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'Riocorrente' é o retrato de uma cidade que pulsa

Flavia Guerra - O Estado de S.Paulo

05 Junho 2014 | 21h 15

Diretor Paulo Sacramento fala sobre seu primeiro longa de ficção

Um filme para ser mais sentido e menos entendido. Assim o diretor Paulo Sacramento fala de seu primeiro longa de ficção. De fato, Riocorrente traz, em seu roteiro bem construído, uma força primitiva que provoca o espectador.

"É muito conservador e rígido isso do ‘entendimento’. As pessoas hoje em dia querem que seja dada uma solução, uma moral. Riocorrente não tem isso. O que eu quero é que as pessoas se deparem com o sentimento que já é delas. Não jogamos nada de novo. É um pouco um espelho do que já existe. Assim como o rio no filme é um espelho da situação que a história mostra", declara Sacramento, que dirigiu em 2003 o contundente documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro, em que prisioneiros do Carandiru registram seu cotidiano.

Apesar de ficção, Riocorrente faz um retrato agudo do cotidiano e da alma dura, mas terna, de São Paulo. Para isso, mescla cenas de apurada observação do cotidiano com o drama de três moradores da capital paulista.

O primeiro é Carlos, um ex-ladrão de carros vivido pelo ator Lee Taylor; o segundo é jornalista especializado em cultura Marcelo (Roberto Audio); e a terceira, Renata (Simone Iliescu), uma jovem que mantém um relacionamento com os dois e provoca ações e sensações no dia a dia quase mecânico em que vivem. Para completar, há o garoto Exu (Vinicius dos Anjos), que foi adotado, ainda que informalmente, por Carlos. "Há a angústia de quem vive nas grandes, e desordenadas, metrópoles nestes personagens. O Carlos é truculento, mas não assimila muito bem o que acontece com ele. Não tem uma compreensão muito clara do vazio existencial em que vive", comenta o ator Lee Taylor.

Divulgação
Carlos. Na pele do ator Lee Taylor, ex-ladrão de carros que não entende o vazio em que vive

É este vazio existencial, a raiva e a tensão que correm nas veias dos milhões de moradores de uma metrópole que pulsa, mas que nem sempre flui, que Sacramento retrata. "Todo mundo reconhece Riocorrente como um filme muito paulista, mas as grandes cidades estão em um momento tenso. Neste ano, tudo está mais extremo. Não antecipamos nada. Tudo está acontecendo ao mesmo tempo. Nossa sensação é a mesma das pessoas na rua. Talvez seja só retrato de uma época", diz Sacramento.

Ao mesmo tempo em que é realista, a construção das cenas do longa é meticulosa. "Há uma busca estética. Não é o mero registro. Há a sensação de que se a gente vai fazer algo documental, a câmera tem de ser na mão e tremida. Pelo contrário. Neste longa há até uma rigidez dos enquadramentos. Esta secura, o rigor da narrativa, é muito mais forte para a trama do que o exagero documental”, explica o diretor. "Nós queríamos documentar a realidade, mas como documentar a angústia, o sentimento?"

 

É ao construir a atmosfera tensa, como na cena em que o Rio Tietê se incendeia, que Riocorrente documenta o indocumentável. 

Não por acaso, o filme levou os prêmios de melhor fotografia (último trabalho de Aloysio Raulino, morto em 2013) e montagem no Festival de Brasília 2013. “É um caminhar de mãos dadas com o espectador, com o personagem do menino Exu, que talvez seja o único que faz a trajetória deste filme. O espectador descobre com o Exu, cujo orixá simboliza o mensageiro, o que acontece na história."

É desta e de outras simbologias que se constrói a narrativa do longa. "Símbolos são naturais em uma cidade que pulsa. As pessoas andam desacostumadas da simbologia. Mas é preciso senti-la. A gente tem que viajar mais nos filmes, embarcar com o diretor. É assim que eu gosto de ver filmes. É assim que tentei fazer em Riocorrente."