'Persépolis' traz idéias coloridas em traços preto-e-branco

Longa está na programação da 31.ª Mostra e é o candidato francês ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2008

Flávia Guerra, do Estadão,

07 Outubro 2029 | 12h45

Quando se apaixonou pela arte dos quadrinhos, influenciada pelo professor e também quadrinista Pierre-François Beauchard, Marjane Satrapi nunca imaginaria que seria a representante da França à uma vaga no Oscar 2008 quando começou a literalmente desenhar sua vida em quadrinhos. A garota iraniana nascida em Teerã vivia em Paris, depois de passar anos em Viena, para onde tinha sido mandada pelos pais progressistas, que viviam vendo sua filha cerceada por um regime autoritário e machista. Ela completou os estudos na Áustria e seguiu para Paris, onde foi estudar artes gráficas.   Veja também:  Especial 31.ª Mostra    Desde seu nascimento, no fim dos anos 60, Marjane viu seu pequeno mundo islâmico mudar completamente. A garotinha viu seu país sair das mãos dos conservadores xás para as mãos do ditador Aiatolá Khomeini. Viu ainda o declarado e ousado comunismo em família se tornar fonte de caçadas aos tios e ao pai. A garota cresceu em um país onde a maior contravenção era acelerar o carro em alta velocidade e expor os cabelos ao vento. Ouvir música americana, calçar All Star e promover festinhas particulares regadas a vinho (clandestino, claro, produzido em casa por seu pai) podiam dar cadeia.   Em vez de se render ao regime ou de se tornar uma guerrilheira, Marjane fez do nanquim a sua arma. Em traços marcantes e sem frescura, retratou sua formação dividida entre o secular oriente e o eclético ocidente. Ilustrou sua vida em quadrinhos. Ganhou o exigente leitor de HQs, ganhou prêmios pelo mundo. E mais. Ganhou a parceria de Vincent Paronnaud, que dirigiu com ela o único longa-metragem em animação concorrente à Palma de Ouro em Cannes, em maio. Não levou a Palma, mas foi aplaudida em cena aberta e levou um Prêmio Especial do júri. Atualmente, ela vive em Paris. E aguarda ansiosa a nomeação dos cinco finalistas aos Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Marjane não fez um filme francês. Muito menos iraniano. Fez cinema. De primeira. Feminino, mas não feminista. Colorido em suas idéias. Preto e branco em seus traços e sombras. Imperdível para todos os fãs de quadrinhos, animação, cinema e para quem ainda acredita que (bem ao gosto de Edukators, o filme alemão) todo coração é uma célula revolucionária.

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