Giles Keyte
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Refilmado após denúncias contra Kevin Spacey, 'Todo Dinheiro do Mundo' chega aos cinemas

Christopher Plummer faz o papel do milionário que se recusa a pagar o resgate do neto sequestrado

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Fevereiro 2018 | 06h00

Tem havido má vontade da crítica em relação a Todo o Dinheiro do Mundo, que estreia nesta quinta, 1º. Recapitulando – Kevin Spacey é quem fazia o papel de Jean Paul Getty, o homem mais rico nos anos 1970, quando se passam os eventos narrados por Ridley Scott.

John Paul Getty III, neto do bilionário, foi sequestrado na Itália, quando tinha apenas 16 anos, e o avô recusou-se a pagar o resgate, alegando que tinha mais de uma dezena de netos e isso os colocaria a todos em risco. Paul neto teve a orelha decepada pelos sequestradores para pressionar a família, Jean Paul Getty foi execrado como monstro, etc., etc.

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Seria muito interessante ver como Spacey criaria o personagem. Cínicos e vilões costuma(va)m ser os personagens emblemáticos desse ator, que ganhou duas vezes o Oscar – coadjuvante, por Os Suspeitos; protagonista, por Beleza Americana – e um monte de Tonys, Globos de Ouro, Emmys e SAG Awards, a maioria por sua participação na série House of Cards. As denúncias de assédio que derrubaram o produtor Harvey Weinstein repercutiram em Spacey, e ele foi exposto por assediar colegas atores, incluindo um menor de idade. Spacey foi banido de House of Cards, uma série de projetos em andamento (com ele) foram cancelados. Mas havia o problema de Todo o Dinheiro do Mundo, que já estava filmado e com data de estreia marcada.

Ridley Scott refilmou todas as cenas de Spacey e, como ele contracena muito com Mark Wahlberg e Michelle Williams, que vive Gail, a mãe de John Paul, boa parte da produção teve de ser refeita com a participação de ambos. Para marcar bem o repúdio atual, o longa teve outras indicações no Globo de Ouro – melhor atriz de drama para Michelle –, mas no Oscar cravou apenas uma, e foi melhor coadjuvante para Christopher Plummer, que provavelmente não vai ganhar, se prevalecer a tendência de premiar Sam Rockwell, por Três Anúncios para Um Crime (ele ganhou no SAG Award e no Globo de Ouro). 

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Scott já foi chamado de oportunista, marqueteiro, por sua correção política. Mas talvez fosse bom tentar olhar o filme com menos preconceito.

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Pois Todo o Dinheiro do Mundo diz algumas coisas sobre a acumulação capitalista. E a especulação – para que serve toda essa fortuna, se não for para gastar? O filme também subverte dois estereótipos, a mater dolorosa e o ricaço monstruoso. São coisas que merecem atenção.

Que mistério foi esse que fez com que, apenas um mês e meio antes da estreia anunciada de Todo o Dinheiro do Mundo, Ridley Scott e o estúdio decidissem trocar o ator – Kevin Spacey – e conseguiram? Foi uma corrida contra o tempo, sob múltiplos aspectos. Com certeza, não deve ter sido fácil, menos por respeito a Spacey – por melhor e mais brilhante ator que seja, ninguém na comunidade cinematográfica veio acudi-lo no seu tormento –, mas porque, a persistir com ele, o filme estaria condenado a uma terra de ninguém.

Sem dúvida é motivo de curiosidade como Spacey, notório por seus vilões (Seven – Os Sete Pecados Capitais) e personagens cínicos (House of Cards) faria o papel do homem mais rico do mundo, que se recusou a pagar o resgate do próprio neto? Jamais saberemos – a menos que daqui a alguns anos alguém resgate a versão maldita do filme com o astro de House of Cards. O que se tem é a versão com Christopher Plummer, indicado para o Oscar de coadjuvante.

É ótimo no papel, não propriamente frio. Um monstro? Uma outra coisa. Todo o Dinheiro começa em preto e branco, com o jovem John Paul Getty III caminhando por um cenário de jet set em Roma. La Dolce Vida – homenagem a Federico Fellini? A cena é requintadíssima, o ano, 1973. Entra a cor, ‘Paolo’, como ele se refere a si mesmo, encontra as prostitutas, e quando uma lhe diz que lugar de criança é em casa, ele responde que sabe cuidar de si. Mas, na verdade, não sabe. É sequestrado, e os sequestradores exigem dinheiro, que o avô não quer pagar.

QUEM É?

Jean Paul Getty nasceu em Minneapolis, em 1892, filho de família dedicada à indústria petrolífera. Conseguiu o seu primeiro milhão de dólares em 1916, com a sua primeira empresa petrolífera em Tulsa. No ano seguinte, anunciou a sua mudança para Los Angeles, onde se converteu em um playboy. Fundou a Getty Oil Company. Morreu em 1976, em Guildford.

Diante da mídia, o velho Getty é durão – Não! Nenhuma negociação com os sequestradores. Internamente, ele expõe suas contradições. Diz que ama o neto, mas fica irredutível quando Fletcher Chase, seu homem de confiança, levanta a possibilidade de que pode ter sido um autossequestro. Em conversa com o personagem de Mark Wahlberg, admite que não gosta de gente. Prefere investir seu dinheiro em coisas, objetos de arte, porque sabe que não vão mudar. As pessoas são vulneráveis – ele é de bronze, como as estátuas que coleciona na sua Xanadu, para lembrar Cidadão Kane.

Se o velho é duro, a mãe não se permite expor fragilidade. O repórter pergunta – “Que raio de mãe é essa que não chora?” E o policial – “Como ela pode se preocupar com fazer comida, numa hora dessas?” Talvez ajude dizer que a mãe não é uma Getty – Getty era o pai drogado. A mãe era filha de um juiz. Tenta manter o autocontrole. E Chase? Ele é um ex-espião que não anda armado. Sua arma é o dinheiro. Que a tudo e todos compra, menos essa mãe que se recusa a ser dolorosa. De cara, um letreiro adverte que o filme se baseia em fatos e que os diálogos foram ficcionalizados por necessidade dramática. Mas talvez não seja só isso. O velho Getty engessou a própria fortuna, e só concorda em pagar o resgate se puder descontar do imposto de renda. Ele transformou o dinheiro num fundo de investimento que não lhe permitia usufruí-lo. Para que serve o dinheiro, se não for para gastar?, pergunta a nora. E Chase, o fiel cão de guarda, rebela-se e diz ao velho as duras verdades que ele tem de ouvir.

Sem possuir exatamente uma Rosebud, o bilionário erra senil por sua Xanadu, como Charles Foster Kane na obra-prima de Orson Welles. (Há referências também a Lawrence da Arábia, de David Lean, sobre como Getty construiu a fortuna.) Baseado numa história real, mas não fiel, assim é o filme. O desenlace do sequestro e de Getty Sr. não foram como aparecem na ficção. Nem a vida de John P. III. Pobre menino rico – na vida, ele morreu em 2011, aos 54 anos, após mais de 30 confinado numa cadeira de rodas, em consequência de um derrame. Sabia do que falava ao afirmar – “Os ricos são os pobres da Terra. São uma minoria cuja desnutrição vem do espírito.” O filme é o melhor da fase recente de Ridley Scott, que resiste até a facilidade de criar algum romance entre Michelle Williams e Mark Wahlberg, para amenizar. O mais impressionante – o excepcional Charlie Plummer, que faz o neto, não tem parentesco com Christopher.

 

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