'Riocorrente' flagra contradições urbanas num tom energizado

Esta é a primeira ficção do diretor Paulo Sacramento

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2014 | 02h00

Na canção Sampa, Caetano Veloso explicava o sentimento negativo em relação a São Paulo, quando por aqui morava: "É que Narciso acha feio o que não é espelho". O diagnóstico talvez se aplique, tantos anos depois, a Riocorrente, poderoso primeiro filme de ficção de Paulo Sacramento, mas que impressiona mais os paulistanos do que os que não têm a experiência (radical) de morar em São Paulo.

Pelo menos foi a impressão deixada no Festival de Brasília do ano passado, onde o filme concorreu e deveria ter vencido. Mas não venceu. Talvez tenha sido vítima da mesma radicalidade que, no fundo, é sua virtude maior. Riocorrente recolhe, num tom brutalmente energizado, as tensões e contradições do gigantesco aglomerado humano - que, de certa forma, é o paradigma do modelo de crescimento urbano adotado pelo País.

Em sua linha narrativa, o faz num quadro de distopia no qual se esboça um triângulo amoroso. Renata (Simone Iliescu) divide-se entre dois personagens masculinos, o jornalista Marcelo (Roberto Audio) e um ex-ladrão de automóveis, Carlos (Lee Taylor). Um outro personagem assimétrico se inclui no triângulo, o garoto de rua chamado Exu (Vinícius dos Anjos), informalmente adotado por Carlos.

Além disso, o filme é "invadido" por inserções documentais, como, por exemplo, imagens do incêndio do Edifício Joelma e um longo depoimento do artista plástico Marcelo Grassmann sobre a estética e a vida.

Um personagem carrega um coquetel molotov nas mãos e provoca um incêndio. Jornais são roídos por ratos. Tudo isso faz de Riocorrente uma dessas figuras ambíguas em que frente e fundo se confundem. Será um triângulo amoroso invadido por cenas documentais ou um documentário sequestrado por uma trama amorosa?

Se não ligarmos tanto para classificações de gênero, podemos admitir que Riocorrente seja as duas coisas. E, em especial, uma terceira, uma espécie híbrida, esteticamente arrojada, e que se projeta numa linha diagnóstica da sociedade brasileira contemporânea com a mesma força de O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho.

Diria que Riocorrente é, para São Paulo, o que O Som ao Redor é para o Recife. Filmes urbanos, registram o caos que (des)governa essas cidades, mas o fazem com o olhar voltado para o País em sua totalidade. Nesse sentido, são filmes destoantes. Num momento em que o cinema brasileiro se debruça sobre o pequeno, sem grandes ambições, estes filmes se voltam para a grande tradição do cinema brasileiro.

 

Recife e São Paulo são cidades sínteses. Com seu crescimento desordenado, com a absoluta falta de planejamento, e liberdade total para a predação, vão deixando de existir enquanto formas de convivência em escala humana. São balcões de negócios, vias de passagem do capital, mas não existem mais como espaços republicanos de convivência.

Nesse sentido, num caso como no outro, os personagens encenam em seus corpos, como num teatro, essa voracidade sem-fim nem propósito, esse desejo jamais apaziguado, essa pulsão que, nunca satisfeita, encontra na violência seu único canal de desafogo.

O que está acontecendo no Brasil, essa incapacidade de paz e prazer, essa vocação súbita e surpreendente para o desafeto, se expressa de forma metafórica em Riocorrente. É o filme da hora.

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