Steve Dietl/AP
Steve Dietl/AP

Rachel Morrison, uma cinegrafista fazendo história no Oscar

Diretora de fotografia de ‘Mudbound’ é a primeira mulher a ser indicada na categoria pela Academia de Hollywood

Entrevista com

Rachel Morrison

Sopan Deb, The New York Times

29 Janeiro 2018 | 06h00

Rachel Morrison, diretora de fotografia de Mudbound, abriu novos caminhos na terça-feira ao se tornar a primeira mulher a receber uma indicação para o Oscar de melhor cinegrafista.

O filme de época dirigido por Dee Rees, que narra a vida de duas famílias do Mississippi, uma branca e outra negra, durante a Segunda Guerra Mundial, está repleto de visuais ásperos revividos por Rachel Morrison. Como o título indica, é um filme com cenas em grandes planos que dão uma visão nada romântica do sul na época de Jim Crow.

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O grande sucesso de Rachel foi com o drama de Ryan Coogler de 2013, Fruitvale Station –A Última Estação. Seu sucesso é uma raridade em Hollywood. De acordo com o Centro de Estudo de Mulheres na Televisão e Cinema, as mulheres representaram 4% de todos os cinegrafistas que trabalharam nos 250 maiores filmes de 2017, uma queda de 11% em relação ao ano anterior. O novo projeto de Rachel é mais uma colaboração com Coogler: o filme Pantera Negra, da Marvel, que deve ser lançado no dia 16 de fevereiro nos EUA. Depois de viajar para Park City, Utah, onde participou como membro do júri no Festival de Cinema de Sundance, Rachel deu uma entrevista por telefone, falando sobre sua indicação, sua carreira e sonhos e sobre o novo filme de super-herói bastante aguardado. 

O que essa indicação significa para você?

Sinto-me muito honrada e espero que seja apenas o começo, e que mostre para as mulheres que elas podem atuar por trás das câmaras. É um sonho. É o que tenho buscado em toda a minha carreira e nunca pensei que ocorreria. E é uma tremenda honra ser a primeira mulher a ter essa indicação.

Quais são os maiores obstáculos que enfrentou como mulher por trás da câmera?

Nunca vi o fato de ser mulher como um déficit. Sempre considerei um ativo porque eu me destacava no meio. Em minha opinião este é um setor que tem muitíssimo sentido para as mulheres. Tudo tem a ver com empatia e trabalhar com a emoção e visuais. Não foi um desafio para mim. Talvez a questão dos orçamentos me fez demorar mais para ir dos filmes independentes para os filmes de estúdio do que meus colegas homens. Mas essa foi provavelmente a única coisa que considero como sendo um desafio.

Você acha frustrante ser qualificada como cinegrafista mulher?

Acho ridículo. Este é um trabalho neutro em termos de gênero e espero com impaciência o dia em que seremos todos chamados apenas de diretor e diretora de fotografia, do mesmo modo que professores e professoras, médicos e médicas, advogados e advogadas. E estou empolgada com o fato de o trabalho falar por si mesmo e não apenas se resumir em “eis o que cinegrafistas mulheres estão fazendo hoje”.

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Os efeitos visuais de Mudbound são bastante sombrios em comparação com alguns retratos pitorescos do Sul, como A Cor Púrpura de Steven Spielberg. Como decidiu seguir esse caminho e o quão desafiador foi em comparação com outros trabalhos seus?

Acho que isto se harmoniza com outros trabalhos meus. Decidimos realmente ousar ao máximo, deixando que cenas sombrias fossem incrivelmente sombrias. Tivemos cuidado para não glorificar o período. Mostrar em imagens apenas a beleza necessária para se entender que havia esperança e a razão pela qual as pessoas sonhavam em ter a propriedade da terra, mas que fossem escuras e granuladas para se compreender o que era de fato a realidade.

O quão diferente foi seu enfoque no caso de Pantera Negra em relação a Mudbound

Certamente não adotei imagens esmaecidas como em Mudbound; o filme é incrivelmente sombrio. Pantera Negra é um filme mais vivo, mais saturado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

 

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