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Retrato unilateral mas encantador de 'Walesa'

Luiz Zanin Oricchio - O Estado de S.Paulo

12 Junho 2014 | 19h 43

Andrzej Wajda mostra trajetória do líder do Sindicato Solidariedade

O veterano Andrezej Wajda dá à sua cinebiografia de Lech Walesa o tom de uma hagiografia. Uma santificação deste que, de fato, foi um dos grandes personagens do desfecho do século 20. Walesa, líder do sindicato Solidariedade, comandou a resistência ao stalinismo na Polônia, derrotou-o, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, foi eleito presidente e comandou o país em sua primeira fase pós-comunista. Não fez tudo sozinho, é claro. Mas sua atuação foi vital no processo.

Para contar a história do líder, Walesa serve-se de um expediente jornalístico: a entrevista que ele concede à jornalista italiana Oriana Fallacci. Oriana (1930-2006) era também uma personalidade em sua área, que hoje chamaríamos de "jornalista-celebridade", aquele que não apenas busca notícias mas é, ele próprio, a notícia. Oriana era famosa por suas entrevistas com homens poderosos e chefes de Estado plenipotenciários - entrevistou Muamar Khadafi, por exemplo. No filme, o encontro entre Walesa e Oriana (interpretada por Maria Rosario Omaggio) parece uma bela briga de personalidades fortes.

Logo no primeiro encontro, Walesa (vivido por Robert Wieckiewicz) acusa a repórter de autoritária, pelas perguntas agressivas. Depois indaga se ela o achava presunçoso. "Não, por que acharia isso?", responde Oriana, ela própria dona de ego tamanho-família e que por isso não estranha a empáfia dos seus entrevistados.

Divulgação
Walesa. Líder sem apelos demagógicos

Com esse dispositivo montado, Wajda vai contando a história com a desenvoltura que lhe é peculiar. E, hagiográfico ou não, o retrato de Walesa é encantador. Até por pequenos detalhes, que expressam o sentimento trágico da vida. Na primeira vez em que é detido, Walesa deixa o relógio e o anel em cima da mesa e diz à mulher: "Se eu não voltar, venda-os para comprar comida". O ritual se repetirá a cada vez que a polícia política for buscá-lo. Mesmo quando, já internacionalmente conhecido, a possibilidade de “não voltar" sendo mínima, o anel e o relógio ficarão sempre sobre a mesa, a cada nova prisão.

Walesa é pintado como líder nato de massas, capaz de comover os trabalhadores sem qualquer sentimentalismo ou apelo demagógico. Falava a verdade. Convencia. Era também anti-intelectual. Gabava-se de jamais ter lido um livro. Quando termina a última sessão de entrevistas com Oriana, lhe pede que, caso ela escreva um livro sobre aquela série de encontros, que lhe seja enviado. "Vai ser o primeiro que vou ler da primeira à última página."

Um pouco de contradição tornaria essa figura ainda mais fascinante. Mas Wajda prefere pintá-la de modo unilateral, sem qualquer mácula. Mesmo assim, vale.

WALESA

Título original: Walesa. Czlowiek z Nadziei. Direção: Andrzej Wajda. Gênero: Drama (Polônia/2013, 127 min.).Classificação: 12 anos.