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Primeiro longa do Porta dos Fundos, 'Contrato Vitalício' foca em ator obrigado a fazer filme

Longa está previsto para ser lançado em junho deste ano

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João Fernando - ESPECIAL PARA O ESTADO,
O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2016 | 04h00

A Croisette, via onde acontece o burburinho do Festival de Cannes, ganhou uma versão carioca. Foi na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, que o Porta dos Fundos recriou parte do balneário francês, local essencial na história de Contrato Vitalício, primeiro longa do canal de humor, que começou a ser rodado na semana passada. 

Na trama, o cineasta Miguel (Gregório Duvivier) é premiado na França e sai para comemorar com o protagonista, Rodrigo (Fábio Porchat). Depois de muitos drinques, o ator assina um contrato vitalício em um guardanapo, em que promete participar de todos os filmes do diretor, que desaparece no dia seguinte. Dez anos depois, com uma carreira de sucesso, Rodrigo volta a Cannes como jurado do festival e se depara com o amigo, que aparentemente ficou maluco.

“Ele passa a ver o mundo habitado por intraterrestres, seres das profundezas, e quer fazer um filme sobre isso. Miguel consegue grana para o longa, que obviamente é uma droga. Nosso filme é uma brincadeira e crítica a esse mundo. É um cara que tem um sonho que engaja 200 pessoas para contar essa história, uma loucura da cabeça dele”, avalia Duvivier, enquanto recebe barba e peruca do personagem. “Ele fica meses filmando, não acaba nunca. É uma espécie de Chatô”, compara o artista, interrompido pelo maquiador: “Eu também fiz Chatô”. 

Acossado, Rodrigo se vê obrigado a aceitar o convite do diretor mesmo com a certeza de que o filme não será bom para sua carreira. “Ele começa a destruir o mundo do Rodrigo, que, na verdade, já estava destruído. No fundo, ele está limpando a vida do Rodrigo, cheia de pessoas que lhe fazem mal”, explica Porchat, que assina o roteiro com Gabriel Esteves. 

A história do longa, previsto para ser lançado em junho, surgiu de uma lembrança do diretor, Ian SBF, que, no passado havia feito um curta-metragem com Porchat, de quem é amigo há mais de uma década. Na ocasião, o cineasta disse que o ator poderia sempre trabalhar com ele. 

Segundo o colunista do Caderno 2, o risco de um ator entrar em uma roubada ao aceitar um trabalho, assim como Rodrigo, é iminente. “Nenhum ator sabe o que vai acontecer. Claro que você pode ter uma noção de que o que está fazendo é ruim. Até com coisa boas você fica na dúvida. Quando mostramos o primeiro vídeo do Porta dos Fundos para um grupo de análise, falaram que era horrível. A gente lançou e muita gente gostou”, relembra.

“No meu caso é diferente. Se eu sinto isso é porque estou fazendo muita m...Não tem muito o que fazer”, brinca Ian. “Você já escreveu (roteiro) evento”, rebate Porchat. “É verdade, mas não foi roubada, me salvou financeiramente”, devolve o diretor durante conversa da equipe com o Estado, num intervalo das filmagens. “É sempre a desculpa financeira. A minha roubada foi essa, precisava muito do dinheiro. Às vezes, você precisa pagar o aluguel e não aparece o trabalho que você quer fazer”, completa Luis Lobianco, intérprete de Ulisses, empresário de Rodrigo, que obriga o ator a aceitar todos os papéis e a dar entrevistas.

O personagem de Lobianco é quem dá o tom cômico nos momentos de tensão de Rodrigo. Ulisses está sempre ao telefone, conversando com figuras conhecidas. Na cena em que ele acompanha seu cliente ilustre no retorno a Cannes, ele tem uma longa conversa fictícia com Wolf Maya, diretor e ator de novelas da Globo, citado com frequência nas piadas do Porta. 

A cada take, ele chamava o artista por um apelido diferente, como “bandido”, “gulosa” e “sua louca”. “Wolf é uma entidade e tem bom humor. Eu não o conheço, mas sei que é um dos melhores preparadores de atores”, justifica o humorista. “Quando a pessoa não se leva a sério, leva na esportiva e se sente até homenageada”, afirma Marcos Veras, que no longa interpreta o jornalista Lorenzo, que acompanha todos os passos de Rodrigo em Cannes. 

Veras e sua mulher, Julia Rabello, são os integrantes do primeiro elenco do canal de humor presentes no longa. Por conta de compromissos com a Globo, o artista passou a fazer participações. Dos rostos conhecidos do Porta, apenas Clarice Falcão e Letícia Lima ficaram de fora do filme. Antonio Tabet, Gabriel Totoro, João Vicente de Castro, Thati Lopes e Raphael Portugal estão na produção. Entre as participações confirmadas estão apresentadores que interpretarão eles mesmos, como Marília Gabriela, Nelson Rubens, Leo Áquila e Sérgio Mallandro, que fará uma pegadinha com Rodrigo.

Primeira produção do Porta dos Fundos para a telona, Contrato Vitalício foi discutido com outros integrantes do grupo. “A profissão de roteirista é muito solitária. Quando tem todo mundo lendo e falando, aquela piada que você achava genial vira péssima. E ao contrário. Gosto de ouvir sempre as opiniões. É importante estar aberto para saber o que é engraçado e o que não é”, reconhece Fábio Porchat. “O roteiro é deles, mas como é um filme do Porta, precisa do grupo”, defende Ian.

“É um grupo que tem suas individualidades. Eles se juntaram para comunicar uma coisa nova e um caminho para o humor. Neste momento, estão crescendo nas carreiras individuais e no coletivo. Se o Fábio tem um projeto, ele leva. O Ian tem vários projetos. É uma produtora que abraça essas causas”, explica Tereza Gonzalez, produtora do longa e nova CEO do grupo.

ENTREVISTAS

'Vai ser difícil a Dilma fazer esquete' - Fábio Porchat

Por que vocês demoraram a fazer um filme do Porta?

A gente chegou a escrever roteiros e jogou fora, não queria fazer um filme só por fazer. Esse é o mundo do entretenimento, que a gente conhece. E é bom satirizar um pouco tudo isso. 

O roteiro tem algo da sua experiência pessoal?

Tem uma brincadeira sobre o que é comercial e o que é arte. Essa ideia de que uma peça comercial é só para ganhar dinheiro, como isso funciona na cabeça do artista. Trouxe isso um pouco da minha vida. Essa ideia de ter que estar o tempo todo fazendo alguma coisa. Na vida, faço muito o que quero. No filme, o Rodrigo faz o que mandam fazer.

No longa, o Rodrigo é instigado a mostrar sua intimidade à imprensa. 

Com a internet e as redes sociais, você já está expondo a sua casa, não precisa esta na revista, começa a mostrar uma intimidade que não existia antes. Uma repórter perguntou se eu era gay. Já perguntaram isso de várias formas.

Nas produções do Porta, figuras conhecidas são alfinetadas. Respondem bem?

Acho que o brasileiro está aprendendo a rir de si mesmo. Nos EUA, o Obama vai ao Saturday Night Live. Aqui, não tem isso. Vai ser difícil ver a Dilma fazendo esquete do Porta.

Como você acha que o público do Porta vai reagir ao filme?

Acho que vão dizer que, no começo, o Porta era muito mais engraçado, que agora se vendeu não tem a menor graça. As pessoas têm uma expectativa muito alta.

'Falar de cinema é falar da gente' - Gregório Duvivier

No filme, seu personagem cria um filme e deixa o ator numa roubada. Você já viveu isso?

Já fiz de tudo. Esse sentimento é muito comum. Você não sabe como vai ser o filme até ser lançado. Filme, peça, programa de TV. Ao contrário do teatro, que você ensaia dois meses antes, o cinema demora. Nunca se sabe se o filme vai ser bom. Todo ator é um cara que pula de bungee jump do abismo sem corda. Conheci o Ian (SBF, diretor) fazendo um longa que nunca estreou (Podia Ser Pior, 2010). Eu, Ian, Fábio e Tatá Werneck.

Já se arrependeu de ter feito algum papel?

Acho que nunca. Sempre valeu pela experiência, convivência com as pessoas, pois aprendi muito com diretores, equipe e elenco. Há alguns que fiz, mas não acho incríveis. Eu não me arrependo, mas não recomendo, não digo ‘não percam’. Eu sei que não é imperdível. Ator ama fazer cinema e acaba topando fazer essas aventuras. Dificilmente, o resultado está à altura. Nesse caso aqui, acho que vai estar. Tem muita autoironia, a gente se zoa muito, o mundo do entretenimento. No fundo, falar de cinema é falar da gente.

Empresários já o obrigaram a fazer papéis?

Tenho uma agente consciente. Mas já fiz um comercial de desodorante de pé em que eu era um dos dedos do pé. Já fiz teste para comercial de maionese que era sobre um cara perdido numa ilha deserta. Tinha que pegar a maionese, passar num coco, olhar para a câmera e dizer “hum”. Claro que pegaram coco velho e maionese vencida.

 

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