Divulgação
Divulgação

'Postcards from the Zoo' é diferente de todos os filmes da Mostra de Cinema

Fime poético tem seu contraponto em documentários que contam histórias de amor e ódio

Luiz Carlos Merten,

26 Outubro 2012 | 18h43

Fica tudo muito misturado na Península Malaia. Singapura é um país insular constituído por 63 ilhas, separado da Malásia pelo Estreito de Johor, ao norte, e das Ilhas Riau (Indonésia) pelo Estreito de Singapura, ao sul. Os elementos dessas culturas se integram. Há algo de especial e, ao mesmo tempo, misterioso no cinema que vem de lá. Há um par de anos, o diretor de Singapura Eric Khoo mostrou em Cannes My Magic e este ano Edwin participou da competição de Berlim com Postcards from the Zoo.

O filme não se assemelha a nada que você esteja vendo na Mostra. Conta a história de menina abandonada pelos pais num zoológico quando tem apenas 3 anos. Ela se cria naquele ambiente, em contato com os animais selvagens. Surge o caubói, dublê de mágico e alquimista. Ela se apaixona. Resolve ser sua assistente. Ele a transporta num trem de brinquedo que percorre o zoológico e ganha a cidade. A garota perde-se no mundo, vai parar com seu mentor num bordel, ou pelo menos assim parece. Há um gângster violento e massagistas seminuas.

Edwin foge aos dois estereótipos que rondam a narrativa de Postcards - não é a love story tradicional nem a velha trama renovada da garota ‘pura’ que se prostitui na cidade grande. As cenas no zoológico desenrolam-se muitas vezes num clima de sonho - a menina dorme e acorda mulher, uma girafa vira a terceira personagem mais importante - que remete ao cinema do tailandês Apichatpong Weerasethakul, de Mal dos Trópicos e Tio Bonmee Que se Lembra de Suas Vidas Passadas.

Os atores - Ladia Cheryl e Nicholas Saputra - são os mesmos do filme anterior do cineasta, Blind Pig Who Wants to Fly, Porco Cego Que Quer Voar. Há no cinema do autor essa busca da liberdade e da transcendência. Mas enquanto aqui sua narrativa é lírica, tênue, como se a câmera se perdesse entre personagens e ambientes, em Blind Pig usa o mesmo procedimento com outro objetivo - para colocar na tela as tensões sociais e raciais na Indonésia. Edwin parece um trânsfuga do cinema underground do passado. O experimentalismo dá o tom. O encanto, um tanto aleatório segundo a crítica em Berlim, não é por isso menos forte, mas depende muito da disponibilidade do espectador para preencher os vazios do relato.

Embora jovem - 33 anos -, Edwin já se tornou conhecido no circuito dos grandes festivais. Em fevereiro, logo após Berlim, o 6.º Festival de Cinema Asiático de Hong Kong lhe outorgou o Edward Young Award, que contempla um novo talento particularmente habilitado a renovar a arte da narração cinematográfica. O troféu homenageia o autor de Taiwan, morto em 2007 e homônimo do poeta inglês do século 17.

Diferentemente da estrutura errática de Postcards from the Zoo, a Mostra apresenta neste sábado, 27, e de forma corrida, no Espaço Itaú de Cinema, dois documentários que contam histórias de figuras muito conhecidas dos cinéfilos. Liv & Ingmar - Uma História de Amor, de Dheeraj Akolkar, às 14 horas, será seguido por Bergman e Magnani - A Guerra dois Vulcões, de Francesco Palermo, às 15h40. A própria Liv Ullman conta que, até hoje, nunca encontrou uma pessoa que não lhe perguntasse como foi a parceria com Ingmar Bergman. A história dos dois é filtrada pelas lembranças da atriz e diretora. O filme poderia se chamar Liv sobre Bergman, ou Liv Revela Bergman. Ele dizia que ela era o seu Stradivarius. Tanto isso é verdade que Bergman fez com Liv alguns de seus melhores filmes, levando ao limite a sensibilidade e o potencial dramático da atriz com quem foi casado.

A Guerra dos Vulcões, pelo contrário, trata de paixões desencontradas - de ódios? No fim dos anos 1940, Anna Magnani não era apenas a grande estrela do neorrealismo italiano. Era também apaixonada por Roberto Rossellini. Quando o diretor iniciou seu affair com Ingrid Bergman, com quem fez Stromboli, a reação de Anna foi imediata. Se o filme de Rossellini tratava da experiência mística de uma mulher junto à cratera de um vulcão, Anna fez Volcano, de William Dieterle, sobre prostituta que volta à cidade em que nasceu, é mal recebida e a terra treme. Em ambos os casos, a erupção do vulcão adquire sentido metafórico - ascese para Bergman, destruição para Magnani. Na guerra dos vulcões, o prestígio é do filme de Rossellini.

POSTCARDS FROM THE ZOO

Espaço Itaú Frei Caneca. Neste sábado, 27, 19h40; amanhã, 22 h; 2ª, 20 h.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.