que acaba de estrear como heroína romântica na novela A Padroeira, depois de viver a vilã Íris em Laços de Família. O roteiro é do veterano José Louzeiro, repórter da revista Manchete na época do crime que cobriu todo o caso e escreveu sucessos da tela grande, como Pixote, de Hector Babenco, mas nunca havia trabalhado com Faria. E é também a estréia em longa-metragem dos produtores Roberto Mendes e Zeca Zimmerman, dois mineiros que estão envolvidos com distribuição e produção de cinema desde os anos 70. A idéia do filme é dos dois, que ganharam um certificado da Lei do Audiovisual para captar R$ 2,8 milhões. "Queríamos falar sobre mulheres que estiveram à frente de seu tempo", contam. "Nesse crime, sabe-se quem matou e quem morreu, mas ninguém conhece os fatos que levaram ao desfecho - é isso que queremos contar", adianta Mendes, que pretende filmar em Búzios, Rio, Belo Horizonte e Juiz de Fora, cidades onde Ângela viveu sua curta vida. "Vamos contar de sua adolescência, menina de classe média em Belo Horizonte, até a condenação de Doca Street, em segundo julgamento, já nos anos 80", completa Zimmerman. "A ditadura é o pano de fundo desses acontecimentos que mudaram o encaminhamento que a Justiça brasileira dava aos crimes passionais." Desinibida - Ângela Diniz viveu e morreu precocemente. Aos 15 anos, em 1959, deslumbrante e desinibida, debutava em Belo Horizonte e, logo depois, se casava com Roberto Vilasboas, da tradicional família mineira. Aos 21, já separada, deixou os dois filhos com o ex-marido e veio para o Rio, onde freqüentou festas e se expôs na mídia, como é corriqueiro hoje entre moças ambiciosas e bonitas, mas chocou na época. O colunista social Ibrahim Sued abriu-lhe as portas das famílias tradicionais (e ricas) do Rio e São Paulo, onde conheceu Doca Street, então casado com Adelita Scarpa. A paixão foi fulminante e durou pouco até ele assassiná-la na casa dela, Búzios, no dia 30 de dezembro. Ao morrer, ela tinha 32 anos. Os motivos são nebulosos até hoje. Crime passional e envolvimento com drogas (ela havia, anteriormente, se declarado viciada em cocaína) foram as hipóteses levantadas. "O filme terá três partes: a adolescência em Minas e sua vinda para o Rio; o crime e os dois julgamentos de Doca Street, o primeiro em que ele praticamente foi absolvido e o segundo em que foi condenado a mais de dez anos de prisão", adianta Roberto Mendes. Roberto Faria ainda não sabe como ordenará os fatos, mas pretende dar seu toque pessoal no roteiro de José Louzeiro. "Um diretor sempre mexe na história porque, senão, seria como estrear um terno sem experimentá-lo", diz. "Não tomamos partido, mas até o título deixa claro que somos contra o assassinato por qualquer motivo. Em qualquer circunstância, é inconcebível que a sociedade organizada permita que uma pessoa mate outra." Tribunal - A parte do julgamento será novidade no cinema nacional. Enquanto os júris são assunto constante do cinema americano, o Brasil pouco explora esse cenário. E o caso Doca Street foi uma guerra de estrelas, já que o advogado Evandro Lins e Silva, hoje decano da profissão aos 89 anos, defendia o réu, que era acusado por Evaristo de Moraes, seu ex-aluno e experiente criminalista. Até então, os dois haviam estado do mesmo lado, atuando em favor de presos políticos. A tese adotada por Lins e Silva, legítima defesa da honra, revoltou as feministas da época que inundaram o País com cartazes e pichações da frase que virou título do filme. No segundo julgamento, em que Moraes não atuou e Lins e Silva foi substituído por Humberto Telles, a pressão das feministas e um início de abertura política determinaram a condenação de Doca Street.. "Toda a história está contada no meu livro A Defesa Tem a Palavra. Hoje eu o defenderia do mesmo jeito, porque o passional age num impulso e nunca reincide. Mas usaria outra tese, porque a sociedade muda e os jurados são influenciados pela realidade em que vivem", ensina Lins e Silva. Ele acha que a história dá um ótimo filme, especialmente se dirigido por Roberto Faria, cuja carreira conhece desde o Assalto ao Trem Pagador, no fim dos anos 50. "Crimes passionais sempre dão boa ficção. Há muitos anos, em Recife, fiz uma defesa de Hamlet, com Sérgio Brito vivendo o personagem de Shakespeare, e consegui sua absolvição." Galãs - Por enquanto, Débora Secco é o único nome definido no elenco, mas já se fala em Alexandre Borges, Edson Celulari ou outro galã como ele para viver Doca Street. O contraponto seria um ator na faixa dos 40 anos para ser Ibrahim Sued. Instigado, Evandro Lins e Silva sugere o ator que poderia vivê-lo nas cenas de júri. "Antônio Fagundes? Sei lá, estou pensando alto porque quase não vejo televisão e, ultimamente, nem muito teatro", corrige-se. "Pensei nele por ser um homem de meia-idade, grande ator, mas o diretor certamente saberá escolher melhor que eu."

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