Quentin Tarantino desconstrói códigos para decifrar a arte e o mundo

'Os Oito Odiados' chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, 7

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Janeiro 2016 | 05h00

Quentin Tarantino ainda não era muito conhecido quando veio a São Paulo pela primeira vez para exibir, na Mostra, seu longa de estreia, Reservoir Dogs – lançado aqui como Cães de Aluguel. Ele se lembra como foi gostoso usar o anonimato para fazer aquilo que gosta – ver filmes. É raro um diretor, como Tarantino, que não perdeu o entusiasmo pelo cinema. Ele continua esperando que seja uma forma de arte. Com certeza não é só uma profissão. Existem grandes diretores que não têm o menor interesse pelos filmes dos outros. Tarantino segue insaciável. Nutre-se de filmes. E torce para que o público compartilhe os seus.

Até agora tem dado certo. Tarantino ama os gêneros. Assalto, guerra, sabre, western. E ele tem essa ideia curiosa de que, para se especializar, um diretor precisa fazer três filmes do mesmo gênero. Tarantino ainda nos deve terror e ficção científica, caso resolva mesmo se aposentar após o décimo filme – Os Oito Odiados é o oitavo. (Jackie Brown não deixa de ser uma espécie de melodrama, só para constar.) É seu segundo western, após Django Livre. Nenhum deles é tradicional.

Tarantino não busca a pureza e simplicidade dos grandes mestres de Hollywood. Seus modelos são autores ‘impuros’ como Sam Peckinpah e Sergio Leone. Do segundo, e não exatamente com a mesma intenção ‘operística’, ele assimila a trilha de Ennio Morricone, que considera o maior compositor – não do cinema, mas de todos os tempos. As grandes linhas narrativas – o conceito – de Os Oito Odiados estão definidas na entrevista acima. Quatro paredes, muito diálogo, anti-heróis e, principalmente, anti-heroína.

A trama começa com Major Warren (Samuel L. Jackson) pegando carona na diligência em que Major Ruth (Kurt Russell) leva Daisy (Jennifer Jason Leigh) presa. Ela tem a cabeça a prêmio, eles são caçadores de recompensa. Chegam à pousada que serve de parada da diligência. Lá estão os demais odiosos, ou odiados. Ninguém merece confiança, e os banhos de sangue vão se sucedendo. Talvez, quando se fala em Tarantino, o assunto não devesse ser sua fascinação pelos gêneros, mas o fato óbvio, para qualquer analista de sua obra em processo, de que o próprio Tarantino virou um ‘gênero’.

Seus filmes são sempre muito falados, carregam nas explosões de violência e nas reviravoltas que desconstroem as tramas (e os códigos dos gêneros que fingem seguir). O papel da mulher, a instituição do duelo final, tudo é colocado em xeque em Os Oito Odiados. Nada nem ninguém é o que parece ser. É uma surpresa atrás da outra e ainda nem chegamos ao erotismo que o filme tem, emulado de outro grande ‘impuro’ que se exercitou no Velho Oeste – o King Vidor de Duelo ao Sol. Jennifer Jason Leigh, a Sean Penn de saias, revela o seu lado emprestado a outra Jennifer, a Jones. Só para constar, Tarantino achou graça da observação do repórter. Disse que o surpreendente dos filmes é que o que se diz e escreve sobre eles pode surpreender o próprio autor.

O convite é justamente esse. Apocalíptico, crepuscular, crítico, Tarantino faz o cinema desses tempos de crise. A nós, seu público, cabe levar adiante a reflexão, para tentar entender o mundo e o cinema. Mas se você quiser só se divertir, relaxe. A pauleira não nega fogo. É verbal, e física.

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