'Rio, Eu Te Amo' traz dez histórias que criam unidade

Filme junta episódios de diretores como José Padilha, Guillermo Arriaga, Paolo Sorrentino e Nadine Labaki; estreia é nesta quinta-feira, 11

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 Setembro 2014 | 09h55

Terceiro filme da franquia Cities of Love - após Paris e Nova York -, Rio, Eu Te Amo começou a nascer no Festival de Cannes de 2006, a partir de conversas de produtores brasileiros (da Conspiração Filmes) com o detentor dos direitos, Emmanuel Benbihy. Distribuído pela Warner, o longa estreia quinta, 11, em 220 salas de todo o Brasil. Houve investimento pesado nas mídias sociais, mas o filme terá de vencer a velha rixa entre paulistas e cariocas para faturar o esperado. Sérgio Só Leitão, da RioFilme, tem grande expectativa pelo resultado econômico. "Além de promover a cidade, o filme também é um investimento alto."

Rio, Eu Te Amo destaca-se dos demais títulos já realizados da franquia - o próximo será Xangai - porque, pela primeira vez, a ligação dos episódios, realizada por Vicente Amorim, visa criar uma unidade, como se fosse um só filme, e não dez histórias criadas por diferentes diretores. Há uma personagem, interpretada por Cláudia Abreu, que só aparece nas ligações. É quem está mais tempo em cena, mas na coletiva realizada no complexo Lagoon, na Lagoa, no Rio, justamente Cláudia não estava presente. O ritmo das gravações da novela Geração Brasil só a deixaria liberada à noite, para o tapete vermelho. "Embora com interrupções, entrre um episódio e outro, a produção e realização nos tomou sete meses, com um investimento de US$ 20 milhões. Foi preciso uma logística muito grande para trazer ao Rio os diretores de todo o mundo e, em alguns casos, os elencos que eles queriam. Para a Conspira, foi um grande aprendizado", avalia Pedro Buarque de Hollanda, um dos produtores.

Há dois meses, criou-se um caso e a arquidiocese do Rio chegou a iniciar um movimento contra o filme, por conta do episódio de José Padilha, Inútil Paisagem. Lançando-se de asa delta, o personagem de Wagner Moura tem um monólogo com o Cristo Redentor que foi considerado ofensivo pela Igreja. Resumindo, ele diz que é fácil para o filho de Deus ficar de braços abertos sobre a cidade, mas lá no alto, distante de todos os problemas. "O filme não é religioso e felizmente a Igreja percebeu isso, retirando seu veto. Corremos muito para incluir a história do Padilha, mas o filme está completo."

Outro produtor da Conspiração, Leo Barros, disse que a cidade é tão mítica que havia mais diretores interessados em contar histórias que refletissem diferentes olhares. "Tínhamos a opção de, eventualmente, não usar todos os episódios, mas eles estão todos na tela, costurados pelo Vicente (Amorim), que fez um trabalho muito bonito, construindo o filme unitário que queríamos. O amor é o nosso tema." O amor, sim, mas os diretores, que tiveram liberdade criativa - respeitados os prazos e orçamentos: dois dias de filmagem, uma semana de edição -, trouxeram diferentes olhares. A história do mexicano Guillermo Arriaga tem aputação, proposta indecente (nos moldes do filme famoso com Robert Redford e Demi Moore) e lutas ilegais. O de Paolo Sorrentino (de A Grande Beleza) elabora um assassinato como se fosse morte acidental.

Arriaga, com a libanesa Nadine Labaki, foi um dos diretores internacionais presentes às coletivas. Ele contou que sempre quis filmar no Brasil, e no Rio. Seu episódio quase não tem diálogos. "Trabalhei bastante com os atores, Land Vieira e Laura Neiva, para que eles falassem com os olhos." A história do lutador que perde um braço e luta para pagar a cirurgia da mulher tem um pé na realidade. "Quando era garoto, havia na minha vizinhança um jogador de futebol que todo mundo dizia que seria grande, mas ele sofreu um acidente de carro, teve de amputar parte da perna e a carreira acabou. A história sempre me impressionou muito." Nadine Labaki que, além de talentosa, é a mais bela diretora do mundo, conseguiu, de cara, o que parecia impossível - a participação de Harvey Keitel, que contracena com ela.

Os dois fazem atores que participam de um filme sobre religião e futebol. Na trama, ambos conhecem esse menino de rua que não se afasta do orelhão porque espera um telefonema de Jesus. Nadine filmou na estação Leopoldina e tudo - a estação, o menino, o telefonema ao invés da carta - lembra Central do Brasil, de Walter Salles. "Gosto muito do filme de Walter, mas foi só ao chegar ao set que me dei conta das implicações", ela diz. O episódio de Nadine é encantador, o melhor de Rio, Eu Te Amo. "Queria falar de religião, da cultura da favela e do futebol", ela conta. Cauã Antunes, que rouba a cena (de Harvey Keitel!), é um menino de 6 anos. "Fizemos um casting intenso, mas ele foi o primeiro que encontrei. Ele era exatamente o que queria, mas segui testando os outros garotos. Cauã não consegue ficar parado, foi muito difícil filmar com ele, mas valeu a pena."

Andrucha Waddington inspirou-se num personagem real do Leblon para escrever sua história - especialmente para a sogra, Fernanda Montenegro. Ela faz uma moradora de rua que, nesse dia, reencontra o neto. Aliás, o neto a localiza e segue pela cidade. Na realidade, o sem-teto do Leblon abandonou a família e uma situação confortável para morar na rua. Como era muito querido no bairro, todo mundo lhe dava apoio e ele viveu por muitos anos. Ao neto, Fernanda conta que encheu o saco - de família, sociedade - e foi ser feliz dormindo na lateral do prédio da Assembleia Legislativa, no centro do Rio. Pedro, filho de Andrucha e Fernanda Torres, fez uma extensa pesquisa com sem-teto que serviu de base para a avó (e o roteiro). Fernanda, como Laura Neiva, mostra que bastam histórias de 8 minutos para dar vida a personagens intensos. Mas seu neto, Eduardo Sterblitz, conhecido como humorista, também é ótimo. "Fiquei na minha, sem tentar aparecer. Meu papel era dar o passe para que Fernanda fizesse o gol."

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