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'Que Viva Eisenstein! – Dez Dias que Abalaram o México' desperdiça um grande personagem

Peter Greenaway fixa-se apenas numa passagem da biografia do cineasta soviético

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2016 | 20h01

Que Viva Eisenstein! – Dez Dias que Abalaram o México é um filme movido pelo propósito de chocar. O autor, Peter Greenaway, é cineasta de talento, mas, por vezes, se deixa levar pelo desejo infantil de provocar. O eleito da vez é um dos ídolos do cinema de todos os tempos, o soviético Sergei Eisenstein (1898-1948), autor de clássicos como Encouraçado Potemkin, Greve e Outubro.

Greenaway concentra-se numa única passagem da biografia do soviético – a estada no México, na cidade de Guanajuato, onde seria introduzido à cultura mexicana e a otras cositas más. Eisenstein fora ao país filmar o documentário Que Viva México!, que ficou inconcluso. Mas Greenaway parece pouco se interessar nos dissabores dessa obra problemática. Na verdade, prepara todo o caminho para a cena em que Eisenstein (Elmer Bäck) recebe iniciação sexual do seu hospedeiro mexicano. Por isso, monta o filme de maneira rápida (e mesmo frenética e cansativa) para chegar ao seu cume. Como se precisasse chegar a um ápice que representasse uma espécie de divisor de águas existencial. A partir daí, sossega um pouco. O ritmo cai. Sem melhorar muito.

O filme tem qualidades. Greenaway é um esteta. As imagens são bonitas. Belas mesmo, destacando o colorido mexicano. Não surpreende quem conhece o trabalho anterior de Greenaway, marcado por uma obsessão barroca da imagem. Não raro, o cineasta britânico deixa-se levar pelo esteticismo, pelo exagero da busca por uma beleza que, ao fim e ao cabo, parece um tanto vazia. Seu cinema tem sofrido dessa espécie de síndrome que denota a contradição de quem domina todos os meios de expressão, mas, no fundo, não tem muito o que fazer com eles. Falta-lhe ter o que dizer. Há muitos anos, Greenaway afirma que o cinema acabou. O que tem levado muita gente a dizer que foi o cinema de Greenaway que, de fato, acabou. Exagero.

No caso, não se tratava de abordar os impasses de Eisenstein, o choque cultural entre o espírito eslavo e a flamejante cultura mexicana, as inibições diante do culto à morte típico do país latino, o desejo de liberdade sob a longínqua custódia de Stalin. Todo o interesse parece apenas concentrado na revelação de que Eisenstein era gay. Bom, a esta altura do campeonato, pode-se perguntar: e daí? Resumo da ópera: Que Viva Eisenstein! é apenas um filme tolo.

 

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